domingo, 23 de abril de 2017

A DESEMBARGADORA



 
Para Ana Cristina Larangeira, amada filha, que me pediu para inventar uma história num carnaval qualquer em Maricá.

Uma curiosidade: li certa vez que o escritor e poeta argentino Jorge Luis Borges, ao chegar num aeroporto foi interpelado por uma leitora, esta que entrou a comentar sobre um conto dele como se a história fosse real. Ele se emocionou com a cena, pois, afinal, tudo que escrevera não passava de ficção, nada era verdade. Este talvez seja o grande momento do ficcionista: tornar sua ficção capaz de se tornar realidade na mente do leitor. Daí é que, ao registrar este conto, também fui questionado pela Fundação Biblioteca Nacional nos termos do documento que a seguir oferto aos leitores. Sobre ele, a minha resposta foi simples, porém tocada por intensa emoção: "Trata-se de ficção da primeira letra ao ponto final." Eis o documento, que guardo com muito carinho:






I

Inicia-se mais uma sessão no Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. É dia comum, à história que vou contar não importa a data. Entre os vinte e cinco ilustres membros do colegiado destaca-se uma mulher. Chama-se Glória Maria da Silva, desembargadora de nome simples, sem sobrenome pomposo, coisa rara. Sim, ela era exceção. Nascida no subúrbio da capital, filha única de pedreiro e doméstica, quis o destino que viesse ao mundo com rara beleza e incontestável inteligência. O pai, de nome Bruno, reconhecido como exímio colocador de pisos e azulejos, conquistou bom espaço no crescente mercado da construção civil na Barra da Tijuca. Metódico e poupador, logrou estudar até o segundo grau, formando-se técnico em contabilidade. No mesmo colégio conheceu Andrea, que também concluía o segundo grau formando-se professora. Foi amor à primeira vista. Em pouco tempo, casaram-se e foram morar em casa própria que Bruno aos poucos construíra. Era uma casa pequena, de dois quartos, mas com esmerado acabamento. Bruno copiara um modelo de casa antiga, com varanda circundando-a, o que lhe dava a impressão de ser enorme. Experiente, Bruno desenhou e construiu um telhado alto, ficando a casa fresca e agradável. Agora não era apenas uma casa sem vida, era o abrigo da família: o seu lar.
Jamais o pedreiro atuou na profissão de contador. Seus ganhos nas obras asseguravam conforto e bem-estar à pequena família. Também Andrea não cuidou de ensinar, a não ser à sua filha, a quem dedicou todo o seu tempo e sua experiência. Ensinou-lhe a estudar com objetividade e a apreciar a literatura, dando preferência aos romances e contos nacionais e portugueses, demais de alguma poesia de real valor. Glória aproveitava deveras essa ajuda materna. Dedicava-se aos estudos com afinco, e tão logo concluiu o colegial ingressou na UERJ, formando-se em Direito com louros de primeira colocada, destacando-se como oradora da turma no encerramento do curso.
O entusiasmo de Glória pela magistratura emergiu no estágio que fez na Defensoria Pública. Na prova da Ordem dos Advogados do Brasil, sua performance encantou os responsáveis pela elaboração das questões. Sua inscrição foi com honras de quem estava efetivamente preparada para advogar. Mas seu destino era outro, sua vocação predominava, a magistratura não lhe tardaria. Logo no primeiro concurso, gravou com letras de ouro sua aprovação e foi nomeada juíza de direito. Contava apenas 23 anos quando rompeu as amarras da família e foi ao mundo jurídico. Com essa idade, mais que o destaque da juíza era o da bela mulher. Alta, corpo esbelto, olhos verdes, pele amorenada ao sol e cabelos negros como o azeviche, não lhe faltavam admiradores. Ela cuidava dos assédios com elegância e forjava uma barreira intransponível. Era juíza, não cogitava namorar e casar. Sua austeridade recomendava-lhe a espera do príncipe encantado, e ele inesperadamente surgiu numa festa familiar: o filho de um cliente do seu pai a inaugurar uma casa por ele construída. Chamava-se Carlos André, tenente da Aeronáutica, 24 anos, piloto de jato com perspectivas de carreira brilhante, tanto como a juíza. Mas a química se deu entre o homem e a mulher, com Glória reeditando a cena de seus pais: amor imediato. Casaram não muito tempo depois. Após dois anos a maternidade fez nascer o filho, Paulo, vendendo saúde. Cresceu feliz, amado pelo casal e fã incondicional da profissão do pai. Cortasse os céus qualquer avião, o menino, já com cinco anos, apontava-o e dizia:
– Aquele é o pai.
Glória vivia feliz em todos os sentidos. Sua carreira transcorria como a do marido: em “céu de brigadeiro”. E ela não se acomodou. Desde o casamento cuidara de ingressar no mestrado, aprofundando deveras seus conhecimentos, como sempre se sagrando aprovada com louros de excelência. Carlos André fora promovido a capitão. A felicidade da família era completa, não faltava nenhuma letra naquela palavra mágica e de difícil alcance. Sim, a felicidade estava ali, presente, levando o tempo a acompanhá-la humildemente, com o destino fingindo-se acomodado. Na verdade, porém, ele não estava satisfeito. Traiçoeiro, levou o pedreiro ao túmulo. Um infarto fulminante tirou a vida de Bruno, pai querido de Glória. Sobrou-lhe a mãe, o marido e o filho. Eram seu alento. Já com dez anos, Paulo consolava a mãe a seu modo:
– Mãe, não chore! O vovô está com Deus!
Ela se agarrava à criança e fingia crer nas palavras dela, e de certo modo cria, o que muito lhe ajudava a suportar a dor da perda. Não estava acostumada a perder; ganhara todas as batalhas até aquele estágio da vida. Foi duro suportar, mas o tempo trapeiro foi arrastando a família rumo ao futuro inevitável. Assim é a vida...
Para não deixar a mãe sozinha, Glória acomodou-a na sua casa. Era espaçosa; não foi problema. Carlos André adorava Andrea, e o seu papel de vovó-professora logo lhe ocuparia o tempo. Passou a cuidar de Paulo como cuidara da filha. O menino evoluía a olhos vistos e já aparentava um jeitinho adolescente. Estudava inglês concomitantemente com os afazeres normais do colégio, e ao completar 14 anos lograva terminar o primeiro grau, mesmo tempo em que recebia o seu diploma na Cultura Inglesa.

 II

Os anos seguintes foram decisivos para Paulo. Despertou-se nele o amor pela música. Mais três anos de estudo, vencendo o estágio dos 17 anos e terminando o segundo grau escolar, ele já tocava trompete com a maestria de artista famoso. Não houve como segurá-lo, ele partiu aos Estados Unidos para aprofundar seus conhecimentos da língua inglesa e de música. Radicou-se em Boston, enfrentou o inverno rigoroso e se foi firmando na profissão de artista. Estava decidido: não mais retornaria ao Brasil a não ser a passeio... Não veio a passeio, o mar levou Carlos André e o avião que pilotava. O corpo não foi encontrado, nem o avião. Nada. Não foi possível à família chorar o morto de corpo presente.
A Aeronáutica, depois das medidas de praxe, deu o caso por encerrado. Estava a juíza ante sua segunda derrota para o destino. Ficou-lhe a mãe, enquanto o filho embarcava aos EUA, poucos dias depois, a cumprir seu destino. Glória perdera dois homens e seu filho preferira acomodara-se em terras longínquas, fase dificílima em sua vida. Para resistir a tanto desgosto, a mulher cedeu lugar à juíza. Mas sua beleza, insistente, não lhe dava trégua, nem seus admiradores sossegavam com o elegante e indefectível “não” que recebiam. Olhavam-nos com aqueles olhos firmes de juíza e os intimidava muita vez sem dizer uma só palavra. Agradecia os elogios, sim, mas era só...
Atolada na tristeza, Glória enfiou-se nos estudos e partiu ao doutorado. Optou por sociologia, e seu empenho novamente levou-a à vitória. Sim, mais um laurel intelectual e profissional para contrabalançar as duas derrotas pessoais, troca ruim, sua felicidade perdera dois importantes pedaços. Sua alma não estava completa, nela passara a residir a saudade de seus homens. Restara-lhe tão-somente um homem, o filho, mas este se mantinha distante, embora se comunicasse bastante com a ela por telefone. Isto não era problema para ambos. O filho acumulara bom dinheiro e ela, quase desembargadora, ganhava um justo salário e quase não tinha despesas.
Apesar do infortúnio, Glória não descuidava da saúde. Caminhava diariamente pelas ruas do condomínio onde morava, na Barra da Tijuca. O seu dia iniciava-se invariavelmente com a higiene, o alongamento, a caminhada, o alongamento e o banho frio. Durante o desjejum, aproveitava para ler os jornais do dia. Às vezes mudava o desjejum de lugar e tomava sol à beira da piscina. Deixava as revistas para os fins de semana, aprofundando-se na leitura de artigos referentes ao mundo jurídico. Não se descuidava disso, urgia-lhe ocupar o tempo na tarefa do esquecimento de muitas lembranças que mantinham sua alma agitada. Coisas da vida...

III

Obstinada em tudo que fazia, a juíza trabalhava com disposição incomum. Preocupava-se sobremodo com suas decisões definindo o destino das pessoas que se lhe apresentavam na dolorosa condição de réus em processos criminais – sua especialidade. Era rigorosa nos julgamentos, porém jamais injusta. E assim seguia na carreira e em sua viuvez, que fez desaparecer a mulher e projetou a juíza de olhos firmes e educação esmerada. Não passava por nenhum funcionário do fórum sem lhe cumprimentar respeitosamente, sempre os mirando com uns olhos vagos, como se apenas cumprisse um ritual. Todos a entendiam; conheciam-lhe o motivo da tristeza; e a admiravam.
Glória era muito convidada para coquetéis e outras reuniões festivas. Esquivava-se elegantemente, sua vida se resumia ao lar e ao fórum, locais onde se enclausurava como freira cumprindo disciplina ascética. Só não conseguia ocultar a beleza estonteante. Por mais que fossem firmes, o verde dos olhos sobressaía-lhe no rosto moreno. Não era vaidosa como mulher, mas entendia que a juíza não se podia descuidar da aparência. Afinal, ela fazia parte de uma casta de julgadores e levava ao pé da letra suas responsabilidades legais, éticas e, sobretudo, morais. Enfim, por mais que se dissimulasse em austeridade, era simplesmente uma linda mulher.
A dedicação de Glória acelerou-lhe a carreira sem que houvesse qualquer premeditação. Quis o destino precocemente empurrar-lhe à promoção a desembargadora. E, se antes já acontecia de a juíza ocultar a mulher, agora é que ela desapareceu definitivamente. A própria rotina levava-a a ser assim categorizada: magistrada. No condomínio, o máximo que fazia era cumprimentar as pessoas durante suas caminhadas e eventualmente quando chegava ou saía. O percurso até o centro da cidade nem sempre a agradava, os congestionamentos eram de tirar o fôlego. Mas a desembargadora não perdia um só minuto: devorava o tempo na leitura de processos ou revistas técnicas e jamais olhava o mar.
Restrita à leitura, nem notava quando alcançava o prédio do Tribunal de Justiça. Alertada pelo motorista, entrava em qualquer elevador disponível, muitas vezes dispensando o elevador privativo, indo até o sexto andar. De caminho, cumprimentava seus colegas ou algum advogado que por ali circulava, rotina que se repetia como batida de relógio. Já no gabinete, exercitava-se em despachos com seus assessores, paramentava-se e se dirigia à Câmara Criminal para julgar com seus colegas os casos do dia, claro que devidamente estudados. Na verdade, cuidava até da distração de alguns sobre o assunto a ser avaliado. Confiavam tanto nela que nem liam miudamente o processo e lhe acompanhavam o voto, sendo ela relatora ou revisora ou simplesmente votante como membro do importante colegiado.
Glória jamais se negava a colaborar com os colegas. No seu íntimo, a desembargadora gostava da distinção e do carinho de seus pares, embora não manifestasse o sentimento. O olhar dela era o da desembargadora: firme e direto. Não havia como alguém se confundir e entrar a imaginar namoro com a viúva. O falecido ainda lhe ocupava o coração e a alma, malgrado o passar do tempo, que se rendera ao destino e lhe permitira afundar o jato de André no alto-mar. A viúva matara a mulher; a desembargadora a sepultara sem direito a exumação. E o tempo, indiferente e derrotado pelo destino, escorria...

