Para Ana Cristina Larangeira, amada filha, que me pediu para
inventar uma história num carnaval qualquer em Maricá.
Uma curiosidade: li certa vez que o escritor e poeta argentino Jorge Luis Borges, ao chegar num aeroporto foi interpelado por uma leitora, esta que entrou a comentar sobre um conto dele como se a história fosse real. Ele se emocionou com a cena, pois, afinal, tudo que escrevera não passava de ficção, nada era verdade. Este talvez seja o grande momento do ficcionista: tornar sua ficção capaz de se tornar realidade na mente do leitor. Daí é que, ao registrar este conto, também fui questionado pela Fundação Biblioteca Nacional nos termos do documento que a seguir oferto aos leitores. Sobre ele, a minha resposta foi simples, porém tocada por intensa emoção: "Trata-se de ficção da primeira letra ao ponto final." Eis o documento, que guardo com muito carinho:
I
Inicia-se
mais uma sessão no Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. É
dia comum, à história que vou contar não importa a data. Entre os vinte e cinco
ilustres membros do colegiado destaca-se uma mulher. Chama-se Glória Maria da
Silva, desembargadora de nome simples, sem sobrenome pomposo, coisa rara. Sim,
ela era exceção. Nascida no subúrbio da capital, filha única de pedreiro e
doméstica, quis o destino que viesse ao mundo com rara beleza e incontestável
inteligência. O pai, de nome Bruno, reconhecido como exímio colocador de pisos
e azulejos, conquistou bom espaço no crescente mercado da construção civil na
Barra da Tijuca. Metódico e poupador, logrou estudar até o segundo grau,
formando-se técnico em contabilidade. No mesmo colégio conheceu Andrea, que
também concluía o segundo grau formando-se professora. Foi amor à primeira
vista. Em pouco tempo, casaram-se e foram morar em casa própria que Bruno aos
poucos construíra. Era uma casa pequena, de dois quartos, mas com esmerado
acabamento. Bruno copiara um modelo de casa antiga, com varanda circundando-a,
o que lhe dava a impressão de ser enorme. Experiente, Bruno desenhou e
construiu um telhado alto, ficando a casa fresca e agradável. Agora não era
apenas uma casa sem vida, era o abrigo da família: o seu lar.
Jamais
o pedreiro atuou na profissão de contador. Seus ganhos nas obras asseguravam
conforto e bem-estar à pequena família. Também Andrea não cuidou de ensinar, a
não ser à sua filha, a quem dedicou todo o seu tempo e sua experiência.
Ensinou-lhe a estudar com objetividade e a apreciar a literatura, dando
preferência aos romances e contos nacionais e portugueses, demais de alguma
poesia de real valor. Glória aproveitava deveras essa ajuda materna.
Dedicava-se aos estudos com afinco, e tão logo concluiu o colegial ingressou na
UERJ, formando-se em Direito com louros de primeira colocada, destacando-se como
oradora da turma no encerramento do curso.
O
entusiasmo de Glória pela magistratura emergiu no estágio que fez na Defensoria
Pública. Na prova da Ordem dos Advogados do Brasil, sua performance encantou os
responsáveis pela elaboração das questões. Sua inscrição foi com honras de quem
estava efetivamente preparada para advogar. Mas seu destino era outro, sua
vocação predominava, a magistratura não lhe tardaria. Logo no primeiro
concurso, gravou com letras de ouro sua aprovação e foi nomeada juíza de direito.
Contava apenas 23 anos quando rompeu as amarras da família e foi ao mundo
jurídico. Com essa idade, mais que o destaque da juíza era o da bela mulher.
Alta, corpo esbelto, olhos verdes, pele amorenada ao sol e cabelos negros como
o azeviche, não lhe faltavam admiradores. Ela cuidava dos assédios com
elegância e forjava uma barreira intransponível. Era juíza, não cogitava
namorar e casar. Sua austeridade recomendava-lhe a espera do príncipe
encantado, e ele inesperadamente surgiu numa festa familiar: o filho de um
cliente do seu pai a inaugurar uma casa por ele construída. Chamava-se Carlos
André, tenente da Aeronáutica, 24 anos, piloto de jato com perspectivas de
carreira brilhante, tanto como a juíza. Mas a química se deu entre o homem e a
mulher, com Glória reeditando a cena de seus pais: amor imediato. Casaram não
muito tempo depois. Após dois anos a maternidade fez nascer o filho, Paulo,
vendendo saúde. Cresceu feliz, amado pelo casal e fã incondicional da profissão
do pai. Cortasse os céus qualquer avião, o menino, já com cinco anos,
apontava-o e dizia:
–
Aquele é o pai.
Glória
vivia feliz em todos os sentidos. Sua carreira transcorria como a do marido: em
“céu de brigadeiro”. E ela não se acomodou. Desde o casamento cuidara de
ingressar no mestrado, aprofundando deveras seus conhecimentos, como sempre se
sagrando aprovada com louros de excelência. Carlos André fora promovido a
capitão. A felicidade da família era completa, não faltava nenhuma letra
naquela palavra mágica e de difícil alcance. Sim, a felicidade estava ali,
presente, levando o tempo a acompanhá-la humildemente, com o destino
fingindo-se acomodado. Na verdade, porém, ele não estava satisfeito.
Traiçoeiro, levou o pedreiro ao túmulo. Um infarto fulminante tirou a vida de
Bruno, pai querido de Glória. Sobrou-lhe a mãe, o marido e o filho. Eram seu
alento. Já com dez anos, Paulo consolava a mãe a seu modo:
–
Mãe, não chore! O vovô está com Deus!
Ela
se agarrava à criança e fingia crer nas palavras dela, e de certo modo cria, o
que muito lhe ajudava a suportar a dor da perda. Não estava acostumada a
perder; ganhara todas as batalhas até aquele estágio da vida. Foi duro
suportar, mas o tempo trapeiro foi arrastando a família rumo ao futuro
inevitável. Assim é a vida...
Para
não deixar a mãe sozinha, Glória acomodou-a na sua casa. Era espaçosa; não foi
problema. Carlos André adorava Andrea, e o seu papel de vovó-professora logo
lhe ocuparia o tempo. Passou a cuidar de Paulo como cuidara da filha. O menino
evoluía a olhos vistos e já aparentava um jeitinho adolescente. Estudava inglês
concomitantemente com os afazeres normais do colégio, e ao completar 14 anos
lograva terminar o primeiro grau, mesmo tempo em que recebia o seu diploma na
Cultura Inglesa.
II
Os
anos seguintes foram decisivos para Paulo. Despertou-se nele o amor pela
música. Mais três anos de estudo, vencendo o estágio dos 17 anos e terminando o
segundo grau escolar, ele já tocava trompete com a maestria de artista famoso.
Não houve como segurá-lo, ele partiu aos Estados Unidos para aprofundar seus
conhecimentos da língua inglesa e de música. Radicou-se em Boston, enfrentou o
inverno rigoroso e se foi firmando na profissão de artista. Estava decidido:
não mais retornaria ao Brasil a não ser a passeio... Não veio a passeio, o mar
levou Carlos André e o avião que pilotava. O corpo não foi encontrado, nem o
avião. Nada. Não foi possível à família chorar o morto de corpo presente.
A
Aeronáutica, depois das medidas de praxe, deu o caso por encerrado. Estava a
juíza ante sua segunda derrota para o destino. Ficou-lhe a mãe, enquanto o
filho embarcava aos EUA, poucos dias depois, a cumprir seu destino. Glória
perdera dois homens e seu filho preferira acomodara-se em terras longínquas,
fase dificílima em sua vida. Para resistir a tanto desgosto, a mulher cedeu
lugar à juíza. Mas sua beleza, insistente, não lhe dava trégua, nem seus
admiradores sossegavam com o elegante e indefectível “não” que recebiam.
Olhavam-nos com aqueles olhos firmes de juíza e os intimidava muita vez sem
dizer uma só palavra. Agradecia os elogios, sim, mas era só...
Atolada
na tristeza, Glória enfiou-se nos estudos e partiu ao doutorado. Optou por
sociologia, e seu empenho novamente levou-a à vitória. Sim, mais um laurel
intelectual e profissional para contrabalançar as duas derrotas pessoais, troca
ruim, sua felicidade perdera dois importantes pedaços. Sua alma não estava
completa, nela passara a residir a saudade de seus homens. Restara-lhe
tão-somente um homem, o filho, mas este se mantinha distante, embora se
comunicasse bastante com a ela por telefone. Isto não era problema para ambos.
O filho acumulara bom dinheiro e ela, quase desembargadora, ganhava um justo
salário e quase não tinha despesas.
Apesar
do infortúnio, Glória não descuidava da saúde. Caminhava diariamente pelas ruas
do condomínio onde morava, na Barra da Tijuca. O seu dia iniciava-se
invariavelmente com a higiene, o alongamento, a caminhada, o alongamento e o
banho frio. Durante o desjejum, aproveitava para ler os jornais do dia. Às
vezes mudava o desjejum de lugar e tomava sol à beira da piscina. Deixava as
revistas para os fins de semana, aprofundando-se na leitura de artigos
referentes ao mundo jurídico. Não se descuidava disso, urgia-lhe ocupar o tempo
na tarefa do esquecimento de muitas lembranças que mantinham sua alma agitada.
Coisas da vida...
III
Obstinada
em tudo que fazia, a juíza trabalhava com disposição incomum. Preocupava-se
sobremodo com suas decisões definindo o destino das pessoas que se lhe
apresentavam na dolorosa condição de réus em processos criminais – sua
especialidade. Era rigorosa nos julgamentos, porém jamais injusta. E assim
seguia na carreira e em sua viuvez, que fez desaparecer a mulher e projetou a
juíza de olhos firmes e educação esmerada. Não passava por nenhum funcionário
do fórum sem lhe cumprimentar respeitosamente, sempre os mirando com uns olhos
vagos, como se apenas cumprisse um ritual. Todos a entendiam; conheciam-lhe o
motivo da tristeza; e a admiravam.
Glória
era muito convidada para coquetéis e outras reuniões festivas. Esquivava-se
elegantemente, sua vida se resumia ao lar e ao fórum, locais onde se
enclausurava como freira cumprindo disciplina ascética. Só não conseguia
ocultar a beleza estonteante. Por mais que fossem firmes, o verde dos olhos
sobressaía-lhe no rosto moreno. Não era vaidosa como mulher, mas entendia que a
juíza não se podia descuidar da aparência. Afinal, ela fazia parte de uma casta
de julgadores e levava ao pé da letra suas responsabilidades legais, éticas e,
sobretudo, morais. Enfim, por mais que se dissimulasse em austeridade, era
simplesmente uma linda mulher.
A
dedicação de Glória acelerou-lhe a carreira sem que houvesse qualquer
premeditação. Quis o destino precocemente empurrar-lhe à promoção a
desembargadora. E, se antes já acontecia de a juíza ocultar a mulher, agora é
que ela desapareceu definitivamente. A própria rotina levava-a a ser assim
categorizada: magistrada. No condomínio, o máximo que fazia era cumprimentar as
pessoas durante suas caminhadas e eventualmente quando chegava ou saía. O
percurso até o centro da cidade nem sempre a agradava, os congestionamentos
eram de tirar o fôlego. Mas a desembargadora não perdia um só minuto: devorava
o tempo na leitura de processos ou revistas técnicas e jamais olhava o mar.
Restrita
à leitura, nem notava quando alcançava o prédio do Tribunal de Justiça.