IV

Não havia sintoma de mudança na rotina da desembargadora nem na da mulher, até que lhe veio a notícia, no Tribunal de Justiça, de que seria alçada à nobre condição de notável. Faria parte, como membro permanente, dos vinte e cinco desembargadores do Órgão Especial, honraria que a deixou deveras feliz. Era-lhe, sem embargo, um dos momentos mais auspiciosos da carreira. Ao final do expediente e das felicitações que recebeu, dentre elas um coquetel improvisado por seus colegas juízes, procuradores de justiça, promotores de justiça, desembargadores e proeminentes advogados, um destes últimos lhe enviou um lindo ramalhete de rosas amarelas. Ela arrumou-as numa jarra de cristal sobre a mesa que enfeitava, com uma pequena poltrona, um cantinho do seu gabinete de trabalho. Já sabia quem as mandara: era um advogado que enviuvara anos antes e que em sua data aniversária última lhe enviara as mesmas rosas amarelas, o que a fizera comprar às pressas a jarra: era o Dr. Luiz Felipe.
Curioso é que a homenagem lhe instituíra um problema eterno: manter sempre rosas amarelas na jarra, o que se tornou uma rotina de gastos. Não que lhe pesasse no orçamento, ela adorava rosas amarelas e não sabia como o advogado descobrira seu segredo. Mas lá estavam as rosas, pela segunda vez, acompanhadas de respeitoso cartão parabenizando-a por mais uma vitória na carreira. Quando ela leu o cartão e se lembrou da homenagem anterior, seus olhos firmes brilharam de maneira diferente. Eram os olhos da mulher, que, no entanto, logo se recompuseram e se tornaram firmes. Mas naquele átimo em que os olhos da mulher se abriram à vida, um raio de luz se enfiou e se alojou no seu coração de viúva feito quase de pedra.
Dentro do carro, a caminho do lar, no silêncio da noite que caíra, o motorista não lhe percebia as transmutações do sentimento, ora da desembargadora, ora da mulher que depois de tantos anos despertava para a vida. Pensou, sim, nos seus dois homens perdidos. Não lhe saía da cabeça a ironia do destino, que lhe dera o marido, mas lhe arrebatara o pai; e depois lhe dera o filho e levara o marido. E o medo do destino transformou sua efêmera alegria em trevas a se perderem na noite que circundava o carro. Se neste momento, caro leitor, lhe pudéssemos ler os pensamentos e avaliar seus sentimentos, não conseguiríamos ultrapassar o limiar da dúvida cruel. Porque oscilava dentro dela a mulher feliz ou assustada. Venceu, ao fim e ao cabo, o medo de a história se repetir: se outro homem lhe ocupasse o coração, poderia perder o filho. Trancou-se novamente na carcaça da desembargadora, seu mais forte escudo. Não havia mais como o destino, nesse caso, tirar-lhe o que lhe permitira conquistar. O tempo ganho como desembargadora estava consolidado. Todavia, a mulher só perdera tempo...
Perdera tempo, sim! Ela completara 50 anos sem sair de sua rotina. E nesta mesma batida de relógio chegou a casa e foi abraçar a mãe, que surgiu com um envelope nas mãos:
– É uma carta.
Ela estremeceu. Imaginou notícia ruim. Temeu por seu destino e sentou-se na sala para ler a carta. Nem comentou com a mãe o sucedido no tribunal. Foi direto à carta e em poucos minutos devorava-a em prantos copiosos e claramente eufóricos. A mãe dela observava-a em silêncio, sorrindo e compartilhando com ela da alegria desconhecida, até que ela se tocou e tratou de amainar a curiosidade da mãe:
– Mãe, é uma carta do Paulo. Ele diz que conheceu uma jovem lá nos Estados Unidos e está perdidamente apaixonado. Pretende se casar na próxima semana...
Na carta, Paulo lhe comunicava que fora a um jantar com os amigos Clark e John num restaurante chique no centro do Boston. Em lá chegando, viu no palco uma linda mulher e se deliciou de sua voz igualmente linda. Um conjunto perfeito de corpo e voz sobressaindo-se no palco ao som do jazz.
Ele não perdia um só movimento da vocalista da banda que se apresentava. Loira, não muito alta, olhos castanhos e melosos, corpo de mulata brasileira, chamava-se Mary. E qual não foi sua surpresa quando ela o identificou e anunciou, em inglês corretíssimo, a presença dele no restaurante:
– Meus amigos e amigas, temos hoje aqui, tentando o anonimato, um dos maiores trompetistas norte-americanos. Mas ele é brasileiro. Vamos aplaudir o Paul!
Sob aplausos, ela, sem perder o rumo da palavra, convidou-o ao palco para se apresentar e acompanhá-la numas canções, declarando-se tão brasileira como ele. Seu nome era o sobrenome da mãe dele: Maria. Do mesmo modo que ele se tornara Paul, ela se tornara Mary. E foram juntos à arte musical excitando os presentes. Nem é preciso aprofundar sobre o sucesso da apresentação, mas não há como deixar passar este momento do tempo para vencê-lo com a decisão do destino de despertar no casal um amor que seria eterno. Estava feita no palco a união de dois seres que haviam nascido para cumprir o destino da felicidade a dois. Não apenas a dois, pois a mãe lia e relia a carta para Andrea e ambas se deliciavam ao repassar cada palavra do único homem da pequena família.
– Filha, por que ele não telefonou? Por que preferiu a carta? Ele só escreve pautas musicais...
– Oh, mãe! A carta tem um sentido profundo. Por mais lindas que sejam as palavras, elas se perdem no tempo. A escrita vence o tempo. Veja só, mãe, ele fala em casamento e filhos. Planejaram uma menina e seu nome está escolhido: Ana Cristina. Que lindo, não é, mãe?
– Muito lindo! Pelo visto, serei bisavó em breve...
– Vamos rezar e torcer para ser menina. Será uma linda menina! E se chamará Ana Cristina! O destino, desta vez, não colocará água no chope...
Desataram uma risadaria. Em seguida, Glória contou à mãe as novidades do tribunal, avisando que ficaria de molho na banheira até lhe enrugar a pele.
Foi à suíte e se desvestiu. Abriu as torneiras da banheira e jogou sais e espuma de banho. Nua de corpo inteiro, mirou-se num grande espelho, não aquele do vaidoso alferes machadiano, mas o espelho da mulher que finalmente se via mulher. Em proposital intertextualidade do mestre da literatura pátria, não seria demais afirmar que naquele momento a mulher eliminou a desembargadora. Sem dúvida, era ainda uma linda mulher, merecia viver como tal abrindo seu coração ao amor. Por que não? O filho estava com a vida profissional e sentimental bem resolvida. Sem perceber, seu pensamento viajou até as rosas amarelas e ao advogado, que, devagarzinho, e “mui respeitosamente”, conquistara-lhe a simpatia. Faltava-lhe conquistar o coração, mas a fechadura não mais estava trancada. Ela mesma dera a volta na chave que mantinha seus sentimentos aprisionados ao passado e aos seus dois homens levados pelo destino. Não gostava do mar. Apreciava o verde das montanhas de Itaipava, distrito de Petrópolis, lugar aonde ia com certa frequência nos fins de semana e feriados. Sonhava às vezes com uma casa de campo rodeada de rosas amarelas em cuidadosos arranjos de jardinagem.
Perdida em seus pensamentos, Glória, a mulher, entrou na banheira e ali permaneceu a sonhar com o seu recanto verde, a casa de campo que não existia além da imaginação. Não logrou evitar que o advogado lhe entrasse furtivamente na mente e no coração. Namorou-o, é certo que sim! E acordou do sonho em sobressalto, entrando-lhe água pelo nariz. Dormira na banheira...

V

Desde muito tempo Glória não dormia tão bem. Relaxada e feliz, deitou-se e deixou que o sono lhe dominasse inteiramente. O tilintar do despertador trouxe-a de volta à realidade. Levantou-se no horário de sempre, fez a higiene, alongou os músculos e partiu à caminhada matinal. Deixou que o sol lhe acariciasse a face, encarando-o de frente. Sorria enquanto andava. Era toda felicidade. A palavra parecia-lhe completa, ou quase... Faltava-lhe um par constante e estava disposta a arriscar. Teria dois homens: o advogado das rosas amarelas e o filho amado. Mas o advogado era-lhe apenas uma intenção muito tímida. Não sabia como lhe poderia permitir uma “brecha”, como se usa no linguajar jurídico, para se insinuar ao homem sem ferir a ética da relação desembargadora-advogado. E seu pensamento oscilava entre a facilidade com que faria isto e a impossibilidade total de fazê-lo. Nem percebeu que o tempo consumira a caminhada. Alertada pelo relógio, tornou a casa e pediu à empregada que lhe servisse o desjejum à beira da piscina. Tomou seu infalível banho frio, vestiu um biquíni ousado e partiu ao encontro do rei-sol. A desembargadora dera-lhe trégua; a mulher tomara-se de deliciosa vaidade. Sentia-se bonita e mais queria ficar. O bronzeado da pele, no contraste com seus olhos verdes, mandava de volta a luz do rei-sol que de longe lhe sorria. Estava aberto o portal da felicidade. O Dr. Luiz Felipe teria uma chance, ela pensava de si para si. Só não sabia como se comportar ao reencontrá-lo...

VI

Cumprindo a rotina, Glória seguiu para o tribunal. Seu itinerário sempre evitava o mar. Não gostava de vê-lo tão imponente, roubara-lhe o seu piloto. Sentia uma profunda nostalgia ao lembrar-se do marido e do mar traiçoeiro que não lhe devolvera o corpo dele. Mas agora ela era outra pessoa, as boas notícias despertaram-na para a vida. O destino começava a perder para o tempo que ela decidira aproveitar por inteiro. A carta do filho produzira-lhe um efeito mágico, despertara a bela mulher de olhos firmes e de um verde penetrante. Nem tão firmes: ganhara um brilho invulgar, eram olhos de mulher, os da desembargadora ficaram para trás. Em chegando, passou cumprimentando carinhosamente os funcionários, algo que fazia como formalidade, por mera educação. Todos notaram a diferença e a atribuíam à promoção dela ao Órgão Especial. Afinal, ninguém poderia imaginar a desembargadora viúva com olhos de mulher, até porque sua indumentária se mantivera com a severidade de sempre.
Sem se preocupar com a imponência do seu cargo, e distraída, ela se enfiou no primeiro elevador disponível. Dentro dele, eis o Dr. Luiz Felipe. Que coincidência! Que choque!... Artimanha do destino?... Refeita, ela se lhe dirigiu em saudação:
– Olá, Dr. Luiz Felipe! Faz tempo que a gente não se encontra nas sessões. Tirou férias? – iniciou-se a desembargadora-mulher ou a mulher-desembargadora, ela não mais sabia quem falava.
– Que prazer, excelência! Tenho andado sumido, sim. Estou começando aos poucos a me aposentar. Estou aqui para fazer um apanhado dos meus processos. Não vim cuidar de nada importante. Vou aproveitar para tomar café com meus amigos desembargadores.
– Ótimo! Mas gostaria de convidá-lo a um café no meu gabinete. Que acha? – arriscou-se a desembargadora, sentindo-se ruborizada e imaginando-se refletida nos olhos dele como no seu espelho da véspera.
– Claro, excelência! Com certeza, o seu gabinete será minha primeira visita...
– Acho bom. Afinal, quero agradecer-lhe pelas rosas amarelas... Como o senhor descobriu que são minhas prediletas?
– Ah, excelência, segredo de ofício. Não posso dizer, mas garanto que se trata de pessoa que muito a estima.
– Tudo bem! Desejo de coração retribuir e comentar sobre aquelas primeiras rosas do meu aniversário...
– Quarto andar... Vou ficando por aqui. Tão logo termine a minha tarefa, vou direto ao seu gabinete. Obrigado pela gentileza.
– Eu é que agradeço. Estarei aguardando...
Glória foi ao sexto andar e se dirigiu ao gabinete. De caminho, cumprimentou alguns colegas que circulavam, recebendo ainda efusivas manifestações de apreço e muitos parabéns pela promoção. Não cabendo dentro em si de felicidade, adentrou o gabinete recomendando quanto ao cafezinho e que o Dr. Luiz Felipe fosse levado à sua presença sem delonga. Não viu que seus assessores, em seriedade ao receberem seu olhar firme, nem tão firme como antes, tão logo se sentiram livres de sua observação piscaram olhos entre si e se arriscaram a sorrir como a Mona Lisa. Todos a conheciam bem. Não era a desembargadora nem a viúva que falara, mas uma nova mulher.