Alertada pelo motorista, entrava em qualquer elevador disponível, muitas vezes
dispensando o elevador privativo, indo até o sexto andar. De caminho,
cumprimentava seus colegas ou algum advogado que por ali circulava, rotina que
se repetia como batida de relógio. Já no gabinete, exercitava-se em despachos
com seus assessores, paramentava-se e se dirigia à Câmara Criminal para julgar
com seus colegas os casos do dia, claro que devidamente estudados. Na verdade,
cuidava até da distração de alguns sobre o assunto a ser avaliado. Confiavam
tanto nela que nem liam miudamente o processo e lhe acompanhavam o voto, sendo
ela relatora ou revisora ou simplesmente votante como membro do importante
colegiado.
Glória
jamais se negava a colaborar com os colegas. No seu íntimo, a desembargadora
gostava da distinção e do carinho de seus pares, embora não manifestasse o
sentimento. O olhar dela era o da desembargadora: firme e direto. Não havia
como alguém se confundir e entrar a imaginar namoro com a viúva. O falecido
ainda lhe ocupava o coração e a alma, malgrado o passar do tempo, que se
rendera ao destino e lhe permitira afundar o jato de André no alto-mar. A viúva
matara a mulher; a desembargadora a sepultara sem direito a exumação. E o
tempo, indiferente e derrotado pelo destino, escorria...
IV
Não
havia sintoma de mudança na rotina da desembargadora nem na da mulher, até que
lhe veio a notícia, no Tribunal de Justiça, de que seria alçada à nobre
condição de notável. Faria parte, como membro permanente, dos vinte e cinco
desembargadores do Órgão Especial, honraria que a deixou deveras feliz.
Era-lhe, sem embargo, um dos momentos mais auspiciosos da carreira. Ao final do
expediente e das felicitações que recebeu, dentre elas um coquetel improvisado
por seus colegas juízes, procuradores de justiça, promotores de justiça,
desembargadores e proeminentes advogados, um destes últimos lhe enviou um lindo
ramalhete de rosas amarelas. Ela arrumou-as numa jarra de cristal sobre a mesa
que enfeitava, com uma pequena poltrona, um cantinho do seu gabinete de
trabalho. Já sabia quem as mandara: era um advogado que enviuvara anos antes e
que em sua data aniversária última lhe enviara as mesmas rosas amarelas, o que
a fizera comprar às pressas a jarra: era o Dr. Luiz Felipe.
Curioso
é que a homenagem lhe instituíra um problema eterno: manter sempre rosas
amarelas na jarra, o que se tornou uma rotina de gastos. Não que lhe pesasse no
orçamento, ela adorava rosas amarelas e não sabia como o advogado descobrira
seu segredo. Mas lá estavam as rosas, pela segunda vez, acompanhadas de
respeitoso cartão parabenizando-a por mais uma vitória na carreira. Quando ela
leu o cartão e se lembrou da homenagem anterior, seus olhos firmes brilharam de
maneira diferente. Eram os olhos da mulher, que, no entanto, logo se
recompuseram e se tornaram firmes. Mas naquele átimo em que os olhos da mulher
se abriram à vida, um raio de luz se enfiou e se alojou no seu coração de viúva
feito quase de pedra.
Dentro
do carro, a caminho do lar, no silêncio da noite que caíra, o motorista não lhe
percebia as transmutações do sentimento, ora da desembargadora, ora da mulher
que depois de tantos anos despertava para a vida. Pensou, sim, nos seus dois
homens perdidos. Não lhe saía da cabeça a ironia do destino, que lhe dera o
marido, mas lhe arrebatara o pai; e depois lhe dera o filho e levara o marido.
E o medo do destino transformou sua efêmera alegria em trevas a se perderem na
noite que circundava o carro. Se neste momento, caro leitor, lhe pudéssemos ler
os pensamentos e avaliar seus sentimentos, não conseguiríamos ultrapassar o
limiar da dúvida cruel. Porque oscilava dentro dela a mulher feliz ou
assustada. Venceu, ao fim e ao cabo, o medo de a história se repetir: se outro
homem lhe ocupasse o coração, poderia perder o filho. Trancou-se novamente na
carcaça da desembargadora, seu mais forte escudo. Não havia mais como o
destino, nesse caso, tirar-lhe o que lhe permitira conquistar. O tempo ganho
como desembargadora estava consolidado. Todavia, a mulher só perdera tempo...
Perdera
tempo, sim! Ela completara 50 anos sem sair de sua rotina. E nesta mesma batida
de relógio chegou a casa e foi abraçar a mãe, que surgiu com um envelope nas
mãos:
– É
uma carta.
Ela
estremeceu. Imaginou notícia ruim. Temeu por seu destino e sentou-se na sala
para ler a carta. Nem comentou com a mãe o sucedido no tribunal. Foi direto à
carta e em poucos minutos devorava-a em prantos copiosos e claramente
eufóricos. A mãe dela observava-a em silêncio, sorrindo e compartilhando com
ela da alegria desconhecida, até que ela se tocou e tratou de amainar a
curiosidade da mãe:
–
Mãe, é uma carta do Paulo. Ele diz que conheceu uma jovem lá nos Estados Unidos
e está perdidamente apaixonado. Pretende se casar na próxima semana...
Na
carta, Paulo lhe comunicava que fora a um jantar com os amigos Clark e John num
restaurante chique no centro do Boston. Em lá chegando, viu no palco uma linda
mulher e se deliciou de sua voz igualmente linda. Um conjunto perfeito de corpo
e voz sobressaindo-se no palco ao som do jazz.
Ele
não perdia um só movimento da vocalista da banda que se apresentava. Loira, não
muito alta, olhos castanhos e melosos, corpo de mulata brasileira, chamava-se
Mary. E qual não foi sua surpresa quando ela o identificou e anunciou, em
inglês corretíssimo, a presença dele no restaurante:
–
Meus amigos e amigas, temos hoje aqui, tentando o anonimato, um dos maiores
trompetistas norte-americanos. Mas ele é brasileiro. Vamos aplaudir o Paul!
Sob
aplausos, ela, sem perder o rumo da palavra, convidou-o ao palco para se
apresentar e acompanhá-la numas canções, declarando-se tão brasileira como ele.
Seu nome era o sobrenome da mãe dele: Maria. Do mesmo modo que ele se tornara
Paul, ela se tornara Mary. E foram juntos à arte musical excitando os
presentes. Nem é preciso aprofundar sobre o sucesso da apresentação, mas não há
como deixar passar este momento do tempo para vencê-lo com a decisão do destino
de despertar no casal um amor que seria eterno. Estava feita no palco a união
de dois seres que haviam nascido para cumprir o destino da felicidade a dois.
Não apenas a dois, pois a mãe lia e relia a carta para Andrea e ambas se
deliciavam ao repassar cada palavra do único homem da pequena família.
–
Filha, por que ele não telefonou? Por que preferiu a carta? Ele só escreve pautas
musicais...
– Oh,
mãe! A carta tem um sentido profundo. Por mais lindas que sejam as palavras,
elas se perdem no tempo. A escrita vence o tempo. Veja só, mãe, ele fala em
casamento e filhos. Planejaram uma menina e seu nome está escolhido: Ana Cristina.
Que lindo, não é, mãe?
–
Muito lindo! Pelo visto, serei bisavó em breve...
–
Vamos rezar e torcer para ser menina. Será uma linda menina! E se chamará Ana
Cristina! O destino, desta vez, não colocará água no chope...
Desataram
uma risadaria. Em seguida, Glória contou à mãe as novidades do tribunal,
avisando que ficaria de molho na banheira até lhe enrugar a pele.
Foi à
suíte e se desvestiu. Abriu as torneiras da banheira e jogou sais e espuma de
banho. Nua de corpo inteiro, mirou-se num grande espelho, não aquele do vaidoso
alferes machadiano, mas o espelho da mulher que finalmente se via mulher. Em
proposital intertextualidade do mestre da literatura pátria, não seria demais
afirmar que naquele momento a mulher eliminou a desembargadora. Sem dúvida, era
ainda uma linda mulher, merecia viver como tal abrindo seu coração ao amor. Por
que não? O filho estava com a vida profissional e sentimental bem resolvida.
Sem perceber, seu pensamento viajou até as rosas amarelas e ao advogado, que,
devagarzinho, e “mui respeitosamente”, conquistara-lhe a simpatia. Faltava-lhe
conquistar o coração, mas a fechadura não mais estava trancada. Ela mesma dera
a volta na chave que mantinha seus sentimentos aprisionados ao passado e aos
seus dois homens levados pelo destino. Não gostava do mar. Apreciava o verde
das montanhas de Itaipava, distrito de Petrópolis, lugar aonde ia com certa
frequência nos fins de semana e feriados. Sonhava às vezes com uma casa de
campo rodeada de rosas amarelas em cuidadosos arranjos de jardinagem.
Perdida
em seus pensamentos, Glória, a mulher, entrou na banheira e ali permaneceu a
sonhar com o seu recanto verde, a casa de campo que não existia além da
imaginação. Não logrou evitar que o advogado lhe entrasse furtivamente na mente
e no coração. Namorou-o, é certo que sim! E acordou do sonho em sobressalto,
entrando-lhe água pelo nariz. Dormira na banheira...
V
Desde
muito tempo Glória não dormia tão bem. Relaxada e feliz, deitou-se e deixou que
o sono lhe dominasse inteiramente. O tilintar do despertador trouxe-a de volta
à realidade. Levantou-se no horário de sempre, fez a higiene, alongou os
músculos e partiu à caminhada matinal. Deixou que o sol lhe acariciasse a face,
encarando-o de frente. Sorria enquanto andava. Era toda felicidade. A palavra
parecia-lhe completa, ou quase... Faltava-lhe um par constante e estava
disposta a arriscar. Teria dois homens: o advogado das rosas amarelas e o filho
amado. Mas o advogado era-lhe apenas uma intenção muito tímida. Não sabia como
lhe poderia permitir uma “brecha”, como se usa no linguajar jurídico, para se
insinuar ao homem sem ferir a ética da relação desembargadora-advogado. E seu
pensamento oscilava entre a facilidade com que faria isto e a impossibilidade
total de fazê-lo. Nem percebeu que o tempo consumira a caminhada. Alertada pelo
relógio, tornou a casa e pediu à empregada que lhe servisse o desjejum à beira
da piscina. Tomou seu infalível banho frio, vestiu um biquíni ousado e partiu
ao encontro do rei-sol. A desembargadora dera-lhe trégua; a mulher tomara-se de
deliciosa vaidade. Sentia-se bonita e mais queria ficar. O bronzeado da pele,
no contraste com seus olhos verdes, mandava de volta a luz do rei-sol que de
longe lhe sorria. Estava aberto o portal da felicidade. O Dr. Luiz Felipe teria
uma chance, ela pensava de si para si. Só não sabia como se comportar ao
reencontrá-lo...
VI
Cumprindo
a rotina, Glória seguiu para o tribunal. Seu itinerário sempre evitava o mar.
Não gostava de vê-lo tão imponente, roubara-lhe o seu piloto. Sentia uma
profunda nostalgia ao lembrar-se do marido e do mar traiçoeiro que não lhe
devolvera o corpo dele. Mas agora ela era outra pessoa, as boas notícias
despertaram-na para a vida. O destino começava a perder para o tempo que ela
decidira aproveitar por inteiro. A carta do filho produzira-lhe um efeito
mágico, despertara a bela mulher de olhos firmes e de um verde penetrante. Nem
tão firmes: ganhara um brilho invulgar, eram olhos de mulher, os da desembargadora
ficaram para trás. Em chegando, passou cumprimentando carinhosamente os
funcionários, algo que fazia como formalidade, por mera educação. Todos notaram
a diferença e a atribuíam à promoção dela ao Órgão Especial. Afinal, ninguém
poderia imaginar a desembargadora viúva com olhos de mulher, até porque sua
indumentária se mantivera com a severidade de sempre.
Sem
se preocupar com a imponência do seu cargo, e distraída, ela se enfiou no
primeiro elevador disponível. Dentro dele, eis o Dr. Luiz Felipe. Que
coincidência! Que choque!... Artimanha do destino?... Refeita, ela se lhe
dirigiu em saudação:
–
Olá, Dr. Luiz Felipe! Faz tempo que a gente não se encontra nas sessões. Tirou
férias? – iniciou-se a desembargadora-mulher ou a mulher-desembargadora, ela
não mais sabia quem falava.
– Que
prazer, excelência! Tenho andado sumido, sim. Estou começando aos poucos a me
aposentar. Estou aqui para fazer um apanhado dos meus processos. Não vim cuidar
de nada importante. Vou aproveitar para tomar café com meus amigos
desembargadores.
–
Ótimo! Mas gostaria de convidá-lo a um café no meu gabinete. Que acha? –
arriscou-se a desembargadora, sentindo-se ruborizada e imaginando-se refletida
nos olhos dele como no seu espelho da véspera.
–
Claro, excelência! Com certeza, o seu gabinete será minha primeira visita...
–
Acho bom. Afinal, quero agradecer-lhe pelas rosas amarelas... Como o senhor
descobriu que são minhas prediletas?
– Ah,
excelência, segredo de ofício. Não posso dizer, mas garanto que se trata de
pessoa que muito a estima.
–
Tudo bem! Desejo de coração retribuir e comentar sobre aquelas primeiras rosas
do meu aniversário...
–
Quarto andar... Vou ficando por aqui. Tão logo termine a minha tarefa, vou
direto ao seu gabinete. Obrigado pela gentileza.
– Eu
é que agradeço. Estarei aguardando...
Glória
foi ao sexto andar e se dirigiu ao gabinete. De caminho, cumprimentou alguns
colegas que circulavam, recebendo ainda efusivas manifestações de apreço e
muitos parabéns pela promoção. Não cabendo dentro em si de felicidade, adentrou
o gabinete recomendando quanto ao cafezinho e que o Dr. Luiz Felipe fosse
levado à sua presença sem delonga. Não viu que seus assessores, em seriedade ao
receberem seu olhar firme, nem tão firme como antes, tão logo se sentiram
livres de sua observação piscaram olhos entre si e se arriscaram a sorrir como
a Mona Lisa. Todos a conheciam bem. Não era a desembargadora nem a viúva que
falara, mas uma nova mulher.
VII
Na
hora exata, Luiz Felipe chegou ao gabinete da desembargadora e foi gentilmente
conduzido à presença dela. Não o recebeu a autoridade. Sorridente e afável,
recebeu-o a mulher, convidando-o a sentar-se na poltrona cuja mesinha em frente
servia de amparo à jarra onde, na véspera, ela depositara as rosas amarelas por
ele enviadas. Estavam ainda viçosas e perfumadas.
A
copeira trouxe-lhes café e água. Glória fez questão de servir e começaram a
conversar descontraidamente.
–
Luiz Felipe, vamos esquecer o tratamento pomposo. Não quero agradecer as rosas
ao advogado, mas ao homem. Por favor, não se dirija a mim chamando-me de
excelência. É Glória e mais nada.
–
Está bem, Glória. Mas estou curioso. Você me disse que faria uma referência às
rosas do ano passado. Que houve?
–
Ora, Luiz, fui obrigada a comprar a jarra que está acolhendo suas rosas. De lá
pra cá, jamais deixei a jarra sem rosas amarelas. Vou processá-lo por danos
materiais. Venho gastando um dinheirão na floricultura. Praticamente três vezes
por semana. Está vendo só o que você me obrigou a fazer? Como deixar a jarra
vazia? Hoje eu compraria novas rosas. As suas chegaram em boa hora.
Desataram
uma gostosa gargalhada, ouvida do lado de fora por seus assessores, todos com
as anteninhas ligadas em extrema curiosidade. No melhor sentido, claro: torciam
por ela e anteviam um futuro namoro.
–
Luiz, fale-me um pouco de sua vida...
–
Saiba, Glória, a minha vida não foi feita de muitos atropelos. Estudei bastante
e milito no direito por vocação. Casei-me e ganhei uma filha linda. Seu nome é
Vitória Ela está casada com um engenheiro e reside em Fortaleza. Como eu, ela
também se dedica à advocacia. Ela me deu duas netas, a Luana, de oito anos, e a
Yohana, de nove anos e um pouquinho. São lindas!
– E
eu estou ansiosa por ganhar um neto ou uma neta. Meu filho me mandou uma carta
dizendo que encontrou o amor da vida dele. Vai se casar rápido. Pelo que
conheço dele, não seria demais admitir que a moça já engravidou. Ele nem
esperará o recesso do judiciário para eu assistir ao casamento. Estou
ligeiramente desconfiada, mas até torcendo pela gravidez precipitada da
namorada dele. Moram juntos. Estou doida para conhecê-la. O nome dela é Maria,
mas, lá nos Estados Unidos, tornou-se Mary. Até meu filho, que se chama Paulo,
tornou-se Paul. Amo demais o meu filho, é o único homem da minha vida...
–
Deve ser difícil pra você ter o filho tão longe. Mas, por incrível que pareça,
comigo não é diferente. Pouco vejo a minha filha e não vejo minhas netas
crescendo. Por isso penso aposentar e mudar-me para Fortaleza. Estou
pesquisando algumas ofertas. Pretendo comprar casa em frente de alguma praia.
As praias de lá são lindas. Eu adoro o mar...
–
Hum... Prefiro a montanha. Como você deve saber, meu marido morreu no mar. O
avião que ele pilotava caiu e desapareceu. Era oficial da Aeronáutica, deveria
ter morrido no ar. O mar não me traz boas lembranças...
–
Entendo. Curioso, não é? Estamos nos conhecendo e já detectamos um “conflito de
competência”...
Foi
bastante para novamente rirem juntos, assim demonstrando que saberiam
administrar as diferenças.
–
Engraçado, embora eu não esteja pensando em aposentadoria, ando pesquisando uns
sítios lá por Itaipava. A mãe vibra com a ideia de morarmos em meio ao verde e
às rosas amarelas...
– As
mudas serão meu presente...
–
Combinado! Ih, está na hora da sessão...
– Eu
sei disso. Mas não posso sair daqui sem lhe convidar para jantar. Eu também
moro na Barra, num condomínio de apartamentos...
–
Imagino que seja de frente para o mar...
–
Acertou! Também, com a “brecha” que eu deixei, foi fácil concluir. Posso ligar
pra você? Que tal jantarmos no sábado? Eu ligo por volta das onze horas pra
combinar. Está bem assim?
– Por
mim, está ótimo. Combinaremos tudo na manhã de sábado.
Levantaram-se,
trocaram telefones de suas residências e celulares, despediram-se com beijos na
face, ainda bastante tímidos, e saíram juntos. Na entrada do Plenário, Luiz
Felipe se comportou como o advogado despedindo-se da desembargadora: um aperto
de mãos. Não tão comum assim. Havia quatro olhos faiscando em alegria. Estava
selado o destino de ambos. A partir daquela troca de olhares, decidiram juntos
recuperar o tempo perdido. Foi amor à “segunda vista”. As rosas foram os
indícios, e custaram a descobrir a identidade de suas almas. Descobriram-na,
porém, num só momento. E vivenciando esse clima diferente, a desembargadora
encenou um olhar firme, ajeitou-se na beca e penetrou no Plenário. Mas quem a
observasse com maior atenção notaria nos seus olhos verdes o brilho da
esmeralda. O ambiente severo foi-lhe a salvação. Os desembargadores,
compenetrados em seus afazeres individuais, não a olharam mais que o que manda
a educação. Sorte dela, tudo começava bem e ela se felicitava intimamente pela
coragem que teve de abrir a porta do coração para agasalhar seu novo príncipe
encantado, o segundo homem de sua vida. Estremeceu ao pensar nisso...
VIII
O
retorno da desembargadora deu-se além do horário de costume. A sessão se
prolongou em votação inadiável, fato corriqueiro nos tribunais. Nada disso,
porém, afetou sua alegria íntima. Dentro do carro, protegida pela noite, ela
sorria. O motorista, com a atenção voltada para o trânsito agitado, nada
percebia. Era uma quinta-feira. Mais um dia e haveria o ansiado encontro.
Pensou em telefonar para o filho, mas a prudência lhe recomendou aguardar o
máximo que pudesse. Não lhe cabia, na sua idade, comportar-se como adolescente.
Mas seu coração saltitava, caro leitor, como na alegoria machadiana: em
“cabriolas de volatim”. Não havia como controlar as emoções reprimidas durante
tantos anos seguidos. A vida voltara à tona do seu mar de angústias, a palavra
felicidade parecia-lhe novamente real. Tudo muito rápido. A felicidade do filho
a contagiara: despertara a mulher adormecida dentro da viúva e da
desembargadora. Renascera a mulher ainda no vigor da beleza física por conta do
amor que lhe ia tomando o corpo e a alma. Sentia que Luiz Felipe seria o novo
homem de sua vida, o pedaço que lhe faltava desde a morte de Carlos André. Sentia
imensa saudade dele, do seu gênio bom, da amizade profunda com o filho, este
que também o idolatrava. Contudo, via-se ela no direito de tentar ser novamente
feliz. Por que não?
Ainda
no carro, a mulher misturava-se à desembargadora e a vencia; a viúva, porém,
resistia. Havia um representante vivo de seu marido, cópia física dele e razão
maior de sua vida de mãe e mulher. Sem dúvida, seu coração estava dividido
entre a certeza e a incerteza, entre a calmaria e a turbulência, entre a apatia
da mulher e seu movimento rumo à felicidade. Mas estava decidida, não deixaria
que o destino matasse de vez o seu tempo, que haveria de ser diferente. No
fundo, sentia-se tola por se enraivecer contra o mar. Lembrou-se dos romances
que lia na infância e do machadiano Conselheiro Aires dizendo: “Os mortos ficam
bem onde caem.” Sim, que diferença havia entre um cadáver desaparecido no mar
ou sepultado com honras?
–
Chegamos, excelência! – disse o motorista trazendo-a de volta à realidade.
Glória,
em seus devaneios, não percebera a entrada do carro no condomínio nem notara a
casa esperando-a. Sua divagação fora profunda, perturbadora, porém lhe
indicando um final feliz. Haveria de sê-lo, ela o merecia. Durante toda vida
fora uma criatura perfeita: boa filha, estudante exemplar, juíza de direito
respeitadíssima, desembargadora por mérito e autora de livros muito
recomendados nas universidades. Fora boa esposa e mãe. Agora se sentia plena de
liberdade. Moraria de frente para o mar, se fosse a escolha de Luiz Felipe. Via
na relação, que mal começara, a maturidade da união estável. Sua experiência de
vida garantia-lhe especular positivamente. Finalmente reencontrara o caminho da
felicidade.
– Oi,
filha, que cara de satisfação é essa? Que houve no tribunal – indagou Andrea
alegremente, ainda aparentando disposição de jovem apesar da idade.