VII

Na hora exata, Luiz Felipe chegou ao gabinete da desembargadora e foi gentilmente conduzido à presença dela. Não o recebeu a autoridade. Sorridente e afável, recebeu-o a mulher, convidando-o a sentar-se na poltrona cuja mesinha em frente servia de amparo à jarra onde, na véspera, ela depositara as rosas amarelas por ele enviadas. Estavam ainda viçosas e perfumadas.
A copeira trouxe-lhes café e água. Glória fez questão de servir e começaram a conversar descontraidamente.
– Luiz Felipe, vamos esquecer o tratamento pomposo. Não quero agradecer as rosas ao advogado, mas ao homem. Por favor, não se dirija a mim chamando-me de excelência. É Glória e mais nada.
– Está bem, Glória. Mas estou curioso. Você me disse que faria uma referência às rosas do ano passado. Que houve?
– Ora, Luiz, fui obrigada a comprar a jarra que está acolhendo suas rosas. De lá pra cá, jamais deixei a jarra sem rosas amarelas. Vou processá-lo por danos materiais. Venho gastando um dinheirão na floricultura. Praticamente três vezes por semana. Está vendo só o que você me obrigou a fazer? Como deixar a jarra vazia? Hoje eu compraria novas rosas. As suas chegaram em boa hora.
Desataram uma gostosa gargalhada, ouvida do lado de fora por seus assessores, todos com as anteninhas ligadas em extrema curiosidade. No melhor sentido, claro: torciam por ela e anteviam um futuro namoro.
– Luiz, fale-me um pouco de sua vida...
– Saiba, Glória, a minha vida não foi feita de muitos atropelos. Estudei bastante e milito no direito por vocação. Casei-me e ganhei uma filha linda. Seu nome é Vitória Ela está casada com um engenheiro e reside em Fortaleza. Como eu, ela também se dedica à advocacia. Ela me deu duas netas, a Luana, de oito anos, e a Yohana, de nove anos e um pouquinho. São lindas!
– E eu estou ansiosa por ganhar um neto ou uma neta. Meu filho me mandou uma carta dizendo que encontrou o amor da vida dele. Vai se casar rápido. Pelo que conheço dele, não seria demais admitir que a moça já engravidou. Ele nem esperará o recesso do judiciário para eu assistir ao casamento. Estou ligeiramente desconfiada, mas até torcendo pela gravidez precipitada da namorada dele. Moram juntos. Estou doida para conhecê-la. O nome dela é Maria, mas, lá nos Estados Unidos, tornou-se Mary. Até meu filho, que se chama Paulo, tornou-se Paul. Amo demais o meu filho, é o único homem da minha vida...
– Deve ser difícil pra você ter o filho tão longe. Mas, por incrível que pareça, comigo não é diferente. Pouco vejo a minha filha e não vejo minhas netas crescendo. Por isso penso aposentar e mudar-me para Fortaleza. Estou pesquisando algumas ofertas. Pretendo comprar casa em frente de alguma praia. As praias de lá são lindas. Eu adoro o mar...
– Hum... Prefiro a montanha. Como você deve saber, meu marido morreu no mar. O avião que ele pilotava caiu e desapareceu. Era oficial da Aeronáutica, deveria ter morrido no ar. O mar não me traz boas lembranças...
– Entendo. Curioso, não é? Estamos nos conhecendo e já detectamos um “conflito de competência”...
Foi bastante para novamente rirem juntos, assim demonstrando que saberiam administrar as diferenças.
– Engraçado, embora eu não esteja pensando em aposentadoria, ando pesquisando uns sítios lá por Itaipava. A mãe vibra com a ideia de morarmos em meio ao verde e às rosas amarelas...
– As mudas serão meu presente...
– Combinado! Ih, está na hora da sessão...
– Eu sei disso. Mas não posso sair daqui sem lhe convidar para jantar. Eu também moro na Barra, num condomínio de apartamentos...
– Imagino que seja de frente para o mar...
– Acertou! Também, com a “brecha” que eu deixei, foi fácil concluir. Posso ligar pra você? Que tal jantarmos no sábado? Eu ligo por volta das onze horas pra combinar. Está bem assim?
– Por mim, está ótimo. Combinaremos tudo na manhã de sábado.
Levantaram-se, trocaram telefones de suas residências e celulares, despediram-se com beijos na face, ainda bastante tímidos, e saíram juntos. Na entrada do Plenário, Luiz Felipe se comportou como o advogado despedindo-se da desembargadora: um aperto de mãos. Não tão comum assim. Havia quatro olhos faiscando em alegria. Estava selado o destino de ambos. A partir daquela troca de olhares, decidiram juntos recuperar o tempo perdido. Foi amor à “segunda vista”. As rosas foram os indícios, e custaram a descobrir a identidade de suas almas. Descobriram-na, porém, num só momento. E vivenciando esse clima diferente, a desembargadora encenou um olhar firme, ajeitou-se na beca e penetrou no Plenário. Mas quem a observasse com maior atenção notaria nos seus olhos verdes o brilho da esmeralda. O ambiente severo foi-lhe a salvação. Os desembargadores, compenetrados em seus afazeres individuais, não a olharam mais que o que manda a educação. Sorte dela, tudo começava bem e ela se felicitava intimamente pela coragem que teve de abrir a porta do coração para agasalhar seu novo príncipe encantado, o segundo homem de sua vida. Estremeceu ao pensar nisso...

VIII

O retorno da desembargadora deu-se além do horário de costume. A sessão se prolongou em votação inadiável, fato corriqueiro nos tribunais. Nada disso, porém, afetou sua alegria íntima. Dentro do carro, protegida pela noite, ela sorria. O motorista, com a atenção voltada para o trânsito agitado, nada percebia. Era uma quinta-feira. Mais um dia e haveria o ansiado encontro. Pensou em telefonar para o filho, mas a prudência lhe recomendou aguardar o máximo que pudesse. Não lhe cabia, na sua idade, comportar-se como adolescente. Mas seu coração saltitava, caro leitor, como na alegoria machadiana: em “cabriolas de volatim”. Não havia como controlar as emoções reprimidas durante tantos anos seguidos. A vida voltara à tona do seu mar de angústias, a palavra felicidade parecia-lhe novamente real. Tudo muito rápido. A felicidade do filho a contagiara: despertara a mulher adormecida dentro da viúva e da desembargadora. Renascera a mulher ainda no vigor da beleza física por conta do amor que lhe ia tomando o corpo e a alma. Sentia que Luiz Felipe seria o novo homem de sua vida, o pedaço que lhe faltava desde a morte de Carlos André. Sentia imensa saudade dele, do seu gênio bom, da amizade profunda com o filho, este que também o idolatrava. Contudo, via-se ela no direito de tentar ser novamente feliz. Por que não?
Ainda no carro, a mulher misturava-se à desembargadora e a vencia; a viúva, porém, resistia. Havia um representante vivo de seu marido, cópia física dele e razão maior de sua vida de mãe e mulher. Sem dúvida, seu coração estava dividido entre a certeza e a incerteza, entre a calmaria e a turbulência, entre a apatia da mulher e seu movimento rumo à felicidade. Mas estava decidida, não deixaria que o destino matasse de vez o seu tempo, que haveria de ser diferente. No fundo, sentia-se tola por se enraivecer contra o mar. Lembrou-se dos romances que lia na infância e do machadiano Conselheiro Aires dizendo: “Os mortos ficam bem onde caem.” Sim, que diferença havia entre um cadáver desaparecido no mar ou sepultado com honras?
– Chegamos, excelência! – disse o motorista trazendo-a de volta à realidade.
Glória, em seus devaneios, não percebera a entrada do carro no condomínio nem notara a casa esperando-a. Sua divagação fora profunda, perturbadora, porém lhe indicando um final feliz. Haveria de sê-lo, ela o merecia. Durante toda vida fora uma criatura perfeita: boa filha, estudante exemplar, juíza de direito respeitadíssima, desembargadora por mérito e autora de livros muito recomendados nas universidades. Fora boa esposa e mãe. Agora se sentia plena de liberdade. Moraria de frente para o mar, se fosse a escolha de Luiz Felipe. Via na relação, que mal começara, a maturidade da união estável. Sua experiência de vida garantia-lhe especular positivamente. Finalmente reencontrara o caminho da felicidade.
– Oi, filha, que cara de satisfação é essa? Que houve no tribunal – indagou Andrea alegremente, ainda aparentando disposição de jovem apesar da idade.
A filha mirou a mãe cogitando suas possibilidades idênticas. Cinquenta anos eram poucos. Iria longe no tempo, e mais ainda sendo feliz. Não havia por que temer o destino. O proprietário da vida é o tempo. Este, sim, é inexorável. O resto é cuidar da saúde física e mental, e, principalmente, das emoções. O sentimento é o fiel da balança cujos pratos disputam o maior peso: vida ou morte?... O destino é aleatório, pertence a Deus, ou então foi criado por Ele para tornar a existência uma aventura de sofrimentos e prazeres: o sal da vida. Conceber uma felicidade plena sem ter como compará-la a nada que a contraste e contradiga é quase que aceitar qualquer situação como verdade sem direito à réplica. A realidade da vida é o contraste, é o bem e o mal, o dia e a noite, a tristeza e a alegria. É, enfim, o viver e o morrer, daí a urgência do tempo e do viver feliz enquanto ele, o tempo, nos ministra seus contrastes inevitáveis. O destino é o corte aleatório das realidades. O destino é incontrolável, sim! Dependente da sorte de cada ser vivente, sim! Mas feito por Deus para demonstrar a importância da vida e de seus prazeres. Renegá-los não é viver. Matar a vida antes da morte não é bom caminho existencial. Respeitar as regras de convivência não implica abominar as alegrias permitidas. Assim concluía a mulher de nome Glória Maria da Silva. Não a viúva nem a desembargadora, não a filha nem a mãe, mas a mulher.
– Mãe, estou cheia de novidades pra lhe contar. Mais que ontem ainda. Parece até que me enfiaram num túnel do tempo e me levaram à adolescência. Mais tarde eu sento com você e conto tudo.


Depois de tomar banho, Glória sentou-se à mesa com Andrea. Mais animada que antes, entrou a relatar o inusitado dia para a mãe:
– Mãe, lembra as rosas amarelas que recebi, no ano passado, pelo meu aniversário?
– Lembro, sim. Foi um advogado o autor da corajosa façanha de cortejar a viúva mais importante do tribunal. Mas você bem que gostou, não sei se das rosas somente ou do personagem que as enviou.
– Ele foi respeitoso. Aliás, sempre se comportou como um cavalheiro no tribunal. É bastante estimado por meus colegas. Mas saiba que é muito bonito. Acho que regula a minha idade.
– Hum... Que animação é essa?
– Encontrei-me com ele casualmente no elevador. Ontem, ele me havia mandado rosas parabenizando-me por minha promoção ao Órgão Especial. Não resisti e o convidei a tomar café comigo no gabinete. Ele aceitou e conversamos muito. Ele é viúvo e tem uma filha, casada, que mora em Fortaleza. O nome dela é Vitória. Ela tem duas filhas, a Luana e a Yohana. O marido dela é engenheiro, mas ele nem me disse o nome dele. Deve ter esquecido, depois eu pergunto.
– Depois?...
– Sim, mãe. Vamos jantar no sábado. Ele vai ligar por volta de onze horas. Não sei, mas a carta do Paulo parece que me fez renascer...
– Tomara que dê certo, filha. Preocupo-me demais com meu neto. Ele está muito afastado da gente e age às vezes como se o pai estivesse vivo. Creio que a ficha dele ainda não caiu...
– Nem a minha, mãe. Só agora, que decidi acordar pra vida, é que percebi a possibilidade de ser novamente feliz. Carlos André está morto. Eu o amava. Mas o meu coração está renascendo. Não vou dizer nada a Paulo por enquanto. Não sei se dará certo. Vou esperar...
– Faz bem, filha. Não se precipite. Não vá fazer como ele, que acabou adiantando o expediente engravidando Maria. Ou Mary, sei lá como a chamo...
– Isso é detalhe mãe. Maria ou Mary, Paulo ou Paul, a verdade é que seremos brindadas com uma netinha ou um netinho. E você vai ser bisavó, hein?...
– Tudo bem! Que eu seja bisavó! Só não posso ser avó novamente – atalhou Andrea em sorriso maroto.
– Que isso, mãe! Tá maluca? Não comecei a namorar Luiz Felipe nem estou em idade de ter filhos. Mas quero pelo menos tentar ser feliz com um companheiro que me ame, um novo príncipe encantado...
– Ih, tá adolescente mesmo, hein? Pelo visto, nem começaram a namorar, mas decidiram isso muito antes.
– Pode ser, mãe, pode ser. Conto com sua torcida. Espero que você goste dele.
– Hum... Rosas amarelas... Já gostei, filha, já gostei...
Conversaram, mãe e filha, durante mais algum tempo, e se recolheram. Na cama, Glória pensava na preocupação da mãe com o neto. Não deixava de ter razão. Não devia apressar o assunto com Paulo. O tempo lhe diria que fazer. Mas o destino parecia ter cuidado de torná-la novamente mulher, e nem sempre o destino é ruim com as pessoas. Só não manda aviso. Com esses pensamentos lhe ocupando, foi vencida pelo sono e chegou a sonhar com a casa de campo. E adormeceu profundamente.