A
filha mirou a mãe cogitando suas possibilidades idênticas. Cinquenta anos eram
poucos. Iria longe no tempo, e mais ainda sendo feliz. Não havia por que temer
o destino. O proprietário da vida é o tempo. Este, sim, é inexorável. O resto é
cuidar da saúde física e mental, e, principalmente, das emoções. O sentimento é
o fiel da balança cujos pratos disputam o maior peso: vida ou morte?... O
destino é aleatório, pertence a Deus, ou então foi criado por Ele para tornar a
existência uma aventura de sofrimentos e prazeres: o sal da vida. Conceber uma
felicidade plena sem ter como compará-la a nada que a contraste e contradiga é
quase que aceitar qualquer situação como verdade sem direito à réplica. A
realidade da vida é o contraste, é o bem e o mal, o dia e a noite, a tristeza e
a alegria. É, enfim, o viver e o morrer, daí a urgência do tempo e do viver
feliz enquanto ele, o tempo, nos ministra seus contrastes inevitáveis. O
destino é o corte aleatório das realidades. O destino é incontrolável, sim!
Dependente da sorte de cada ser vivente, sim! Mas feito por Deus para
demonstrar a importância da vida e de seus prazeres. Renegá-los não é viver.
Matar a vida antes da morte não é bom caminho existencial. Respeitar as regras
de convivência não implica abominar as alegrias permitidas. Assim concluía a
mulher de nome Glória Maria da Silva. Não a viúva nem a desembargadora, não a
filha nem a mãe, mas a mulher.
–
Mãe, estou cheia de novidades pra lhe contar. Mais que ontem ainda. Parece até
que me enfiaram num túnel do tempo e me levaram à adolescência. Mais tarde eu
sento com você e conto tudo.
Depois
de tomar banho, Glória sentou-se à mesa com Andrea. Mais animada que antes,
entrou a relatar o inusitado dia para a mãe:
–
Mãe, lembra as rosas amarelas que recebi, no ano passado, pelo meu aniversário?
–
Lembro, sim. Foi um advogado o autor da corajosa façanha de cortejar a viúva
mais importante do tribunal. Mas você bem que gostou, não sei se das rosas somente
ou do personagem que as enviou.
– Ele
foi respeitoso. Aliás, sempre se comportou como um cavalheiro no tribunal. É
bastante estimado por meus colegas. Mas saiba que é muito bonito. Acho que
regula a minha idade.
–
Hum... Que animação é essa?
–
Encontrei-me com ele casualmente no elevador. Ontem, ele me havia mandado rosas
parabenizando-me por minha promoção ao Órgão Especial. Não resisti e o convidei
a tomar café comigo no gabinete. Ele aceitou e conversamos muito. Ele é viúvo e
tem uma filha, casada, que mora em Fortaleza. O nome dela é Vitória. Ela tem
duas filhas, a Luana e a Yohana. O marido dela é engenheiro, mas ele nem me
disse o nome dele. Deve ter esquecido, depois eu pergunto.
–
Depois?...
–
Sim, mãe. Vamos jantar no sábado. Ele vai ligar por volta de onze horas. Não
sei, mas a carta do Paulo parece que me fez renascer...
–
Tomara que dê certo, filha. Preocupo-me demais com meu neto. Ele está muito
afastado da gente e age às vezes como se o pai estivesse vivo. Creio que a
ficha dele ainda não caiu...
– Nem
a minha, mãe. Só agora, que decidi acordar pra vida, é que percebi a
possibilidade de ser novamente feliz. Carlos André está morto. Eu o amava. Mas
o meu coração está renascendo. Não vou dizer nada a Paulo por enquanto. Não sei
se dará certo. Vou esperar...
– Faz
bem, filha. Não se precipite. Não vá fazer como ele, que acabou adiantando o
expediente engravidando Maria. Ou Mary, sei lá como a chamo...
–
Isso é detalhe mãe. Maria ou Mary, Paulo ou Paul, a verdade é que seremos
brindadas com uma netinha ou um netinho. E você vai ser bisavó, hein?...
–
Tudo bem! Que eu seja bisavó! Só não posso ser avó novamente – atalhou Andrea
em sorriso maroto.
– Que
isso, mãe! Tá maluca? Não comecei a namorar Luiz Felipe nem estou em idade de
ter filhos. Mas quero pelo menos tentar ser feliz com um companheiro que me
ame, um novo príncipe encantado...
– Ih,
tá adolescente mesmo, hein? Pelo visto, nem começaram a namorar, mas decidiram
isso muito antes.
–
Pode ser, mãe, pode ser. Conto com sua torcida. Espero que você goste dele.
–
Hum... Rosas amarelas... Já gostei, filha, já gostei...
Conversaram,
mãe e filha, durante mais algum tempo, e se recolheram. Na cama, Glória pensava
na preocupação da mãe com o neto. Não deixava de ter razão. Não devia apressar
o assunto com Paulo. O tempo lhe diria que fazer. Mas o destino parecia ter
cuidado de torná-la novamente mulher, e nem sempre o destino é ruim com as
pessoas. Só não manda aviso. Com esses pensamentos lhe ocupando, foi vencida
pelo sono e chegou a sonhar com a casa de campo. E adormeceu profundamente.
IX
A
sexta-feira se iniciou sem atropelos. Glória cumpriu sua rotina caseira e
partiu ao tribunal. Não haveria sessão do Órgão Especial e ela decidira dar uns
retoques no seu gabinete. O despertar do coração cumpria seu papel animador. A
formalidade do ambiente cederia lugar à informalidade da mulher. Na verdade,
Glória recebera o gabinete de um desembargador que se aposentara, e ela nada
lhe acrescentara além da jarra, mesmo assim por causa das rosas amarelas que a
surpreenderam. Não fossem as rosas enviadas por Luiz Felipe, com quem se
relacionava em cordialidade restrita à desembargadora com a parte advogada,
nada teria mudado. Mas agora era diferente, o advogado ganhara dela o direito
de tratá-la como mulher e não com o profissionalismo exigido de ambos pelo rito
jurídico. Isto continuaria a acontecer, porém com os impedimentos que a lei
prevê para evitar nulidades judiciais. Nem a eles interessava saber de causas,
e processos, e decisões, e sentenças, nada. Dali em diante seriam o homem e a
mulher e não haveria motivo para ocultar de ninguém o relacionamento amoroso,
caso se consolidasse, e tudo caminhava nesse sentido.
O dia
foi tranquilo para a desembargadora e entusiasmado para a mulher. Depois de
conversar com sua assessoria e definir as mudanças ambientais permitidas à
solenidade do cargo, ela saiu para almoçar com uma assessora amiga e
acompanhante nos últimos anos. Chamava-se Marcelly, funcionária de carreira,
quase indo à aposentadoria, casada com um juiz aposentado. A relação amorosa da
amiga começara no fórum e terminara na igreja. Marcelly estava com seus filhos
formados em direito, como o pai. Eram dois jovens promissores, ambos casados e
pais de dois meninos cada um. Não viera à família dela nenhuma menina.
–
Veja como é a vida, Marcelly. Eu anseio por uma neta que tem nome já escolhido.
–
Qual será?
– Ana
Cristina.
–
Bonito nome. E se nascer menino?
– Não
sei. Acho que meu filho não cogitou tal possibilidade. Enfiou na cabeça que
será menina e fim. Ele é desse tipo resoluto e sua mente funciona como se o
destino lhe pertencesse. Mas se vier um menino, será como ele e o pai. Serão
dois amigos inseparáveis enquanto existirem – emocionou-se a desembargadora.
– Oi,
Glória... Cadê a desembargadora? Eis a mãe por inteiro. Há quanto tempo eu não
a via assim, com seus olhos expondo seus sentimentos íntimos. Hum... Aquela
visita de ontem. Conta pra mim, conta! – provocou Marcelly.
– Sua
fofoqueira! Estou aqui imaginando a conversa de vocês do lado de fora...
– Ah,
que fazer? E a risadaria que a gente ouvia? Não tenho nenhuma dúvida, minha
amiga, de que o cupido flechou você. Quer saber? Desde o ano passado. Aquelas
rosas amarelas despertaram você para o mundo e para a vida. Pensa que não
percebi? Talvez até antes de você, minha amiga.
– É
verdade, Marcelly. Eu só não quis admitir. Impus à desembargadora e à viúva a
discrição e o afastamento. Nem mesmo respondi ao cartão. Fui grosseira, mesmo!
Nem sei por que ele me mandou rosas novamente...
– Não
sabe? Ora, amiga, sabe sim!... Ele me perguntou discretamente se você tinha
gosto por flores. Liguei pra sua mãe...
–
Hum... Só podia ter sido você. Amanhã vou jantar com ele na Barra. Estou
animada e ao mesmo tempo preocupada. Enfiei na cabeça que o destino não me quer
bem, embora o tempo mantenha-me mais jovem e saudável que mereço.
– Que
isso, amiga? Você merece, sim. E muito! Você é excelente magistrada e muito
amada pelos funcionários do tribunal. Não há quem não goste de você, apesar de
sua austeridade, desse olhar firme que é sua marca pessoal. Não há por que o
destino não lhe privilegiar como pessoa humana. Vá em frente, amiga!
Reconquiste a felicidade.
Não
haveria de haver melhor companhia para o almoço. Glória retornou de braços
dados com a amiga e não se importou com o espanto dos funcionários ao verem a
subalterna lado a lado com a autoridade superiora. Eram ali apenas duas amigas
íntimas, e nenhuma lei seria capaz de evitar manifestações de amizade entre
chefes e subordinados, nem ali nem em lugar algum. E com esse espírito livre a
desembargadora concluiu seus afazeres funcionais naquela sexta-feira especial:
era véspera do ansiado encontro. Conquistara seu segundo homem, com ele lhe
trazendo nas algibeiras a felicidade em forma de amor. O tempo e o destino que
se conformassem! E tornou a casa na Barra da Tijuca...
X
O
sábado amanheceu com um sol sorridente a banhar o Rio de Janeiro. Sua
cumplicidade com os banhistas estava garantida naquele fim de semana. O anúncio
da meteorologia fora categórico: tempo bom! E exatamente às onze horas o
telefone de Glória tilintou. Era Luiz Felipe em combinação britânica.
– Oi,
Luiz! Pontual, hein?
–
Verdade, Glória. Mas já fiz muita coisa hoje. Pulei cedo da cama, caprichei nos
exercícios do costume e agora estou como você, deliciando-me com um café
caprichado.
–
Estou, mesmo. E na beira da piscina, onde gosto de ficar em dias ensolarados. E
logo mais? Como faremos?
–
Estou pensando em passar por aí às nove horas. É bom horário?
– Está
bem. Mas estou sem saber que roupa eu visto. Não costumo sair assim, e meu
guarda-roupa é muito formal. Como devo me comportar?
–
Bem, Glória, estou pensando levar você a um lugar de boa comida e boa música
pra dançar, mas bem informal. Sabe como é na nossa profissão: só trajes
formais.
–
Como você se irá vestir?
– Uma
calça jeans básica e uma camisa de manga curta. Roupa leve, apropriada ao
verão. Está um calor daqueles. Sugiro-lhe mais ou menos isso...
–
Tudo bem. É cedo. Vou ao Barra-Shopping dar uma renovada no meu guarda-roupa.
Quem diria, hein, eu de calça jeans? Mas gostei da ideia.
–
Você não mais deixará de usar roupas assim. É muito bom tirar aquela casca
solene que somos obrigados a usar por conta da profissão. Então está combinado,
não vou mais tomar seu tempo. Até mais. Beijos.
– Pra
você também. Até mais!...
Desligou
o telefone, partiu ao banheiro, tomou outro banho frio, vestiu-se às pressas e
foi às compras. Tornou a casa, por volta das quatro horas da tarde, cheia de
sacolas e produzida em salão de beleza para o esperado acontecimento. Parecia,
sim, uma adolescente. Encheu a mãe de perguntas sobre como estava, se o cabelo
lhe ficara bonito, se a cor do esmalte combinaria com a roupa, enquanto jorrava
as peças que adquirira, desde as mais íntimas aos modelitos arrojados e
modernos. Só não abriu mão de comprar sapatos altos. Não estava acostumada a
calçar salto baixo. Somente o tênis e suas roupas de caminhada compunham sua
informalidade máxima.
Depois
de tomar uma ducha fria, Glória relaxou em frente da poltrona beliscando
algumas frutas. E ali mesmo adormeceu, despertando por volta das sete horas.
Daí em diante foi pura correria, um ritual de põe roupa, tira roupa, combina
isso com aquilo, não combina nada com nada, nervosismo, põe sapato, tira
sapato, ufa!... O espelho chegou a cansar-se de tanto que refletiu a imagem de
Glória transmudando-se a cada minuto. Mas às oito horas o seu traje repousava
sobre a cama. Escolhera cada peça com o esmero de quem está indo ao próprio
casamento. Enquanto o traje repousava, ela também o fazia dentro da banheira em
água quase fria. Estava totalmente relaxada, sentindo-se ótima e entusiasmada
com a aventura que se iniciaria com a chegada do seu príncipe encantado. E ele
chegou, sendo recebido por Andrea:
– Boa
noite. Sou Andrea, a mãe.
–
Muito prazer. Sua filha é muito bacana. Parabéns pela filha e obrigado pela
carinhosa recepção.
– Que
isso!... Nada a agradecer. É um prazer recebê-lo. Glória está em seus últimos
retoques. Vou comunicar sua chegada...
Não
precisou. Glória surgiu na sala toda arrumada, espantando até a mãe dela.
Estava incrivelmente linda! A informalidade da roupa funcionava nela como
máquina do tempo. Eram tão estonteantes a beleza e a elegância da mulher que
Luiz Felipe sentiu-se encabulado. Na verdade, se a lua a pudesse mirar,
recolher-se-ia envergonhada ante tanta beleza; se fosse o rei-sol, ele sentiria
ciúmes de Luiz Felipe. E se as esmeraldas falassem, decerto diriam em despeito
que os olhos verdes da mulher possuíam mais brilho.
– Boa
noite, Luiz! Que cara é essa? Estou feia? – brincou Glória sentindo-se à
vontade.
– Boa
noite, Glória! Desculpe-me o espanto. Você está incrível! Parece uma estrela de
cinema. Acho que vou contratar segurança pra afastar os concorrentes – tentou
brincar Luiz Felipe, mas, na verdade, só conseguia balbuciar as palavras.
–
Vamos, Luiz! Mãe, estou indo. Não se preocupe com hora. A noite promete ser
longa, e hoje o Luiz me começará a ressarcir as rosas que comprei durante um
ano.
A
palavra descontraída de Glória animou seu par. Na saída da casa, Luiz e Glória
ficaram um pouco sem saber que fazer com as mãos, mas ele tomou a iniciativa:
segurou a mão dela e foram ao carro. Andrea, da varanda, admirava a elegância
da filha e se regozijava por vê-la novamente feliz. Mãos dadas, casal namorado,
o neto casando nos EUA, tudo se encaixava naquela família que durante muitos
anos esquecera o significado da palavra felicidade. Agora a palavra se ia
formando com extraordinário vigor. Não haveria retorno. Desta vez o destino
teria de ceder seu poder ao tempo. E o tempo seria consumido com prazeres, não
mais com tristezas nem saudades doentias.
Andrea
talvez estivesse mais feliz que Glória. Torcera deveras para a vida da filha
mudar de rumo. Não gostava da desembargadora. Para ela, mãe, aquela não era a
filha verdadeira; também não gostava da viúva, que não devia ter alongado o
tempo da saudade nem transferido a culpa do destino para o mar. Houvera uma
fatalidade, sim, os entes queridos lhes faziam falta, mas a vida deveria
continuar com alegria, já que não há como mudar a sorte nem travar o tempo. São
coisas de Deus.
XI
–
Glória, espero que goste do restaurante que escolhi para esta noite especial.
Mas preciso saber se você aprecia frutos do mar pra dissipar minha
preocupação...
– Que
isso, Luiz! Não gosto de mar, mas gosto de saborear as delícias que ele nos
proporciona.
–
Ótimo! Então escolhi bem. Que tal comermos lagosta ouvindo um piano? Há também
uma banda revezando com o pianista. O estilo é dos anos sessenta e setenta.
Muito legal.
–
Está perfeito. Onde é o restaurante?
– É
na Praça do Ó. O nome dele é Vice-Rei. Gosto muito de lá. Você come lagosta?
–
Adoro! Será que minha roupa estará compatível com o ambiente?...
– E
como! Duvido que haja alguém mais linda no restaurante. Nem hoje nem nunca! –
brincou Luiz Felipe puxando levemente o rosto de Glória para mirar os olhos
delas.
–
Hum, Luiz, estou um pouco nervosa. Não repare minha timidez...
– Não
se preocupe. Tenho certeza de que nossa noite será inesquecível. Você gosta de
vinho?
–
Gosto muito. Há bons vinhos para consumirmos com frutos do mar. Mas deixo a
escolha com você.
–
Costumo pedir ajuda ao maître. Ele sempre apresenta boas sugestões.
–
Então só falta chegarmos ao restaurante.
–
Falta pouco.
Chegaram,
estacionaram o carro, desceram de mãos dadas. Ela, sorridente e com os seus
olhos verdes faiscando em emoção, deixava-se conduzir confiante no seu homem,
Por essa hora, caro leitor, compartilhe comigo, não há de haver dúvida: estavam
namorados um do outro. A paixão dominara-os intensamente e o amor emergia como
o desabrochar de uma rosa amarela em seu canteiro original. E nesse clima de
cumplicidade alheia ao que havia no entorno deles, sentaram-se à mesa
anteriormente reservada. O maître apressou-se, solícito, oferecendo à dama a
carta de vinhos. Ela gentilmente a repassou a Luiz Felipe, que, por sua vez,
disse ao maître:
–
Confio na sua escolha.
–
Obrigado senhor. Então esperarei o pedido do jantar pra lhes sugerir o melhor
vinha da casa.
– O
pedido é simples, está desde antes decidido: lagosta à moda da casa.
–
Ótima escolha! Então, enquanto seleciono o vinho, o casal pode ir ao aquário
escolher as lagostas? – sugeriu o maître.
–
Claro! – exclamou Luiz Felipe, ao mesmo tempo estendendo a mão para Glória, que
também se levantou.
Foram
ao aquário, escolheram as lagostas e tornaram à mesa. O maître já os esperava
com o vinho nas mãos. Aprovada a escolha, o vinho foi levado ao balde de gelo
para ser degustado em temperatura baixa. Era um vinho branco, francês, de boa
safra.
– E
aí, Glória? Gostou do lugar?
–
Perfeito. Estou ouvindo a moça cantar e me lembrei do Paulo. Curioso, foi
durante um jantar que ele avistou pela primeira vez o amor da vida dele.
– Que
romântico, não é?
– Sem
dúvida! Nada como boa música para nos acalentar. Você sabe comover as
pessoas...
– Que
isso, Glória? Vou ficar encabulado...
– Não
fique sem jeito, por favor! E me desculpe a emoção. É que estou realmente
gostando de você e me sentindo viva. Faz tempo que não acontece comigo.
– Ah,
Glória, não posso negar que sinto a mesma sensação. Desde que enviuvei espero
este momento. Nunca me interessei por nenhuma mulher, apesar dos assédios...
–
Convencido!... Saiba que eu andei espantando muitos fãs também...
– Sei
disso. Por isso não me arrisquei a mergulhar fundo. Contei com Marcelly e com
sua mãe pra desvelar seu segredo sobre as rosas amarelas.
– A
mãe também? Ah, que danada!
– Nem
sei se ela entendeu a indagação de Marcelly na época. Aí está meu “segredo de
ofício”...
– Da
Marcelly, eu já sabia. Mas de mamãe, esta foi novíssima. Você realmente é um
bom advogado até pra conquistar uma mulher...
–
Conquistei?...
–
Sim! – Glória respondeu com um sorriso significativo, assumindo estar
totalmente apaixonada por Luiz Felipe.
Trocaram
um selinho rápido, estavam abertas as portas de seus corações para o amor
entrar. O advogado lograra encontrar uma “brecha” no livro do destino;
aproveitara-se de uma distração dele e partira o escudo que a impedia de
novamente alcançar a felicidade. Sua arma era a flecha do Cupido. Com ela
conquistou o amor de Glória...
Jantaram.
Ouviram o pianista. Ao final do jantar, a banda tomou o palco e iniciou uma
sequência de músicas suaves, boas de dançar. Foram à pista e ficaram por quase
uma hora dançando sem parar. E, como não poderia ser evitado, trocaram beijos
acalorados, assumindo publicamente o amor e a vontade de não mais parar no
tempo. Saíram do restaurante com o convite de Luiz Felipe por ela aceito: iriam
conhecer a casa dele e degustar mais uma taça de vinho. Glória cumpria
docilmente seu papel de mulher apaixonada, ou fogosamente, embora seu fogo
interior ainda não lhe saltasse pelos olhos. Olhos que, ao brilho do luar sobre
eles incidindo, projetavam-nos aos céus como dois holofotes com lentes de
esmeralda. E toda aquela luz penetrava os olhos de Luiz Felipe e explodiam em
seu coração. Assim chegaram ao apartamento, e as horas que lá passaram, e o que
fizeram, deixo por conta da imaginação dos leitores e leitoras que até aqui me
acompanham na narrativa, esperando que todos tenham vivenciado um mesmo momento
mágico de troca entre dois corpos amantes, ignorando o tempo, o destino, o
mundo, o universo... Enfim, ignorando tudo!
XII
No
céu, o rei-sol acordava em lindo crepúsculo matutino. O casal deixou o
apartamento e retornou ao condomínio de Glória. O porteiro, sonolento e
discreto, abriu-lhes a entrada. Entraram. No hall, trocaram beijos apaixonados
e marcaram novo encontro à noite. Iriam ao teatro, no Leblon, e depois fariam
um lanche para encerrar o domingo. Não havia mais que questionar. Eram
namorados, o que valia para tudo e todos: para a desembargadora, para a viúva,
e para a mulher que superara a duas primeiras; e para o advogado, para o viúvo,
e para o homem que igualmente vencera as aparências anteriores e conquistara
com a sutileza das rosas amarelas enviadas à mulher oculta na
desembargadora-viúva em sua data aniversária.
Fora um chamado a uma nova vida no seu dia
de nascimento. Ela entendera o recado e guardara-o no seu íntimo. Entretanto,
não resistiu ao segundo buquê. Estava entregue à sorte. Fora ao mundo
reviver-se e pagaria qualquer preço por sua felicidade. Assim cogitava ao
deitar-se para trocar a noite pelo dia, experiência que até saíra de sua
memória feminina. Agora, quem adormecia era a mulher-adolescente-apaixonada. E
dormiu um sono de anjos. Não sonhou com nada até despertar às quatro da tarde.