IX

A sexta-feira se iniciou sem atropelos. Glória cumpriu sua rotina caseira e partiu ao tribunal. Não haveria sessão do Órgão Especial e ela decidira dar uns retoques no seu gabinete. O despertar do coração cumpria seu papel animador. A formalidade do ambiente cederia lugar à informalidade da mulher. Na verdade, Glória recebera o gabinete de um desembargador que se aposentara, e ela nada lhe acrescentara além da jarra, mesmo assim por causa das rosas amarelas que a surpreenderam. Não fossem as rosas enviadas por Luiz Felipe, com quem se relacionava em cordialidade restrita à desembargadora com a parte advogada, nada teria mudado. Mas agora era diferente, o advogado ganhara dela o direito de tratá-la como mulher e não com o profissionalismo exigido de ambos pelo rito jurídico. Isto continuaria a acontecer, porém com os impedimentos que a lei prevê para evitar nulidades judiciais. Nem a eles interessava saber de causas, e processos, e decisões, e sentenças, nada. Dali em diante seriam o homem e a mulher e não haveria motivo para ocultar de ninguém o relacionamento amoroso, caso se consolidasse, e tudo caminhava nesse sentido.
O dia foi tranquilo para a desembargadora e entusiasmado para a mulher. Depois de conversar com sua assessoria e definir as mudanças ambientais permitidas à solenidade do cargo, ela saiu para almoçar com uma assessora amiga e acompanhante nos últimos anos. Chamava-se Marcelly, funcionária de carreira, quase indo à aposentadoria, casada com um juiz aposentado. A relação amorosa da amiga começara no fórum e terminara na igreja. Marcelly estava com seus filhos formados em direito, como o pai. Eram dois jovens promissores, ambos casados e pais de dois meninos cada um. Não viera à família dela nenhuma menina.
– Veja como é a vida, Marcelly. Eu anseio por uma neta que tem nome já escolhido.
– Qual será?
– Ana Cristina.
– Bonito nome. E se nascer menino?
– Não sei. Acho que meu filho não cogitou tal possibilidade. Enfiou na cabeça que será menina e fim. Ele é desse tipo resoluto e sua mente funciona como se o destino lhe pertencesse. Mas se vier um menino, será como ele e o pai. Serão dois amigos inseparáveis enquanto existirem – emocionou-se a desembargadora.
– Oi, Glória... Cadê a desembargadora? Eis a mãe por inteiro. Há quanto tempo eu não a via assim, com seus olhos expondo seus sentimentos íntimos. Hum... Aquela visita de ontem. Conta pra mim, conta! – provocou Marcelly.
– Sua fofoqueira! Estou aqui imaginando a conversa de vocês do lado de fora...
– Ah, que fazer? E a risadaria que a gente ouvia? Não tenho nenhuma dúvida, minha amiga, de que o cupido flechou você. Quer saber? Desde o ano passado. Aquelas rosas amarelas despertaram você para o mundo e para a vida. Pensa que não percebi? Talvez até antes de você, minha amiga.
– É verdade, Marcelly. Eu só não quis admitir. Impus à desembargadora e à viúva a discrição e o afastamento. Nem mesmo respondi ao cartão. Fui grosseira, mesmo! Nem sei por que ele me mandou rosas novamente...
– Não sabe? Ora, amiga, sabe sim!... Ele me perguntou discretamente se você tinha gosto por flores. Liguei pra sua mãe...
– Hum... Só podia ter sido você. Amanhã vou jantar com ele na Barra. Estou animada e ao mesmo tempo preocupada. Enfiei na cabeça que o destino não me quer bem, embora o tempo mantenha-me mais jovem e saudável que mereço.
– Que isso, amiga? Você merece, sim. E muito! Você é excelente magistrada e muito amada pelos funcionários do tribunal. Não há quem não goste de você, apesar de sua austeridade, desse olhar firme que é sua marca pessoal. Não há por que o destino não lhe privilegiar como pessoa humana. Vá em frente, amiga! Reconquiste a felicidade.
Não haveria de haver melhor companhia para o almoço. Glória retornou de braços dados com a amiga e não se importou com o espanto dos funcionários ao verem a subalterna lado a lado com a autoridade superiora. Eram ali apenas duas amigas íntimas, e nenhuma lei seria capaz de evitar manifestações de amizade entre chefes e subordinados, nem ali nem em lugar algum. E com esse espírito livre a desembargadora concluiu seus afazeres funcionais naquela sexta-feira especial: era véspera do ansiado encontro. Conquistara seu segundo homem, com ele lhe trazendo nas algibeiras a felicidade em forma de amor. O tempo e o destino que se conformassem! E tornou a casa na Barra da Tijuca...
 X

O sábado amanheceu com um sol sorridente a banhar o Rio de Janeiro. Sua cumplicidade com os banhistas estava garantida naquele fim de semana. O anúncio da meteorologia fora categórico: tempo bom! E exatamente às onze horas o telefone de Glória tilintou. Era Luiz Felipe em combinação britânica.
– Oi, Luiz! Pontual, hein?
– Verdade, Glória. Mas já fiz muita coisa hoje. Pulei cedo da cama, caprichei nos exercícios do costume e agora estou como você, deliciando-me com um café caprichado.
– Estou, mesmo. E na beira da piscina, onde gosto de ficar em dias ensolarados. E logo mais? Como faremos?
– Estou pensando em passar por aí às nove horas. É bom horário?
– Está bem. Mas estou sem saber que roupa eu visto. Não costumo sair assim, e meu guarda-roupa é muito formal. Como devo me comportar?
– Bem, Glória, estou pensando levar você a um lugar de boa comida e boa música pra dançar, mas bem informal. Sabe como é na nossa profissão: só trajes formais.
– Como você se irá vestir?
– Uma calça jeans básica e uma camisa de manga curta. Roupa leve, apropriada ao verão. Está um calor daqueles. Sugiro-lhe mais ou menos isso...
– Tudo bem. É cedo. Vou ao Barra-Shopping dar uma renovada no meu guarda-roupa. Quem diria, hein, eu de calça jeans? Mas gostei da ideia.
– Você não mais deixará de usar roupas assim. É muito bom tirar aquela casca solene que somos obrigados a usar por conta da profissão. Então está combinado, não vou mais tomar seu tempo. Até mais. Beijos.
– Pra você também. Até mais!...
Desligou o telefone, partiu ao banheiro, tomou outro banho frio, vestiu-se às pressas e foi às compras. Tornou a casa, por volta das quatro horas da tarde, cheia de sacolas e produzida em salão de beleza para o esperado acontecimento. Parecia, sim, uma adolescente. Encheu a mãe de perguntas sobre como estava, se o cabelo lhe ficara bonito, se a cor do esmalte combinaria com a roupa, enquanto jorrava as peças que adquirira, desde as mais íntimas aos modelitos arrojados e modernos. Só não abriu mão de comprar sapatos altos. Não estava acostumada a calçar salto baixo. Somente o tênis e suas roupas de caminhada compunham sua informalidade máxima.
Depois de tomar uma ducha fria, Glória relaxou em frente da poltrona beliscando algumas frutas. E ali mesmo adormeceu, despertando por volta das sete horas. Daí em diante foi pura correria, um ritual de põe roupa, tira roupa, combina isso com aquilo, não combina nada com nada, nervosismo, põe sapato, tira sapato, ufa!... O espelho chegou a cansar-se de tanto que refletiu a imagem de Glória transmudando-se a cada minuto. Mas às oito horas o seu traje repousava sobre a cama. Escolhera cada peça com o esmero de quem está indo ao próprio casamento. Enquanto o traje repousava, ela também o fazia dentro da banheira em água quase fria. Estava totalmente relaxada, sentindo-se ótima e entusiasmada com a aventura que se iniciaria com a chegada do seu príncipe encantado. E ele chegou, sendo recebido por Andrea:
– Boa noite. Sou Andrea, a mãe.
– Muito prazer. Sua filha é muito bacana. Parabéns pela filha e obrigado pela carinhosa recepção.
– Que isso!... Nada a agradecer. É um prazer recebê-lo. Glória está em seus últimos retoques. Vou comunicar sua chegada...
Não precisou. Glória surgiu na sala toda arrumada, espantando até a mãe dela. Estava incrivelmente linda! A informalidade da roupa funcionava nela como máquina do tempo. Eram tão estonteantes a beleza e a elegância da mulher que Luiz Felipe sentiu-se encabulado. Na verdade, se a lua a pudesse mirar, recolher-se-ia envergonhada ante tanta beleza; se fosse o rei-sol, ele sentiria ciúmes de Luiz Felipe. E se as esmeraldas falassem, decerto diriam em despeito que os olhos verdes da mulher possuíam mais brilho.
– Boa noite, Luiz! Que cara é essa? Estou feia? – brincou Glória sentindo-se à vontade.
– Boa noite, Glória! Desculpe-me o espanto. Você está incrível! Parece uma estrela de cinema. Acho que vou contratar segurança pra afastar os concorrentes – tentou brincar Luiz Felipe, mas, na verdade, só conseguia balbuciar as palavras.
– Vamos, Luiz! Mãe, estou indo. Não se preocupe com hora. A noite promete ser longa, e hoje o Luiz me começará a ressarcir as rosas que comprei durante um ano.
A palavra descontraída de Glória animou seu par. Na saída da casa, Luiz e Glória ficaram um pouco sem saber que fazer com as mãos, mas ele tomou a iniciativa: segurou a mão dela e foram ao carro. Andrea, da varanda, admirava a elegância da filha e se regozijava por vê-la novamente feliz. Mãos dadas, casal namorado, o neto casando nos EUA, tudo se encaixava naquela família que durante muitos anos esquecera o significado da palavra felicidade. Agora a palavra se ia formando com extraordinário vigor. Não haveria retorno. Desta vez o destino teria de ceder seu poder ao tempo. E o tempo seria consumido com prazeres, não mais com tristezas nem saudades doentias.
Andrea talvez estivesse mais feliz que Glória. Torcera deveras para a vida da filha mudar de rumo. Não gostava da desembargadora. Para ela, mãe, aquela não era a filha verdadeira; também não gostava da viúva, que não devia ter alongado o tempo da saudade nem transferido a culpa do destino para o mar. Houvera uma fatalidade, sim, os entes queridos lhes faziam falta, mas a vida deveria continuar com alegria, já que não há como mudar a sorte nem travar o tempo. São coisas de Deus.