No seu apartamento, Luiz Felipe fez o mesmo...
Às
sete horas, o casal deixava o condomínio, indo direto ao Shopping do Leblon. A
peça começaria às oito horas, não se deviam atrasar. Havia, porém, tempo de
sobra. De caminho, foram muitas as palavras carinhosas que trocaram. Suas vozes
estavam tão afinadas no discurso namorado que mais parecia uma ópera cujos
interlúdios se manifestavam por pequenos toques dela no cabelo e nas mãos dele,
enquanto ele atentamente guiava a carruagem. Sim, uma carruagem conduzida pelo
príncipe encantado. Ela seguia feliz e agradecida ao destino, que, decerto,
espreitava os namorados, mas se mantinha alheio aos sentimentos deles. Assim
deixava o tempo ser aproveitado pelo casal enquanto seguia ao seu futuro eterno
e desconhecido.
Sem
perceber que eram seguidos pelo destino, Luiz Felipe e Glória curtiam cada
minuto de felicidade. E quanto mais aproveitavam juntos os benefícios do amor
sincero, mais o tempo acelerava. Tempo bendito, sim, mas que se torna maldito
ao dar velocidade à felicidade em direção ao fim inexorável de tudo. Talvez
pior lidar com ele que com o destino, este que não faz correr o tempo, apenas o
interrompe sem qualquer lógica que se explique a não ser pelo absurdo
aleatorismo e por seu desprezo aos adultos e crianças, pelo dia e pela noite e
pelos lugares. Atinge a ambos, indistintamente, e não demonstra qualquer
arrependimento. Simplesmente cumpre sua finalidade e nada mais.
Também
alheios às armadilhas do destino, Glória e Luiz Felipe assistiam à peça teatral
divertindo-se com as encenações da atriz Samantha Schumutz, que representava no palco diversos personagens em
quadros distintos e motivadores da escolha do título da peça: “Curtas”.
Excelente escolha, o casal deixou o teatro ainda contagiado pelo espetáculo.
Toda aquela roupagem de corpo e espírito da magistrada e do advogado
parecia-lhes nem existir. Ali estava um casal enamorado. No mesmo local, numa
lanchonete comum, pediram um lanche rápido. Depois partiram ao apartamento
dele. O resto não lhes importava. O dia seguinte que tivesse paciência,
especialmente com ela, que tinha afazeres no tribunal, mas podia mui bem
controlá-los. O benefício do prazer que a aguardava valia uma pequena desídia
funcional. Não traria prejuízo a nada e a ninguém. E chegaram, e se amaram
intensamente, e dormiram, e levantaram com o dia aberto e o rei-sol reclamando
a ausência de ambos na caminhada cujo horário ficara para trás. O tempo não se
incomodara; o destino permanecera indiferente a eles; a felicidade explodia
dentro deles como fogos de réveillon. E assim seguiu a humanidade: sentada à
beira do caminho vendo a felicidade passar sem demora, correndo contra o tempo
e ignorando o destino. E quatro meses se passaram sem que os namorados os
sentissem.
XIII
–
Mãe, creio ser boa hora de comunicar meu namoro ao Paulo. Luiz fala em
casamento. Já pensou se Paulo descobre antes de eu falar com ele? Ainda bem que
ele nunca telefona para o tribunal. Falamos sempre aqui, nem para o meu celular
ele liga.
–
Você é quem sabe, filha. Espere-o ligar. Vá sondando o espírito dele
devagarzinho e lhe comunique sua decisão.
– Que
acha você da reação dele?
–
Bem, como avó, acho que ele tenderá ao ciúme. Mas ele não é criança. Está
casado e talvez já saiba o sexo do bebê. Ele não disse que Maria passaria por
nova ultrassonografia?
–
Estou apreensiva. Mas devo ter fé. Ele aceitará. Afinal, é a minha felicidade
que está em jogo. Não vejo como adiar o anúncio. Se ele ligar, vou falar com
ele.
Mal
completou a frase, o telefone tilintou; Glória foi atender com duas
alternativas: seria um dos seus dois homens. Era o filho.
– Oi,
mãe! Tudo legal por aí? Tenho uma notííííciaaa!... – exclamou Paulo esticando a
palavra como se fora feita de borracha.
–
Diga, filho!
– É
menina! Você vai ganhar uma neta! Está a caminho nossa Ana Cristina. Eia!
–
Eia! Que notícia boa, filho! Está tudo bem com o bebê? E Maria? Fale mais! Fale
mais! – empolgou-se a mulher-filha-mãe-sogra.
–
Maria está ótima. Não cabe em si de contentamento. Parece um rouxinol a cantar
aqui em casa. Toda hora inventa de eu acompanhá-la numa canção de ninar. Já
treinamos todas, daí e daqui, em português e em inglês.
– Que
ótimo, filho! Que felicidade! Nós merecemos! – emocionou-se Glória sem segurar
as lágrimas. – Andrea, ao lado, também chorava.
– Oi,
mãe, tô ouvido a choradeira! Para com isso! E as novidades daí? Vovó arranjou
algum namorado no condomínio. Não tem nenhum velhote dando sopa, não? Seria
bom, se isto acontecesse. Você poderia vir morar comigo...
– Ah,
filho, tem novidades aqui, mas é comigo...
–
Outra promoção?
–
Não, filho, um namorado...
–
Quê?!!?!!
–
Sim, filho, estou namorando um advogado, viúvo como eu. É pessoa muito legal.
Estou ansiosa para apresentá-lo a você.
– Boa
noite, mãe!
– Que
é isso, filho?
–
Isso é traição de você com o pai. É o que é!
– Seu
pai está morto, Paulo! Não fale assim comigo!
– Não
se preocupe! Não vou mais falar com você!
Desligou
o telefone na cara dela. Glória encetou diversas tentativas de religar, mas
ninguém atendia. Entrou em imediata depressão. Contou a reação do filho à mãe
dela e foi para o quarto. Caiu sobre a cama e chorou copiosamente. Não esperava
reação tão hostil. Não entendia como um adulto, já casado, não aceitasse alguma
realidade diferente do que exigia do mundo para si. O egoismo do filho arrasou
a mulher, destroçou a mãe e sepultou a desembargadora. Não sabia que fazer da
vida.
Ainda
nesse estado emocional péssimo, a mãe lhe anunciou Luiz Felipe ao telefone. Ela
nem abriu a porta, mandou a mãe dizer-lhe que estava com dor de cabeça. O
advogado de nada desconfiou. Indagou de Andrea se precisava de algo, recebendo
dela os agradecimentos com a resposta de que estava tudo controlado, e que o
dia seguinte seria melhor. Ele, tranquilizado, desligou.
XIV
Era
uma terça-feira. O dia iniciou-se totalmente diferente da rotina de Glória. Nem
do quarto saiu. Chorava ainda, e sua mãe não a conseguia consolar. Sentia uma
sensação de dor desconhecida: a dor da perda de um ente querido, vivo, pelo
afastamento resoluto. Era o filho seu único homem, não poderia perdê-lo para
ganhar o namorado. Disputa desigual, o coração dela partido em pedaços, sua
mente vivenciando uma indecisão que jamais pensara experimentar na vida. Ela,
com tantas decisões difíceis que tomara como magistrada, estava agora em conflito
e perdida como a criança que se perde dos pais em praia lotada.
O
desespero inundava-a, afogando-a em lágrimas. Não falava com ninguém, nem com
Luiz Felipe, que ligara diversas vezes e apenas fingia aceitar as desculpas da
mãe dela. Passaram-se três dias. Ela não saiu de casa para nada, faltou ao
tribunal alegando mal-estar. Foi como o tempo consumiu a semana: vendo o
destino se deliciar de mais uma traquinagem contra Glória. O próprio tempo
tentou repreender o destino, mas este o mandou postar-se no seu caminho eterno
e seguir viagem. Aquilo não era problema dele, do tempo, mas do destino, que
cumpria a tarefa de animar a vida por meio do drama, embora também se
utilizasse da comédia e abusasse da tragédia. Não via na alegria muita graça.
Até proporcionava alegria às pessoas, porém sem a prioridade com que as pessoas
a desejavam.
Não
mais entendendo nem aceitado as desculpas transmitidas por Andrea, no sábado
Luiz Felipe partiu para a casa de Glória. Aí, sim, não havia como ocultar dele
a realidade. Glória veio atendê-lo. Não era a mulher por quem ele se
apaixonara. Na frente dele surgiu um farrapo de criatura humana. Com os cabelos
desgrenhados, sem qualquer pintura ou arrumação, do jeito que se encontrava,
ela veio ao encontro dele. Narrou-lhe miudamente o que ocorrera sem conter o
pranto. Ele a ouviu em silêncio. Pensou reclamar do fato de ela não confiar
nele o suficiente e lhe narrar o episódio no mesmo dia, para administrá-lo
juntos. Só pensou, não falou. Sua experiência indicava ser o problema ainda
mais grave e ele, de antemão, sentia-se perdedor. Amava Glória como jamais
acontecera em sua vida. Desejava-lhe o melhor. E, pelo visto, o melhor seria
afastar-se dela.
–
Querida, sei que o conflito em seu espírito é complexo. Não implica decisão
simples. Qualquer que seja sua decisão, você sairá perdendo. O seu filho,
desculpe-me a franqueza, foi bastante egoísta. Por outro lado, não sei se posso
simplesmente reduzir o problema ao comportamento dele. Ele, como nós dois,
vivenciávamos a mesma saudade, cada qual do seu modo. Por isso eu o entendo,
embora não o justifique. Vou fazer o seguinte. A partir de hoje vou dar um
tempo pra você refletir. Mas saiba que, de tanto que a amo, não permitirei que
sua decisão lhe exclua o filho. Ele é a razão principal de sua vida.
– Oh,
Luiz!
– Por
favor! Não fale nada! Sei que você não está em condições de falar. Prefiro o
seu silêncio. Vou me afastar de você porque também não resisto vê-la sofrer
deste modo. Vamos deixar o tempo cuidar do drama para que ele não se transforme
numa tragédia a mais em sua vida, está bem?
–
Está bem, Luiz. Mas saiba que eu o amo muito.
– Sei
disso. Agora vou me retirar e deixar você se recuperar – disse o namorado
beijando-a na testa. – E imediatamente partiu, sem olhar para trás.
Glória,
se já estava arrasada, agora é que seu espírito afundou e se afogou dentro de
si. A depressão ocupara o lugar da razão e da emoção. Também destroçara a
desembargadora, que nem mais se lembrava de seus afazeres. E como não poderia
deixar de ser, na segunda-feira à noite o presidente do Tribunal de Justiça foi
a casa dela.
–
Glória, que está havendo? Sentimos sua ausência no tribunal. Estão todos
preocupados com você.
–
Obrigado por vir aqui presidente. Isto facilitará de sua parte a compreensão do
grave problema que enfrento e da decisão que tomarei tão logo vá ao tribunal.
– Que
decisão, Glória?
– Vou
ingressar com meu pedido de aposentadoria.
–
Mas, Glória, logo agora que você alcançou o topo da carreira? Quer saber,
nossos pares falam claramente que seria ótimo vê-la presidindo o Tribunal de
Justiça, o que conta com meu total apoio. Que houve de tão grave? Posso saber?
– Claro que sim, meu presidente. Faço
questão de lhe contar em detalhes o meu problema, para que o senhor entenda que
minha decisão é irreversível e me ajude.
Glória então passou a narrar sua tragédia
pessoal. Não conteve o choro, deixou que a alta autoridade penetrasse na mulher
e nos seus conflituosos sentimentos. Ao final da narrativa, manteve-se em
silêncio. O presidente percebera a inutilidade de qualquer tentativa de
demovê-la da decisão de se aposentar. Ofereceu-se, porém, para ajudá-la no que
fosse possível.
– Meu
presidente, gostaria muito que o senhor reunisse o colegiado em sessão
especial. Seria bom eu abrir meu coração ante eles. São pessoas notáveis e
humanas. Saberão me compreender e apoiar. O senhor faria isto por mim?
– Já
que não há outra alternativa, claro que faço!
–
Poderia ser na quinta-feira?
– Com
certeza! Abro um espaço de uma hora na pauta. Está bem assim?
–
Está ótimo!
– Mas
gostaria de receber o seu pedido de aposentadoria no tribunal. Quem sabe você
até lá muda de ideia?...
– Não
vou mudar, mas faço-o deste modo. Muito obrigada, excelência.
– Que
isso, amiga? Força! Não chore. Haverá uma solução agradável ao fim de tudo.
– É o
que espero, excelência.
–
Tenha fé! Estou indo. Conte comigo!...
Tentando
animar-se, convidou a mãe e partiu para Itaipava. Lá, hospedaram-se numa
pousada e foram direto a uma imobiliária para ver uns sítios. Mas nada disso
lhe espairecia o espírito; sua tristeza era evidente para a mãe, porém
dissimulada ante os corretores apenas pelo silêncio e pela objetividade. E
encontrou o sítio dos seus sonhos: uma casa rodeada de chão gramado e prontinho
para receber seus canteiros de rosas amarelas. A casa, em estilo rústico,
situada dentro de um condomínio de sítios, parecia-lhe perfeita. As acomodações
sobravam, caso o filho um dia resolvesse perdoá-la e lá se instalar com a
família ou passar temporadas. Não titubeou, correu contra o tempo e driblou o
destino: comprou a casa de campo.
De
caminho, ao descer a serra de Petrópolis, Glória fazia planos com a mãe de se
mudarem tão logo fosse liberada pelo tribunal. A posse da casa dar-se-ia
imediatamente ao pagamento, na assinatura da escritura. Os proprietários não
residiam no sítio e o venderam de “porteira fechada”. A decoração da casa era
um primor, não valia a pena desmanchá-la. Glória pagou o preço sabendo que
manteria a casa na Barra para o filho, uma segunda opção caso ele viesse a
morar no Brasil.
–
Mãe, você acha que o Paulo me perdoará quando souber que me afastei de Luiz
Felipe?
–
Querida, veja bem, desde que você nasceu, eu sabia que seu mundo não me
pertencia, era todo seu. Fiz o possível para não interferir em sua vida
pessoal. Aprovei sua escolha pelo Bruno e a apoiei em tudo. Mas quero que você
saiba que eu não abriria mão de um novo amor, acaso isto me ocorresse. Amo
Paulo mais que ninguém. Mas não dou razão a ele. A vida dele segue como ele
sempre quis. Você o apoiou sem restrições. Não vejo nele nenhuma autoridade
moral pra fazer o que está fazendo com você. Pense bem, minha filha, se o rumo
da vida não for atropelado por algum fado, você irá ao túmulo antes dele. Só
que viverá infeliz até esse dia. Aceitar esse comportamento egoista da parte
dele é risco também para ele.
– Eu
sei, mãe. Mas ele não me atende nem responde às minhas cartas. Não consigo me
explicar, tentar convencê-lo. Nem Maria me ligou. Estou isolada deles e talvez
nem tenha a chance de conhecer minha neta. Isso é horrível!
Horrível,
sim, mas Glória jamais poderia imaginar o que acontecia à sua “revelia”. Luiz
Felipe, depois de conversar longamente com Vitória, a filha dele, reafirmou sua
disposição de aposentar-se e morar em Fortaleza, numa casa de frente para o
mar. Narrou-lhe o seu drama e decidira pelo menos tentar convencer Paulo a
perdoar a mãe. Renunciara ao seu amor por ela para abrir uma “brecha” de
reconciliação mãe e filho. Com a filha avisada, o advogado simplesmente partiu
para Boston. Ficaria frente a frente com o rival-filho para lhe comunicar a
renúncia ao namoro e salvar a relação mãe-filho. Ele o receberia nem que fosse
à pressão. Não perderia a viagem. Dois dias depois estava desembarcando em
Boston.
Era
tarde. Hospedou-se num hotel próximo do bairro onde Paulo residia. Estava com
todos os dados: telefones, endereços da casa e dos locais onde ele e a mulher
geralmente se apresentavam. Não haveria como lhes escapar. Sem sono, porém,
partiu logo ao restaurante em que a dupla se apresentava. No anonimato, pode
perceber a qualidade do casal, demais da simpatia no contato com o público. Não
entendia o porquê de Paulo não ser assim com a mãe. Via-se que estava
esbanjando felicidade: aclamado na profissão, casado com a pessoa certa,
aguardando a filha que almejara, parecia até que a mãe dele nem existia no
mundo, se se considerasse ao pé da letra a realidade festiva do restaurante e
os muitos beijos trocados pelo casal, no palco, entre uma e outra apresentação.
Esperaria o dia seguinte e bateria à porta deles logo pela manhã. E foi o que
fez: foi a casa deles o tocou a campainha. Veio-lhe atender a dona da casa:
Maria.
–
Pois não, senhor? – comunicou-se com ele em inglês.
– Por
favor, pode falar em português. Sou brasileiro como você e Paulo.
Não
foi difícil a Maria concluir que estava diante do seu ex-futuro-sogro.
Desconcertada, não sabia se o mandava entrar ou expulsava-o dali mesmo. Mas, no
seu íntimo, ela não dava razão ao marido. Achara uma estupidez da parte dele
cortar relações com a mãe só porque ela novamente amava. Sentia-se mal com o
egoismo dele; não aceitara aquele comportamento infantil danoso à vida de
terceiros, ainda mais da própria mãe. Que seria dela? Como poderia amar um
homem que não medira as consequências do seu gesto contra a mãe? Assim pensando,
decidiu por sua conta:
– Por
favor, entre! Seja bem-vindo! Vou chamar Paulo e providenciar um café.
–
Obrigado! – disse Luiz Felipe entre espantado e contente pela primeira reação,
importante reação de cumplicidade da esposa de Paulo, que sua experiência de
vida e de plenário lhe garantia.
Maria
não se fez de rogada. Séria e compenetrada, ela foi ao marido, que estava no
quarto arrumando umas pautas musicais como se a vida lhe fosse devedora.
–
Paulo, temos visita.
–
Visita?
–
Isso. Está na sala o Dr. Luiz Felipe, ex-namorado de sua mãe. Veio do Brasil
exclusivamente pra falar com você.
– E
você o deixou entrar...
–
Claro! Não sou mal-educada. Vou preparar um café enquanto vocês conversam.
– Por
que você acha que eu vou conversar com ele?
–
Vai, sim! Este é um problema mal resolvido e diz respeito também a mim...
– A
você? Não entendo.
–
Entenderá. Primeiro dê-lhe atenção. Depois nós conversaremos...
–
Está bem! – respondeu-lhe Paulo meio assustado com a resoluta reação da esposa
e não quis iniciar uma discussão com estranhos na casa dele.
Ao
avistar Paulo adentrando a sala, Luiz Felipe levantou-se para cumprimentá-lo. O
cumprimento não poderia ser mais hostil, mas Luiz Felipe fora lá com um
objetivo, e, sem delongas, tomou a iniciativa.
–
Paulo, não nos conhecemos pessoalmente, mas lhe garanto que sei de cada fase de
sua vida narrada por sua mãe. Sei o que você fez com ela. Não pretendo discutir
suas razões, não vim aqui pra isso. O motivo da minha presença aqui é pra lhe
comunicar que saí definitivamente da vida de sua mãe. Fiz assim porque você a
colocou ante um dilema em que uma escolha exclui a outra, o que torna ambas
ruins. Como eu gosto realmente dela, preferi tomar a iniciativa, e já o fiz.
Quando eu voltar, vou diretamente a Fortaleza viver perto de minha única filha
e minhas netas. Não voltarei ao Rio, já me desvencilhei de tudo.
–
Mas...
– Por
favor, escute-me! Não vim de tão longe pra questionar seu comportamento. Vim
apenas lhe garantir meu afastamento e lhe dizer que sua mãe está mal. Ela pediu
aposentadoria. Não quer saber da carreira, vai morar na casa de campo que ela
sempre sonhou ter. Vai com Andrea.
– Eu
pretendo permanecer aqui poucos dias. Depois vou à Europa. Fico fora uns quinze
dias. Creio que minha visita completou a finalidade, desculpe-me por invadir
sua privacidade e ocupar seu tempo. Recomende-me à sua esposa e boa sorte com
Ana Cristina.
Levantou-se,
apertou a mão de um homem atônito, deu meia-volta e saiu pelas ruas de Boston.
Paulo ficou onde estava, igual alfinete cravado na almofada, tal como estaca
fincada no chão. Perplexo, não teve chance de dirigir uma só palavra ao homem
que o destino, numa distração, permitira à sua mãe escolher para amar. Quando
Maria chegou com o café, o advogado já desaparecera da casa dela para nunca
mais voltar.
– Ué!
Cadê o homem, Paulo?
–
Falou o que quis e se foi. Disse que se afastou da mãe definitivamente para que
eu não fique brigado com ela. Mas fez questão de me dizer que ela abandonou a
carreira e está muito mal.
– E
agora, Paulo?
– Não
sei. De um lado, estou satisfeito. Não quero ver minha mãe com outro homem
senão o meu pai...
– Que
morreu faz tempo, não é, Paulo?
– Pra
mim, não!
– Pra
você o quê? Seu pai está vivo ou morreu no mar?
–
Está vivo em minha lembrança. Não estou entendendo você...
– E
você acha que ele morreu na memória de sua mãe? Não admite que ela, em amando-o
tanto em vida, não sente saudade?
–
Claro que ela sente saudade! Que isso, Maria? Você está diferente!
–
Pois vou lhe dizer uma coisa: jamais imaginei ter casado com pessoa tão
egoísta. Até me assusta a ideia de que, se nosso filho nascesse menino, você o
detestaria só porque decidiu por menina. O que eu acho é que você quer ser dono
do destino das pessoas, e por isso levou sua mãe à tragédia profissional e
pessoal.
–
Você não pode falar assim comigo, não! Sou bom marido! Amo você! Vivo pra você!
–
Desde que seja tudo como você planeja. Quer saber de uma coisa, Paulo? Eu amo
você como ninguém! Mas lamento por esse seu caráter doentio. Isto um dia
entornará nosso caldo. Amo você, sim! Mas não confio em você, porque você é um
egoista estúpido!
– Não
vou mais discutir com você, Maria. Vou sair.
– Vá
mesmo! Mas saiba que, quando você voltar, nossas malas estarão prontas e as
passagens, compradas. Vamos direto a casa de sua mãe. Você vai ter de consertar
essa desgraceira toda.
– É
ruim, hein? Não vou mesmo!
–
Então você fica! Mas eu vou! Não vejo minha família faz muitos anos e de
repente me lembrei que me tornei egoista como você. Vou ao Brasil abraçar minha
família e visitarei a minha sogra. Quero que ela veja minha barriga e saiba da
neta que está dentro dela.
– Se
você for ao Brasil sem mim, não precisa mais voltar.