XI
 – Glória, espero que goste do restaurante que escolhi para esta noite especial. Mas preciso saber se você aprecia frutos do mar pra dissipar minha preocupação...
– Que isso, Luiz! Não gosto de mar, mas gosto de saborear as delícias que ele nos proporciona.
– Ótimo! Então escolhi bem. Que tal comermos lagosta ouvindo um piano? Há também uma banda revezando com o pianista. O estilo é dos anos sessenta e setenta. Muito legal.
– Está perfeito. Onde é o restaurante?
– É na Praça do Ó. O nome dele é Vice-Rei. Gosto muito de lá. Você come lagosta?
– Adoro! Será que minha roupa estará compatível com o ambiente?...
– E como! Duvido que haja alguém mais linda no restaurante. Nem hoje nem nunca! – brincou Luiz Felipe puxando levemente o rosto de Glória para mirar os olhos delas.
– Hum, Luiz, estou um pouco nervosa. Não repare minha timidez...
– Não se preocupe. Tenho certeza de que nossa noite será inesquecível. Você gosta de vinho?
– Gosto muito. Há bons vinhos para consumirmos com frutos do mar. Mas deixo a escolha com você.
– Costumo pedir ajuda ao maître. Ele sempre apresenta boas sugestões.
– Então só falta chegarmos ao restaurante.
– Falta pouco.
Chegaram, estacionaram o carro, desceram de mãos dadas. Ela, sorridente e com os seus olhos verdes faiscando em emoção, deixava-se conduzir confiante no seu homem, Por essa hora, caro leitor, compartilhe comigo, não há de haver dúvida: estavam namorados um do outro. A paixão dominara-os intensamente e o amor emergia como o desabrochar de uma rosa amarela em seu canteiro original. E nesse clima de cumplicidade alheia ao que havia no entorno deles, sentaram-se à mesa anteriormente reservada. O maître apressou-se, solícito, oferecendo à dama a carta de vinhos. Ela gentilmente a repassou a Luiz Felipe, que, por sua vez, disse ao maître:
– Confio na sua escolha.
– Obrigado senhor. Então esperarei o pedido do jantar pra lhes sugerir o melhor vinha da casa.
– O pedido é simples, está desde antes decidido: lagosta à moda da casa.
– Ótima escolha! Então, enquanto seleciono o vinho, o casal pode ir ao aquário escolher as lagostas? – sugeriu o maître.
– Claro! – exclamou Luiz Felipe, ao mesmo tempo estendendo a mão para Glória, que também se levantou.
Foram ao aquário, escolheram as lagostas e tornaram à mesa. O maître já os esperava com o vinho nas mãos. Aprovada a escolha, o vinho foi levado ao balde de gelo para ser degustado em temperatura baixa. Era um vinho branco, francês, de boa safra.
– E aí, Glória? Gostou do lugar?
– Perfeito. Estou ouvindo a moça cantar e me lembrei do Paulo. Curioso, foi durante um jantar que ele avistou pela primeira vez o amor da vida dele.
– Que romântico, não é?
– Sem dúvida! Nada como boa música para nos acalentar. Você sabe comover as pessoas...
– Que isso, Glória? Vou ficar encabulado...
– Não fique sem jeito, por favor! E me desculpe a emoção. É que estou realmente gostando de você e me sentindo viva. Faz tempo que não acontece comigo.
– Ah, Glória, não posso negar que sinto a mesma sensação. Desde que enviuvei espero este momento. Nunca me interessei por nenhuma mulher, apesar dos assédios...
– Convencido!... Saiba que eu andei espantando muitos fãs também...
– Sei disso. Por isso não me arrisquei a mergulhar fundo. Contei com Marcelly e com sua mãe pra desvelar seu segredo sobre as rosas amarelas.
– A mãe também? Ah, que danada!
– Nem sei se ela entendeu a indagação de Marcelly na época. Aí está meu “segredo de ofício”...
– Da Marcelly, eu já sabia. Mas de mamãe, esta foi novíssima. Você realmente é um bom advogado até pra conquistar uma mulher...
– Conquistei?...
– Sim! – Glória respondeu com um sorriso significativo, assumindo estar totalmente apaixonada por Luiz Felipe.
Trocaram um selinho rápido, estavam abertas as portas de seus corações para o amor entrar. O advogado lograra encontrar uma “brecha” no livro do destino; aproveitara-se de uma distração dele e partira o escudo que a impedia de novamente alcançar a felicidade. Sua arma era a flecha do Cupido. Com ela conquistou o amor de Glória...
Jantaram. Ouviram o pianista. Ao final do jantar, a banda tomou o palco e iniciou uma sequência de músicas suaves, boas de dançar. Foram à pista e ficaram por quase uma hora dançando sem parar. E, como não poderia ser evitado, trocaram beijos acalorados, assumindo publicamente o amor e a vontade de não mais parar no tempo. Saíram do restaurante com o convite de Luiz Felipe por ela aceito: iriam conhecer a casa dele e degustar mais uma taça de vinho. Glória cumpria docilmente seu papel de mulher apaixonada, ou fogosamente, embora seu fogo interior ainda não lhe saltasse pelos olhos. Olhos que, ao brilho do luar sobre eles incidindo, projetavam-nos aos céus como dois holofotes com lentes de esmeralda. E toda aquela luz penetrava os olhos de Luiz Felipe e explodiam em seu coração. Assim chegaram ao apartamento, e as horas que lá passaram, e o que fizeram, deixo por conta da imaginação dos leitores e leitoras que até aqui me acompanham na narrativa, esperando que todos tenham vivenciado um mesmo momento mágico de troca entre dois corpos amantes, ignorando o tempo, o destino, o mundo, o universo... Enfim, ignorando tudo!

XII

No céu, o rei-sol acordava em lindo crepúsculo matutino. O casal deixou o apartamento e retornou ao condomínio de Glória. O porteiro, sonolento e discreto, abriu-lhes a entrada. Entraram. No hall, trocaram beijos apaixonados e marcaram novo encontro à noite. Iriam ao teatro, no Leblon, e depois fariam um lanche para encerrar o domingo. Não havia mais que questionar. Eram namorados, o que valia para tudo e todos: para a desembargadora, para a viúva, e para a mulher que superara a duas primeiras; e para o advogado, para o viúvo, e para o homem que igualmente vencera as aparências anteriores e conquistara com a sutileza das rosas amarelas enviadas à mulher oculta na desembargadora-viúva em sua data aniversária.
     Fora um chamado a uma nova vida no seu dia de nascimento. Ela entendera o recado e guardara-o no seu íntimo. Entretanto, não resistiu ao segundo buquê. Estava entregue à sorte. Fora ao mundo reviver-se e pagaria qualquer preço por sua felicidade. Assim cogitava ao deitar-se para trocar a noite pelo dia, experiência que até saíra de sua memória feminina. Agora, quem adormecia era a mulher-adolescente-apaixonada. E dormiu um sono de anjos. Não sonhou com nada até despertar às quatro da tarde. No seu apartamento, Luiz Felipe fez o mesmo...
Às sete horas, o casal deixava o condomínio, indo direto ao Shopping do Leblon. A peça começaria às oito horas, não se deviam atrasar. Havia, porém, tempo de sobra. De caminho, foram muitas as palavras carinhosas que trocaram. Suas vozes estavam tão afinadas no discurso namorado que mais parecia uma ópera cujos interlúdios se manifestavam por pequenos toques dela no cabelo e nas mãos dele, enquanto ele atentamente guiava a carruagem. Sim, uma carruagem conduzida pelo príncipe encantado. Ela seguia feliz e agradecida ao destino, que, decerto, espreitava os namorados, mas se mantinha alheio aos sentimentos deles. Assim deixava o tempo ser aproveitado pelo casal enquanto seguia ao seu futuro eterno e desconhecido.
Sem perceber que eram seguidos pelo destino, Luiz Felipe e Glória curtiam cada minuto de felicidade. E quanto mais aproveitavam juntos os benefícios do amor sincero, mais o tempo acelerava. Tempo bendito, sim, mas que se torna maldito ao dar velocidade à felicidade em direção ao fim inexorável de tudo. Talvez pior lidar com ele que com o destino, este que não faz correr o tempo, apenas o interrompe sem qualquer lógica que se explique a não ser pelo absurdo aleatorismo e por seu desprezo aos adultos e crianças, pelo dia e pela noite e pelos lugares. Atinge a ambos, indistintamente, e não demonstra qualquer arrependimento. Simplesmente cumpre sua finalidade e nada mais.
Também alheios às armadilhas do destino, Glória e Luiz Felipe assistiam à peça teatral divertindo-se com as encenações da atriz Samantha Schumutz, que representava no palco diversos personagens em quadros distintos e motivadores da escolha do título da peça: “Curtas”. Excelente escolha, o casal deixou o teatro ainda contagiado pelo espetáculo. Toda aquela roupagem de corpo e espírito da magistrada e do advogado parecia-lhes nem existir. Ali estava um casal enamorado. No mesmo local, numa lanchonete comum, pediram um lanche rápido. Depois partiram ao apartamento dele. O resto não lhes importava. O dia seguinte que tivesse paciência, especialmente com ela, que tinha afazeres no tribunal, mas podia mui bem controlá-los. O benefício do prazer que a aguardava valia uma pequena desídia funcional. Não traria prejuízo a nada e a ninguém. E chegaram, e se amaram intensamente, e dormiram, e levantaram com o dia aberto e o rei-sol reclamando a ausência de ambos na caminhada cujo horário ficara para trás. O tempo não se incomodara; o destino permanecera indiferente a eles; a felicidade explodia dentro deles como fogos de réveillon. E assim seguiu a humanidade: sentada à beira do caminho vendo a felicidade passar sem demora, correndo contra o tempo e ignorando o destino. E quatro meses se passaram sem que os namorados os sentissem.

XIII

– Mãe, creio ser boa hora de comunicar meu namoro ao Paulo. Luiz fala em casamento. Já pensou se Paulo descobre antes de eu falar com ele? Ainda bem que ele nunca telefona para o tribunal. Falamos sempre aqui, nem para o meu celular ele liga.
– Você é quem sabe, filha. Espere-o ligar. Vá sondando o espírito dele devagarzinho e lhe comunique sua decisão.
– Que acha você da reação dele?
– Bem, como avó, acho que ele tenderá ao ciúme. Mas ele não é criança. Está casado e talvez já saiba o sexo do bebê. Ele não disse que Maria passaria por nova ultrassonografia?
– Estou apreensiva. Mas devo ter fé. Ele aceitará. Afinal, é a minha felicidade que está em jogo. Não vejo como adiar o anúncio. Se ele ligar, vou falar com ele.
Mal completou a frase, o telefone tilintou; Glória foi atender com duas alternativas: seria um dos seus dois homens. Era o filho.
– Oi, mãe! Tudo legal por aí? Tenho uma notííííciaaa!... – exclamou Paulo esticando a palavra como se fora feita de borracha.
– Diga, filho!
– É menina! Você vai ganhar uma neta! Está a caminho nossa Ana Cristina. Eia!
– Eia! Que notícia boa, filho! Está tudo bem com o bebê? E Maria? Fale mais! Fale mais! – empolgou-se a mulher-filha-mãe-sogra.
– Maria está ótima. Não cabe em si de contentamento. Parece um rouxinol a cantar aqui em casa. Toda hora inventa de eu acompanhá-la numa canção de ninar. Já treinamos todas, daí e daqui, em português e em inglês.
– Que ótimo, filho! Que felicidade! Nós merecemos! – emocionou-se Glória sem segurar as lágrimas. – Andrea, ao lado, também chorava.
– Oi, mãe, tô ouvido a choradeira! Para com isso! E as novidades daí? Vovó arranjou algum namorado no condomínio. Não tem nenhum velhote dando sopa, não? Seria bom, se isto acontecesse. Você poderia vir morar comigo...
– Ah, filho, tem novidades aqui, mas é comigo...
– Outra promoção?
– Não, filho, um namorado...
– Quê?!!?!!
– Sim, filho, estou namorando um advogado, viúvo como eu. É pessoa muito legal. Estou ansiosa para apresentá-lo a você.
– Boa noite, mãe!
– Que é isso, filho?
– Isso é traição de você com o pai. É o que é!
– Seu pai está morto, Paulo! Não fale assim comigo!
– Não se preocupe! Não vou mais falar com você!
Desligou o telefone na cara dela. Glória encetou diversas tentativas de religar, mas ninguém atendia. Entrou em imediata depressão. Contou a reação do filho à mãe dela e foi para o quarto. Caiu sobre a cama e chorou copiosamente. Não esperava reação tão hostil. Não entendia como um adulto, já casado, não aceitasse alguma realidade diferente do que exigia do mundo para si. O egoismo do filho arrasou a mulher, destroçou a mãe e sepultou a desembargadora. Não sabia que fazer da vida.
Ainda nesse estado emocional péssimo, a mãe lhe anunciou Luiz Felipe ao telefone. Ela nem abriu a porta, mandou a mãe dizer-lhe que estava com dor de cabeça. O advogado de nada desconfiou. Indagou de Andrea se precisava de algo, recebendo dela os agradecimentos com a resposta de que estava tudo controlado, e que o dia seguinte seria melhor. Ele, tranquilizado, desligou.

XIV

Era uma terça-feira. O dia iniciou-se totalmente diferente da rotina de Glória. Nem do quarto saiu. Chorava ainda, e sua mãe não a conseguia consolar. Sentia uma sensação de dor desconhecida: a dor da perda de um ente querido, vivo, pelo afastamento resoluto. Era o filho seu único homem, não poderia perdê-lo para ganhar o namorado. Disputa desigual, o coração dela partido em pedaços, sua mente vivenciando uma indecisão que jamais pensara experimentar na vida. Ela, com tantas decisões difíceis que tomara como magistrada, estava agora em conflito e perdida como a criança que se perde dos pais em praia lotada.
O desespero inundava-a, afogando-a em lágrimas. Não falava com ninguém, nem com Luiz Felipe, que ligara diversas vezes e apenas fingia aceitar as desculpas da mãe dela. Passaram-se três dias. Ela não saiu de casa para nada, faltou ao tribunal alegando mal-estar. Foi como o tempo consumiu a semana: vendo o destino se deliciar de mais uma traquinagem contra Glória. O próprio tempo tentou repreender o destino, mas este o mandou postar-se no seu caminho eterno e seguir viagem. Aquilo não era problema dele, do tempo, mas do destino, que cumpria a tarefa de animar a vida por meio do drama, embora também se utilizasse da comédia e abusasse da tragédia. Não via na alegria muita graça. Até proporcionava alegria às pessoas, porém sem a prioridade com que as pessoas a desejavam.
Não mais entendendo nem aceitado as desculpas transmitidas por Andrea, no sábado Luiz Felipe partiu para a casa de Glória. Aí, sim, não havia como ocultar dele a realidade. Glória veio atendê-lo. Não era a mulher por quem ele se apaixonara. Na frente dele surgiu um farrapo de criatura humana. Com os cabelos desgrenhados, sem qualquer pintura ou arrumação, do jeito que se encontrava, ela veio ao encontro dele. Narrou-lhe miudamente o que ocorrera sem conter o pranto. Ele a ouviu em silêncio. Pensou reclamar do fato de ela não confiar nele o suficiente e lhe narrar o episódio no mesmo dia, para administrá-lo juntos. Só pensou, não falou. Sua experiência indicava ser o problema ainda mais grave e ele, de antemão, sentia-se perdedor. Amava Glória como jamais acontecera em sua vida. Desejava-lhe o melhor. E, pelo visto, o melhor seria afastar-se dela.
– Querida, sei que o conflito em seu espírito é complexo. Não implica decisão simples. Qualquer que seja sua decisão, você sairá perdendo. O seu filho, desculpe-me a franqueza, foi bastante egoísta. Por outro lado, não sei se posso simplesmente reduzir o problema ao comportamento dele. Ele, como nós dois, vivenciávamos a mesma saudade, cada qual do seu modo. Por isso eu o entendo, embora não o justifique. Vou fazer o seguinte. A partir de hoje vou dar um tempo pra você refletir. Mas saiba que, de tanto que a amo, não permitirei que sua decisão lhe exclua o filho. Ele é a razão principal de sua vida.
– Oh, Luiz!
– Por favor! Não fale nada! Sei que você não está em condições de falar. Prefiro o seu silêncio. Vou me afastar de você porque também não resisto vê-la sofrer deste modo. Vamos deixar o tempo cuidar do drama para que ele não se transforme numa tragédia a mais em sua vida, está bem?
– Está bem, Luiz. Mas saiba que eu o amo muito.
– Sei disso. Agora vou me retirar e deixar você se recuperar – disse o namorado beijando-a na testa. – E imediatamente partiu, sem olhar para trás.
Glória, se já estava arrasada, agora é que seu espírito afundou e se afogou dentro de si. A depressão ocupara o lugar da razão e da emoção. Também destroçara a desembargadora, que nem mais se lembrava de seus afazeres. E como não poderia deixar de ser, na segunda-feira à noite o presidente do Tribunal de Justiça foi a casa dela.
– Glória, que está havendo? Sentimos sua ausência no tribunal. Estão todos preocupados com você.
– Obrigado por vir aqui presidente. Isto facilitará de sua parte a compreensão do grave problema que enfrento e da decisão que tomarei tão logo vá ao tribunal.
– Que decisão, Glória?
– Vou ingressar com meu pedido de aposentadoria.
– Mas, Glória, logo agora que você alcançou o topo da carreira? Quer saber, nossos pares falam claramente que seria ótimo vê-la presidindo o Tribunal de Justiça, o que conta com meu total apoio. Que houve de tão grave? Posso saber?
     – Claro que sim, meu presidente. Faço questão de lhe contar em detalhes o meu problema, para que o senhor entenda que minha decisão é irreversível e me ajude.
     Glória então passou a narrar sua tragédia pessoal. Não conteve o choro, deixou que a alta autoridade penetrasse na mulher e nos seus conflituosos sentimentos. Ao final da narrativa, manteve-se em silêncio. O presidente percebera a inutilidade de qualquer tentativa de demovê-la da decisão de se aposentar. Ofereceu-se, porém, para ajudá-la no que fosse possível.
– Meu presidente, gostaria muito que o senhor reunisse o colegiado em sessão especial. Seria bom eu abrir meu coração ante eles. São pessoas notáveis e humanas. Saberão me compreender e apoiar. O senhor faria isto por mim?
– Já que não há outra alternativa, claro que faço!
– Poderia ser na quinta-feira?
– Com certeza! Abro um espaço de uma hora na pauta. Está bem assim?
– Está ótimo!
– Mas gostaria de receber o seu pedido de aposentadoria no tribunal. Quem sabe você até lá muda de ideia?...
– Não vou mudar, mas faço-o deste modo. Muito obrigada, excelência.
– Que isso, amiga? Força! Não chore. Haverá uma solução agradável ao fim de tudo.
– É o que espero, excelência.
– Tenha fé! Estou indo. Conte comigo!...
Tentando animar-se, convidou a mãe e partiu para Itaipava. Lá, hospedaram-se numa pousada e foram direto a uma imobiliária para ver uns sítios. Mas nada disso lhe espairecia o espírito; sua tristeza era evidente para a mãe, porém dissimulada ante os corretores apenas pelo silêncio e pela objetividade. E encontrou o sítio dos seus sonhos: uma casa rodeada de chão gramado e prontinho para receber seus canteiros de rosas amarelas. A casa, em estilo rústico, situada dentro de um condomínio de sítios, parecia-lhe perfeita. As acomodações sobravam, caso o filho um dia resolvesse perdoá-la e lá se instalar com a família ou passar temporadas. Não titubeou, correu contra o tempo e driblou o destino: comprou a casa de campo.
De caminho, ao descer a serra de Petrópolis, Glória fazia planos com a mãe de se mudarem tão logo fosse liberada pelo tribunal. A posse da casa dar-se-ia imediatamente ao pagamento, na assinatura da escritura. Os proprietários não residiam no sítio e o venderam de “porteira fechada”. A decoração da casa era um primor, não valia a pena desmanchá-la. Glória pagou o preço sabendo que manteria a casa na Barra para o filho, uma segunda opção caso ele viesse a morar no Brasil.
– Mãe, você acha que o Paulo me perdoará quando souber que me afastei de Luiz Felipe?
– Querida, veja bem, desde que você nasceu, eu sabia que seu mundo não me pertencia, era todo seu. Fiz o possível para não interferir em sua vida pessoal. Aprovei sua escolha pelo Bruno e a apoiei em tudo. Mas quero que você saiba que eu não abriria mão de um novo amor, acaso isto me ocorresse. Amo Paulo mais que ninguém. Mas não dou razão a ele. A vida dele segue como ele sempre quis. Você o apoiou sem restrições. Não vejo nele nenhuma autoridade moral pra fazer o que está fazendo com você. Pense bem, minha filha, se o rumo da vida não for atropelado por algum fado, você irá ao túmulo antes dele. Só que viverá infeliz até esse dia. Aceitar esse comportamento egoista da parte dele é risco também para ele.
– Eu sei, mãe. Mas ele não me atende nem responde às minhas cartas. Não consigo me explicar, tentar convencê-lo. Nem Maria me ligou. Estou isolada deles e talvez nem tenha a chance de conhecer minha neta. Isso é horrível!
Horrível, sim, mas Glória jamais poderia imaginar o que acontecia à sua “revelia”. Luiz Felipe, depois de conversar longamente com Vitória, a filha dele, reafirmou sua disposição de aposentar-se e morar em Fortaleza, numa casa de frente para o mar. Narrou-lhe o seu drama e decidira pelo menos tentar convencer Paulo a perdoar a mãe. Renunciara ao seu amor por ela para abrir uma “brecha” de reconciliação mãe e filho. Com a filha avisada, o advogado simplesmente partiu para Boston. Ficaria frente a frente com o rival-filho para lhe comunicar a renúncia ao namoro e salvar a relação mãe-filho. Ele o receberia nem que fosse à pressão. Não perderia a viagem. Dois dias depois estava desembarcando em Boston.
Era tarde. Hospedou-se num hotel próximo do bairro onde Paulo residia. Estava com todos os dados: telefones, endereços da casa e dos locais onde ele e a mulher geralmente se apresentavam. Não haveria como lhes escapar. Sem sono, porém, partiu logo ao restaurante em que a dupla se apresentava. No anonimato, pode perceber a qualidade do casal, demais da simpatia no contato com o público. Não entendia o porquê de Paulo não ser assim com a mãe. Via-se que estava esbanjando felicidade: aclamado na profissão, casado com a pessoa certa, aguardando a filha que almejara, parecia até que a mãe dele nem existia no mundo, se se considerasse ao pé da letra a realidade festiva do restaurante e os muitos beijos trocados pelo casal, no palco, entre uma e outra apresentação. Esperaria o dia seguinte e bateria à porta deles logo pela manhã. E foi o que fez: foi a casa deles o tocou a campainha. Veio-lhe atender a dona da casa: Maria.
– Pois não, senhor? – comunicou-se com ele em inglês.
– Por favor, pode falar em português. Sou brasileiro como você e Paulo.
Não foi difícil a Maria concluir que estava diante do seu ex-futuro-sogro. Desconcertada, não sabia se o mandava entrar ou expulsava-o dali mesmo. Mas, no seu íntimo, ela não dava razão ao marido. Achara uma estupidez da parte dele cortar relações com a mãe só porque ela novamente amava. Sentia-se mal com o egoismo dele; não aceitara aquele comportamento infantil danoso à vida de terceiros, ainda mais da própria mãe. Que seria dela? Como poderia amar um homem que não medira as consequências do seu gesto contra a mãe? Assim pensando, decidiu por sua conta:
– Por favor, entre! Seja bem-vindo! Vou chamar Paulo e providenciar um café.
– Obrigado! – disse Luiz Felipe entre espantado e contente pela primeira reação, importante reação de cumplicidade da esposa de Paulo, que sua experiência de vida e de plenário lhe garantia.
Maria não se fez de rogada. Séria e compenetrada, ela foi ao marido, que estava no quarto arrumando umas pautas musicais como se a vida lhe fosse devedora.
– Paulo, temos visita.
– Visita?
– Isso. Está na sala o Dr. Luiz Felipe, ex-namorado de sua mãe. Veio do Brasil exclusivamente pra falar com você.
– E você o deixou entrar...
– Claro! Não sou mal-educada. Vou preparar um café enquanto vocês conversam.
– Por que você acha que eu vou conversar com ele?
– Vai, sim! Este é um problema mal resolvido e diz respeito também a mim...
– A você? Não entendo.
– Entenderá. Primeiro dê-lhe atenção. Depois nós conversaremos...
– Está bem! – respondeu-lhe Paulo meio assustado com a resoluta reação da esposa e não quis iniciar uma discussão com estranhos na casa dele.
Ao avistar Paulo adentrando a sala, Luiz Felipe levantou-se para cumprimentá-lo. O cumprimento não poderia ser mais hostil, mas Luiz Felipe fora lá com um objetivo, e, sem delongas, tomou a iniciativa.
– Paulo, não nos conhecemos pessoalmente, mas lhe garanto que sei de cada fase de sua vida narrada por sua mãe. Sei o que você fez com ela. Não pretendo discutir suas razões, não vim aqui pra isso. O motivo da minha presença aqui é pra lhe comunicar que saí definitivamente da vida de sua mãe. Fiz assim porque você a colocou ante um dilema em que uma escolha exclui a outra, o que torna ambas ruins. Como eu gosto realmente dela, preferi tomar a iniciativa, e já o fiz. Quando eu voltar, vou diretamente a Fortaleza viver perto de minha única filha e minhas netas. Não voltarei ao Rio, já me desvencilhei de tudo.
– Mas...
– Por favor, escute-me! Não vim de tão longe pra questionar seu comportamento. Vim apenas lhe garantir meu afastamento e lhe dizer que sua mãe está mal. Ela pediu aposentadoria. Não quer saber da carreira, vai morar na casa de campo que ela sempre sonhou ter. Vai com Andrea.
– Eu pretendo permanecer aqui poucos dias. Depois vou à Europa. Fico fora uns quinze dias. Creio que minha visita completou a finalidade, desculpe-me por invadir sua privacidade e ocupar seu tempo. Recomende-me à sua esposa e boa sorte com Ana Cristina.
Levantou-se, apertou a mão de um homem atônito, deu meia-volta e saiu pelas ruas de Boston. Paulo ficou onde estava, igual alfinete cravado na almofada, tal como estaca fincada no chão. Perplexo, não teve chance de dirigir uma só palavra ao homem que o destino, numa distração, permitira à sua mãe escolher para amar. Quando Maria chegou com o café, o advogado já desaparecera da casa dela para nunca mais voltar.
– Ué! Cadê o homem, Paulo?
– Falou o que quis e se foi. Disse que se afastou da mãe definitivamente para que eu não fique brigado com ela. Mas fez questão de me dizer que ela abandonou a carreira e está muito mal.
– E agora, Paulo?
– Não sei. De um lado, estou satisfeito. Não quero ver minha mãe com outro homem senão o meu pai...
– Que morreu faz tempo, não é, Paulo?
– Pra mim, não!
– Pra você o quê? Seu pai está vivo ou morreu no mar?
– Está vivo em minha lembrança. Não estou entendendo você...
– E você acha que ele morreu na memória de sua mãe? Não admite que ela, em amando-o tanto em vida, não sente saudade?
– Claro que ela sente saudade! Que isso, Maria? Você está diferente!
– Pois vou lhe dizer uma coisa: jamais imaginei ter casado com pessoa tão egoísta. Até me assusta a ideia de que, se nosso filho nascesse menino, você o detestaria só porque decidiu por menina. O que eu acho é que você quer ser dono do destino das pessoas, e por isso levou sua mãe à tragédia profissional e pessoal.
– Você não pode falar assim comigo, não! Sou bom marido! Amo você! Vivo pra você!
– Desde que seja tudo como você planeja. Quer saber de uma coisa, Paulo? Eu amo você como ninguém! Mas lamento por esse seu caráter doentio. Isto um dia entornará nosso caldo. Amo você, sim! Mas não confio em você, porque você é um egoista estúpido!
– Não vou mais discutir com você, Maria. Vou sair.
– Vá mesmo! Mas saiba que, quando você voltar, nossas malas estarão prontas e as passagens, compradas. Vamos direto a casa de sua mãe. Você vai ter de consertar essa desgraceira toda.
– É ruim, hein? Não vou mesmo!
– Então você fica! Mas eu vou! Não vejo minha família faz muitos anos e de repente me lembrei que me tornei egoista como você. Vou ao Brasil abraçar minha família e visitarei a minha sogra. Quero que ela veja minha barriga e saiba da neta que está dentro dela.
– Se você for ao Brasil sem mim, não precisa mais voltar.
– Em primeiro lugar, eu irei, sim! Em segundo lugar, volto se eu quiser, e fico se eu quiser. Você que saia daqui, a casa é minha, esqueceu-se disso? Mas estou pensando em não voltar. Vou ficar por lá. Mas eu, como amo você, espero que você repense tudo que fez e embarque comigo amanhã. Você deve mil perdões à sua mãe, e agora não há mais motivo para hostilizá-la. O namorado dela deixou o seu campo livre. Mas você vai perceber que você não é dono de nada, quem manda é o destino.
– Que destino?
– Esse que nos está afastando, matando nossa felicidade como vingança por seu comportamento de semideus. Amanhã, Paulo, com ou sem você, eu embarco. E levo minha filha dentro de mim, a não ser que você, sentindo-se tão dono dela, nesse seu egoismo abra a minha barriga com uma faca para retirar a parte que lhe cabe do seu DNA. Mas nós duas estaremos mortas. Quer saber? Você matou sua mãe!
Paulo não ouviu o resto. Atônito, em vez de sair foi para o quarto e desatou um choro convulsivo. A esposa mirava-o sem interferir. Ele chorou sem parar por quase meia hora, até que, comovida, Maria se arriscou a entrar no quarto. Mas, em vez de dar com um homem irritadiço, arrogante e revoltado, viu a criança indefesa que lhe pedia ajuda para sair da enrascada em que se enfiara. Perdera a mãe por injustificável rancor contra ela. Estava prestes a perder a mulher e a filha. Tornou ao mundo real e percebeu que sua condição de dono do mundo era miragem.
– Maria, querida, por favor, não me abandone. Caí na real! Preciso, sim, consertar a desgraça que jorrei contra a mãe. Vou com você amanhã. Vou pedir perdão a ela. Vou procurar o namorado dela e também lhe pedir perdão. Como pude ser tão insensato? Ó Deus, perdoe-me!
– Tudo bem... O que você fez, tem conserto. Afinal, são pessoas que amam você acima até de si mesmas. Não tenho dúvida de que sua mãe e sua avó o perdoarão. Creio no arrependimento e no perdão. Dará tudo certo. Agora descanse um pouco e depois me ajude a fazer as malas. Vamos de surpresa. Nada de aviso.
– Vamos, sim, Maria. Concordo com você que errei feio. Mas, por favor, vamos com calma. Não há necessidade de sair voando daqui. O namorado da mãe disse que ficaria rodopiando por aí e até daria uma esticada pela Europa. Temos tempo para organizar as coisas. Pode deixar, eu irei com você, mas prefiro deixar passar esta semana. Minha cabeça está atordoada. Não quero chegar até a mãe de surpresa. Você pode preparar o terreno pra mim? Telefona pra ela?
– Como posso fazer isto? Você nem me deixou atender ligações e queimou as cartas dela sem que eu pudesse conhecer seu conteúdo. Agora quer que eu ligue pra ela? Não, não ligo não.
– Então fale com a vovó, pelo menos, pra avisar que iremos na semana que vem. Mas quero que a mãe saiba que estou indo pra pedir perdão. Por favor, faça isto por mim.
– Está bem. Farei. Só porque a causa é justa. Vamos viajar na segunda-feira.
 XV

Tempo curto, parecendo eternidade. Maria ligou. Andrea ficou contente com os acontecimentos e conversou com a filha. Ela, porém, decidira mudar de residência ainda durante a semana. Não seria uma mudança complicada, não levaria móveis. Apenas alguns eletrodomésticos e roupas seguiriam viagem. Depois ela adequaria a parte de cama, mesa e banho em Petrópolis. O que desejava, mesmo, era se mudar e esconder-se de tudo. Programou com a mãe a mudança para o sábado. Na quinta-feira, como estava programado, cumpriria a despedida do tribunal. Na sexta-feira acomodaria as coisas principais. No sábado estaria arrumando a nova casa e se habituando ao ambiente rural. Mesmo que lá não ficasse em definitivo, cuidaria para que nada lhe faltasse na casa de campo. Mas teria de ser aos poucos. Segundo pensava, em um mês, não mais, precisaria vir à capital.
Aos trancos e barrancos, Glória acordou péssima na quinta-feira da despedida. Estava visivelmente nervosa. A mãe a acalmava como podia. Mas ela, durante a manhã, cumpriu a rotina do alongamento, da caminhada, do alongamento, do banho frio e foi se sentindo desembargadora, embora o espelho só refletisse a mulher desesperada. Não lhe foi fácil ensaiar o olhar firme e decidido com que pretendia chegar frente ao seu motorista de tantos anos, de nome João, pessoa simples e cordial. Como ela, João desempenhava com precisão e orgulho seu papel subalterno de motorista de autoridade. Jamais abria a boca, nem quando a autoridade tentava aprofundar algum diálogo. Aprendera com o pai, igualmente motorista de autoridade, que elas passam e o motorista fica. E ele haveria de ser sempre impessoal no que fazia. Seus gestos mecânicos, curiosamente, funcionavam como meio de manter distância da autoridade para a qual dirigia a viatura oficial, iniciativa que jamais transferira para autoridade alguma. Não cuidava da pessoa dela e de seus problemas. Saber demais, segundo os conselhos do pai, somente redundaria em prejuízo na carreira. Quando foi aprovado como motorista do tribunal, decidira seguir fielmente a cartilha até alcançar a aposentadoria. Necessitava tão-somente vencer o tempo e pedir que o destino o esquecesse por lá. Nada mais. Esse era o motorista que abria a porta do carro para a desembargadora.
– Boa tarde, João. Tudo bem?
– Tudo bem, excelência! – respondeu João ao fechar a porta traseira por onde a autoridade entrara.
– Vamos então! – encerrou o diálogo a desembargadora.
Nenhum acréscimo, nada. Os dois seguiram em silêncio. Ela nada levava nas mãos nem lia papel algum. Ele, atento ao tráfego, aproveitava-se disso para mais se afastar da autoridade que conduzia. E assim, mecanicamente, alcançaram o prédio do Tribunal de Justiça. Foi ao seu gabinete, reuniu os assessores e lhes comunicou sua decisão. Muitos choraram, em especial a amiga Marcelly. Mas ela, com certeza, faria outros contatos com a amiga e saberia o que houvera. Outros se comportaram como o motorista João. Funcionários de carreira, sem sair do lugar, passaram por muitas despedidas e já se preocupavam com o substituto, sempre um momento de apreensão. No fim de contas, nem todas as autoridades possuíam bom gênio. Lidar com poderosos de humor variado era-lhes uma preocupação quase que histórica. Portanto, em silêncio a ouviram, quietos saíram e se sentaram em seus lugares. Estava cumprida a primeira etapa.
Do gabinete, a desembargadora Glória Maria da Silva dirigiu-se ao Plenário. Já a esperavam os 24 membros do Órgão Especial do Tribunal de Justiça. Foi aplaudida na entrada. Os seus pares estavam avisados da decisão dela e curiosos por saber o motivo que levava aquela colega tão proeminente jogar a toalha antes do tempo, mesmo com um promissor futuro a lhe aguardar. Esperavam, sim, ouvir a voz da desembargadora, mas ouviram a mulher:

 
“Excelentíssimos senhores desembargadores, meus nobres colegas e preciosos amigos. Quem aqui falará não é a desembargadora, mas a mulher e a mãe. Vim para cá despida da roupagem solene em meu espírito, embora ela cubra o meu corpo. Como todos sabem, depois de muitos anos dedicando-me à viuvez e à profissão, conheci uma pessoa pela qual me apaixonei. Tudo poderia ser maravilhoso, mas o destino se enfiou na minha vida para fazer mais uma crueldade e afastou de mim o meu filho e me impediu de abraçar a felicidade. Foi o maior golpe que eu, como mãe, poderia receber. E, para preservar a mãe, tive novamente de sepultar a mulher. Mas pretendo exumá-la em modo diferente. Pretendo que a mulher renasça, mesmo que a viver só de saudade. Não posso fazer isto como desembargadora, não serial moralmente possível conciliar meus objetivos sem os concentrar na mulher que, de alguma forma, pretendo reencontrar, de modo a resgatar o amor do meu filho. É o motivo pelo qual peço hoje minha aposentadoria. Dentre as lembranças que guardo, e a saudade que pretendo cultivar com minhas rosas amarelas em Itaipava, a melhor das saudades será a da minha carreira de magistrada e do convívio com os senhores. Jamais esquecerei cada gesto elegante, cada palavra de incentivo, cada carinho que recebi ao longo da minha caminhada pelos corredores e plenários do Poder Judiciário. Aqui passei a maior parte do meu tempo terreno. Não me arrependo, creio que não poderia ter lugar melhor para contar o meu tempo de vida e burlar o destino. Pois sei que aqui interferi muitas vezes no destino de pessoas, mas o meu senso de justiça deve ter desapontado o destino nas vezes em que ele pretendia crucificar alguém em indiferença. Não lhe permiti com facilidade exercer o seu papel traquina contra os seres humanos. Se colaborei com ele cometendo algumas injustiças, e isto é bem possível, só posso pedir perdão aos injustiçados e a Deus. Muito obrigado mais uma vez. Felicidade a todos! Até quando Deus quiser!”


As palavras não saíram limpas e arrumadas como está no texto, caro leitor. Elas afloraram em lágrimas, vieram mergulhadas na amargura; algumas até soavam insossas, mas a projeção delas no espírito dos desembargadores fez com que muitos deles tirassem a roupagem da impessoalidade e chorassem com Glória, ou para Glória, tanto faz, ela emocionou a todos. Alguns pediram a palavra e corroboraram a admiração e o respeito que lhe nutriam; outros silenciaram em emoção. Para todos os presentes, porém, aquele momento ficaria gravado em ouro no austero Plenário do Órgão Especial do Tribunal de Justiça. Entraria para a história do mundo jurídico como prova inconteste de que o magistrado é feito de corpo e alma. E assim a desembargadora se despiu da toga, e o que restou da mulher se poderia resumir numa palavra: tristeza.
 XVI

Andrea falara com Maria por telefone. Quando Glória pisou na sala de sua casa, a mãe a aguardava em incontida ansiedade. Glória se espantou com o comportamento da mãe, chegando a se preocupar com doença. Andrea a tranquilizou e a mandou sentar-se.
– Filha, recebi um telefonema de Maria. Há muitas novidades. Luiz Felipe foi a Boston conversar com Paulo. Não durou muito o encontro, somente o tempo de ele dizer a Paulo que amava tanto você que estava renunciando ao relacionamento para garantir sua reconciliação com Paulo.
– Meu Deus! Não pensei que ele se dispusesse a fazer isso!
– Mas fez. Nem deixou Paulo abrir a boca. Disse-lhe que não mais seria o fator de impedimento à reconciliação, e que daria tudo que possui, até a vida, pra ver você novamente feliz. Disse o que disse e foi embora sem mais palavras.
Paulo está outro, Acordou para o mal que lhe fez. Está vindo semana que vem pra lhe pedir perdão. Vai também procurar o Luiz Felipe pra mesma coisa. Uma mudança radical de comportamento. Não sei o que Maria fez com ele, mas creio que ela foi decisiva pra ele tornar à realidade. Ele chora dia e noite. Grita que nos ama e não que viveria feliz sabendo-a infeliz. Prepare-se, pois ele está vindo com o coração e a alma ávidos de perdão.
– Este é meu filho! Este é o filho do pai dele! Este é meu herói! Oh, mãe!
– Você nem imagina o quanto estou feliz por você. Paulo finalmente se tornou adulto. Emergiu o homem que se ocultava no filho. Será bom pai. Quanto a Luiz Felipe...
– E ele, mãe? Onde estará?
– Bem, minha filha, ele disse a Paulo que ficaria uma boa temporada fora do país pra refrescar a cabeça. E não mais voltará ao Rio. Vai direto pra Fortaleza e ficará definitivamente por lá. Não sei como vamos consertar isso. Bem, teremos de esperar Paulo chegar e Luiz Felipe voltar. De qualquer modo, parece que o rei-sol fará seus olhos adquirirem o brilho das esmeraldas novamente.
– Oh, mãe!...
Glória não mais conseguiu falar. Entrou em pranto convulsivo, misturando risos e lágrimas. Mas dava para perceber que apenas lavava a alma e expurgava a tristeza. Convivera muitos dias terríveis com ela, a tristeza, e agora lhe parecia que o destino chorava de raiva. Pensou em Luiz Felipe, em Vitória e suas filhas Luana e Yohana. Pensou no marido de Vitória e no nome dele que Luiz Felipe distraidamente omitira...
 XVII

Sem qualquer notícia de Luiz Felipe e deveras ansiosa, Glória tentou fazer o tempo escorrer mais rapidamente. Ao contrário, porém, aqueles três dias de espera pela chegada do filho foram os mais longos de sua vida. Mas como o universo, indiferente a tudo, segue viagem rumo ao eterno desconhecido, a segunda-feira finalmente amanheceu.
Glória não caminhou. Acordou, tomou uma ducha fria e se arrumou. Não sabia a que horas o filho chegaria, mas ele não tardou. Quando ela recebeu a comunicação da portaria, seu coração quase parou. A emoção vinha-lhe misturada, predominando a mãe desejosa de abraçar o filho. Perdoado ele estava há muito tempo. Faltava-lhe abraçá-lo com o fervor do amor que por ele nutria; era seu único homem. E ele chegou, caros leitores. Entrou, abraçou-se à mãe e lhe disse:
– Perdão, mãe!
Teria eu, leitor que me acompanha nesta história, de ter a habilidade de um José de Alencar para esmiuçar a emoção do abraço de mãe e filho. Gastaria, decerto, três a quatro laudas para transmitir a emoção do reencontro. Falar do céu seria pouco; descrever a casa, os móveis, a roupa de Maria com seu bebê no útero, a choradeira de Andrea, o sorriso brilhante do rei-sol, tudo isto seria nada se comparado ao momento do abraço. Mas como o leitor tem pressa e quer chegar ao fim da história, vou tentar imitar o mestre Machado de Assis e não dizer que este pode ser considerado o momento mais emotivo da narrativa. Avocar aqui o testemunho dos deuses mitológicos para referendar o encontro seria exagero. Há situações tão extraordinariamente emotivas que o melhor é deixar que cada leitor extraia do próprio coração seu significado. E diriam: “Eia! Eia!”
– Paulo, você me magoou, mas nunca deixei de amar você. Eu seria capaz de renunciar a tudo pra ver você feliz. E foi a felicidade por você anunciada que me animou a ser novamente mulher sem deixar de ser mãe.
– Sei disso, mãe. Jamais imaginei que lhe fosse causar tanto mal. Mas faço questão de eu mesmo consertar tudo. Vou a Fortaleza conhecer a filha de Luiz Felipe. Vou descobrir por onde ele anda e tentar falar com ele. Fique certa de que ele é o homem de sua vida. O que ele fez por você o credencia a ser meu segundo pai, estou certo disso. Maria, ameaçando até me deixar, deu-me o exemplo. Escolhi uma grande mulher para esposa, mãe. Ela é sua aliada além do que eu poderia supor. Estou cada vez mais apaixonado por ela e certo de que tenho uma parceira insubstituível. Ela me chamou às falas e eu finalmente me descobri como homem. Eu não passava de um adolescente egoísta. Não mais. Vou provar isto pra você, mãe, pode ter certeza.
– Oh, meu filho!
Paulo telefonou para Vitória e voou até Fortaleza. Em lá chegando, desvendou o misterioso nome do marido dela, João Pedro, que Luiz Felipe casualmente omitira. Vitória lhe disse que falara com o pai dias antes e que ele estava em algum país da Europa. Teria de aguardar novo contato, o que não tardaria. Tão logo o fizesse, ela lhe contaria as novidades, certa de que ele ficaria bastante feliz. Tratava-se de algo inesperado, uma guinada tão brusca do destino que Luiz Felipe talvez nem acreditasse de imediato. Mas Paulo ali estava para confirmar, e ficaria hospedado num hotel. Depois de tudo explicar à filha do advogado e deixar o telefone do hotel, ele se despediu garantindo que de lá não sairia até o pai dela ligar. Aguardaria o contato e por telefone lhe pediria perdão por tudo, anunciando a nova disposição dele e a alegria da mãe em poder reatar seu namoro feliz.
No dia seguinte, Luiz Felipe, tendo já falado com a filha, fez contato com Paulo, este que lhe narrou miudamente o que houvera após sua saída da casa dele nos EUA. Luiz Felipe, entre atônito e feliz, agradeceu ao seu futuro enteado e prometeu marcar sua volta ao Brasil o mais rapidamente possível. Tão logo reservasse a passagem, avisaria. Paulo, contente, ligou para a mãe e lhe sugeriu que viesse, juntamente com Andrea e Maria, para Fortaleza. Assim foi feito. No dia seguinte, todos se encontraram na casa de Vitória e se dispuseram a fazer uma grande surpresa a Luiz Felipe: eles os aguardariam no aeroporto e o levariam a jantar com toda a família reunida. Estava selada a paz. O tempo sorria, o destino chorava e excogitava alguma armadilha. Mas não seria bem-sucedido. Aos poucos o amor ia vencendo a intolerância. No fim de contas, ele se comportava descabidamente com aquela família honrada que somente almejava a paz, e, sobretudo, a felicidade.
Luiz Felipe ligou para Vitória confirmando a chegada na noite seguinte, uma sexta-feira. Não era dia 13, caro leitor, pois aí seria a data aniversária do destino traquina. Mas não há como negar que o rei-sol, sempre amigo de Glória, preocupava-se com a chegada noturna. Ele não estaria nos céus orientando o piloto da aeronave, personagem-chave neste ponto do enredo. Contava ele, no entanto, com as estrelas norteando-o, e com sua habilidade em pilotar jatos comerciais por longos anos. Amava o que fazia, diminuía o tempo para as pessoas, de modo a aproveitá-los a mais e mais, e não tinha temor do destino. Confiava em si, na aeronave e em Deus.
Assim, na verdade, pensava Glória, sempre nervosa quando se tratava de avião e mar. E Luiz Felipe viria cruzando os mares, tal como o seu piloto que morrera. Novamente estava ela ante a ironia do destino: o seu terceiro homem à mercê do avião e do mar durante longas e intermináveis horas. Com esse temor, ela estava no aeroporto com todos os familiares reunidos. Não externava suas apreensões. Talvez a mãe dela as percebesse. Vitória, João Pedro, Yohana e Luana esbanjavam felicidade. Paulo e Maria vibravam com o grande acontecimento do reencontro dos namorados. O momento da aterragem estava cada vez mais próximo e o avião não chegou...

XVIII

Foi terrível a notícia do desastre. O avião caiu no mar e não houve sobreviventes. O desespero tomou conta do aeroporto. Lágrimas de dor eram derramadas pelos parentes dos passageiros e da tripulação. Não resistindo ao impacto da notícia, Glória desmaiou e teve de ser levada às pressas para o hospital. A família a acompanhou. O desespero misturava-se à tristeza. Nem mesmo Luana e Yohana, embora crianças, ficaram livres de sofrer a perda.
Glória se recuperou do trauma, mas permaneceu internada. Levada a um quarto particular, ela ficou com a família lamentando a perda trágica de Luiz Felipe. Viúva antes de casar, Glória imaginava o fim de sua vida na casa de campo em Itaipava. Plantaria muitas rosas amarelas e dedicaria o seu tempo a meditar. Não mais sabia que seria de sua vida. Perdera-se no tempo a desembargadora, a viúva e a mulher. Sobrara-lhe um caco de mãe e futura avó. Teria de ser suficiente, ela pensava. Se o seu destino era o de ter somente um homem em sua vida, o destino vencera. Ela jamais pensaria em outra relação. Ficaria reduzida a apenas uma palavra: saudade.

XIX

Mas desta feita o destino perdeu para o amor. Luiz Felipe atrasara-se e não embarcara. Telefonou para a filha, ainda no aeroporto, para comunicar sua chegada em outro avião. Não tivera tempo de alertar a família sobre a troca de aeronave. Como o tempo entre um voo e outro era mínimo. Manteve-se tranquilo. Claro que não imaginava que o destino fora obrigado por um poder maior a lhe retirar do voo fatídico. E o telefone de Vitória vibrou dentro do quarto: era o pai!
– Filha!
– Pai! Não acredito! Pai?!
– Sou eu, filha! Onde vocês estão?
– Num hospital próximo do aeroporto. É só indagar que os taxistas sabem qual. Há muita gente sendo socorrida aqui. Vem pra cá, pai! Ai meu Deus!
 Glória não cria no que estava acontecendo. Todos no quarto se transformaram em estátuas, inertes, pasmos, ante a conclusão que o telefonema permitia: Luiz Felipe não morrera! Estava vivo e pertinho deles! Glória desmaiou novamente...
Não lhe preciso dizer, caro leitor, que o destino era, na verdade, um demônio mixuruca e assim travestido, e que veio até aqui me obrigando a escrever um final trágico para esta história. Mas os personagens não mereciam isto, e eu sigo uma inspiração maior. Neste caso, passou um anjo perto de mim e me soprou o final feliz. Era o Anjo do Tempo, amigo do rei-sol e discípulo de Deus.
Hoje Luiz Felipe e Glória estão casados. Ana Cristina nasceu saudável. Paulo e Maria permaneceram em definitivo no Brasil. Foram morar com Andrea em Itaipava. Não quiseram residir na Barra da Tijuca. Luiz Felipe e Glória residem numa casa de frente para o mar, em Fortaleza. Vitória, João Pedro e suas filhas Luana e Yohana estão sempre com o casal. E todos instituíram a rotina de temporadas em Fortaleza e Itaipava, viajando de avião sobre o mar sem medo de acidentes. Glória banha-se na praia todos os dias, depois de caminhar ao lado do marido amado. O destino traquina foi punido com a permanência eterna nas trevas. A palavra saudade, que parecia predominar ao fim da história, recolheu-se elegantemente e deu lugar à sua eterna adversária: a felicidade! 


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