– Em
primeiro lugar, eu irei, sim! Em segundo lugar, volto se eu quiser, e fico se
eu quiser. Você que saia daqui, a casa é minha, esqueceu-se disso? Mas estou
pensando em não voltar. Vou ficar por lá. Mas eu, como amo você, espero que
você repense tudo que fez e embarque comigo amanhã. Você deve mil perdões à sua
mãe, e agora não há mais motivo para hostilizá-la. O namorado dela deixou o seu
campo livre. Mas você vai perceber que você não é dono de nada, quem manda é o
destino.
– Que
destino?
–
Esse que nos está afastando, matando nossa felicidade como vingança por seu
comportamento de semideus. Amanhã, Paulo, com ou sem você, eu embarco. E levo
minha filha dentro de mim, a não ser que você, sentindo-se tão dono dela, nesse
seu egoismo abra a minha barriga com uma faca para retirar a parte que lhe cabe
do seu DNA. Mas nós duas estaremos mortas. Quer saber? Você matou sua mãe!
Paulo
não ouviu o resto. Atônito, em vez de sair foi para o quarto e desatou um choro
convulsivo. A esposa mirava-o sem interferir. Ele chorou sem parar por quase
meia hora, até que, comovida, Maria se arriscou a entrar no quarto. Mas, em vez
de dar com um homem irritadiço, arrogante e revoltado, viu a criança indefesa
que lhe pedia ajuda para sair da enrascada em que se enfiara. Perdera a mãe por
injustificável rancor contra ela. Estava prestes a perder a mulher e a filha.
Tornou ao mundo real e percebeu que sua condição de dono do mundo era miragem.
–
Maria, querida, por favor, não me abandone. Caí na real! Preciso, sim,
consertar a desgraça que jorrei contra a mãe. Vou com você amanhã. Vou pedir
perdão a ela. Vou procurar o namorado dela e também lhe pedir perdão. Como pude
ser tão insensato? Ó Deus, perdoe-me!
–
Tudo bem... O que você fez, tem conserto. Afinal, são pessoas que amam você
acima até de si mesmas. Não tenho dúvida de que sua mãe e sua avó o perdoarão.
Creio no arrependimento e no perdão. Dará tudo certo. Agora descanse um pouco e
depois me ajude a fazer as malas. Vamos de surpresa. Nada de aviso.
–
Vamos, sim, Maria. Concordo com você que errei feio. Mas, por favor, vamos com
calma. Não há necessidade de sair voando daqui. O namorado da mãe disse que
ficaria rodopiando por aí e até daria uma esticada pela Europa. Temos tempo
para organizar as coisas. Pode deixar, eu irei com você, mas prefiro deixar
passar esta semana. Minha cabeça está atordoada. Não quero chegar até a mãe de
surpresa. Você pode preparar o terreno pra mim? Telefona pra ela?
–
Como posso fazer isto? Você nem me deixou atender ligações e queimou as cartas
dela sem que eu pudesse conhecer seu conteúdo. Agora quer que eu ligue pra ela?
Não, não ligo não.
–
Então fale com a vovó, pelo menos, pra avisar que iremos na semana que vem. Mas
quero que a mãe saiba que estou indo pra pedir perdão. Por favor, faça isto por
mim.
–
Está bem. Farei. Só porque a causa é justa. Vamos viajar na segunda-feira.
XV
Tempo
curto, parecendo eternidade. Maria ligou. Andrea ficou contente com os
acontecimentos e conversou com a filha. Ela, porém, decidira mudar de
residência ainda durante a semana. Não seria uma mudança complicada, não
levaria móveis. Apenas alguns eletrodomésticos e roupas seguiriam viagem.
Depois ela adequaria a parte de cama, mesa e banho em Petrópolis. O que
desejava, mesmo, era se mudar e esconder-se de tudo. Programou com a mãe a
mudança para o sábado. Na quinta-feira, como estava programado, cumpriria a
despedida do tribunal. Na sexta-feira acomodaria as coisas principais. No
sábado estaria arrumando a nova casa e se habituando ao ambiente rural. Mesmo
que lá não ficasse em definitivo, cuidaria para que nada lhe faltasse na casa
de campo. Mas teria de ser aos poucos. Segundo pensava, em um mês, não mais,
precisaria vir à capital.
Aos
trancos e barrancos, Glória acordou péssima na quinta-feira da despedida.
Estava visivelmente nervosa. A mãe a acalmava como podia. Mas ela, durante a
manhã, cumpriu a rotina do alongamento, da caminhada, do alongamento, do banho
frio e foi se sentindo desembargadora, embora o espelho só refletisse a mulher desesperada.
Não lhe foi fácil ensaiar o olhar firme e decidido com que pretendia chegar
frente ao seu motorista de tantos anos, de nome João, pessoa simples e cordial.
Como ela, João desempenhava com precisão e orgulho seu papel subalterno de
motorista de autoridade. Jamais abria a boca, nem quando a autoridade tentava
aprofundar algum diálogo. Aprendera com o pai, igualmente motorista de
autoridade, que elas passam e o motorista fica. E ele haveria de ser sempre
impessoal no que fazia. Seus gestos mecânicos, curiosamente, funcionavam como
meio de manter distância da autoridade para a qual dirigia a viatura oficial,
iniciativa que jamais transferira para autoridade alguma. Não cuidava da pessoa
dela e de seus problemas. Saber demais, segundo os conselhos do pai, somente
redundaria em prejuízo na carreira. Quando foi aprovado como motorista do
tribunal, decidira seguir fielmente a cartilha até alcançar a aposentadoria.
Necessitava tão-somente vencer o tempo e pedir que o destino o esquecesse por
lá. Nada mais. Esse era o motorista que abria a porta do carro para a
desembargadora.
– Boa
tarde, João. Tudo bem?
–
Tudo bem, excelência! – respondeu João ao fechar a porta traseira por onde a
autoridade entrara.
–
Vamos então! – encerrou o diálogo a desembargadora.
Nenhum
acréscimo, nada. Os dois seguiram em silêncio. Ela nada levava nas mãos nem lia
papel algum. Ele, atento ao tráfego, aproveitava-se disso para mais se afastar
da autoridade que conduzia. E assim, mecanicamente, alcançaram o prédio do
Tribunal de Justiça. Foi ao seu gabinete, reuniu os assessores e lhes comunicou
sua decisão. Muitos choraram, em especial a amiga Marcelly. Mas ela, com
certeza, faria outros contatos com a amiga e saberia o que houvera. Outros se
comportaram como o motorista João. Funcionários de carreira, sem sair do lugar,
passaram por muitas despedidas e já se preocupavam com o substituto, sempre um
momento de apreensão. No fim de contas, nem todas as autoridades possuíam bom
gênio. Lidar com poderosos de humor variado era-lhes uma preocupação quase que
histórica. Portanto, em silêncio a ouviram, quietos saíram e se sentaram em
seus lugares. Estava cumprida a primeira etapa.
Do
gabinete, a desembargadora Glória Maria da Silva dirigiu-se ao Plenário. Já a
esperavam os 24 membros do Órgão Especial do Tribunal de Justiça. Foi aplaudida
na entrada. Os seus pares estavam avisados da decisão dela e curiosos por saber
o motivo que levava aquela colega tão proeminente jogar a toalha antes do
tempo, mesmo com um promissor futuro a lhe aguardar. Esperavam, sim, ouvir a
voz da desembargadora, mas ouviram a mulher:
“Excelentíssimos
senhores desembargadores, meus nobres colegas e preciosos amigos. Quem aqui
falará não é a desembargadora, mas a mulher e a mãe. Vim para cá despida da
roupagem solene em meu espírito, embora ela cubra o meu corpo. Como todos
sabem, depois de muitos anos dedicando-me à viuvez e à profissão, conheci uma
pessoa pela qual me apaixonei. Tudo poderia ser maravilhoso, mas o destino se
enfiou na minha vida para fazer mais uma crueldade e afastou de mim o meu filho
e me impediu de abraçar a felicidade. Foi o maior golpe que eu, como mãe,
poderia receber. E, para preservar a mãe, tive novamente de sepultar a mulher.
Mas pretendo exumá-la em modo diferente. Pretendo que a mulher renasça, mesmo
que a viver só de saudade. Não posso fazer isto como desembargadora, não serial
moralmente possível conciliar meus objetivos sem os concentrar na mulher que,
de alguma forma, pretendo reencontrar, de modo a resgatar o amor do meu filho.
É o motivo pelo qual peço hoje minha aposentadoria. Dentre as lembranças que
guardo, e a saudade que pretendo cultivar com minhas rosas amarelas em
Itaipava, a melhor das saudades será a da minha carreira de magistrada e do
convívio com os senhores. Jamais esquecerei cada gesto elegante, cada palavra
de incentivo, cada carinho que recebi ao longo da minha caminhada pelos
corredores e plenários do Poder Judiciário. Aqui passei a maior parte do meu
tempo terreno. Não me arrependo, creio que não poderia ter lugar melhor para
contar o meu tempo de vida e burlar o destino. Pois sei que aqui interferi
muitas vezes no destino de pessoas, mas o meu senso de justiça deve ter
desapontado o destino nas vezes em que ele pretendia crucificar alguém em
indiferença. Não lhe permiti com facilidade exercer o seu papel traquina contra
os seres humanos. Se colaborei com ele cometendo algumas injustiças, e isto é
bem possível, só posso pedir perdão aos injustiçados e a Deus. Muito obrigado
mais uma vez. Felicidade a todos! Até quando Deus quiser!”
As
palavras não saíram limpas e arrumadas como está no texto, caro leitor. Elas
afloraram em lágrimas, vieram mergulhadas na amargura; algumas até soavam
insossas, mas a projeção delas no espírito dos desembargadores fez com que
muitos deles tirassem a roupagem da impessoalidade e chorassem com Glória, ou
para Glória, tanto faz, ela emocionou a todos. Alguns pediram a palavra e
corroboraram a admiração e o respeito que lhe nutriam; outros silenciaram em
emoção. Para todos os presentes, porém, aquele momento ficaria gravado em ouro
no austero Plenário do Órgão Especial do Tribunal de Justiça. Entraria para a
história do mundo jurídico como prova inconteste de que o magistrado é feito de
corpo e alma. E assim a desembargadora se despiu da toga, e o que restou da
mulher se poderia resumir numa palavra: tristeza.
XVI
Andrea
falara com Maria por telefone. Quando Glória pisou na sala de sua casa, a mãe a
aguardava em incontida ansiedade. Glória se espantou com o comportamento da
mãe, chegando a se preocupar com doença. Andrea a tranquilizou e a mandou
sentar-se.
–
Filha, recebi um telefonema de Maria. Há muitas novidades. Luiz Felipe foi a
Boston conversar com Paulo. Não durou muito o encontro, somente o tempo de ele
dizer a Paulo que amava tanto você que estava renunciando ao relacionamento
para garantir sua reconciliação com Paulo.
– Meu
Deus! Não pensei que ele se dispusesse a fazer isso!
– Mas
fez. Nem deixou Paulo abrir a boca. Disse-lhe que não mais seria o fator de
impedimento à reconciliação, e que daria tudo que possui, até a vida, pra ver
você novamente feliz. Disse o que disse e foi embora sem mais palavras.
Paulo
está outro, Acordou para o mal que lhe fez. Está vindo semana que vem pra lhe
pedir perdão. Vai também procurar o Luiz Felipe pra mesma coisa. Uma mudança
radical de comportamento. Não sei o que Maria fez com ele, mas creio que ela
foi decisiva pra ele tornar à realidade. Ele chora dia e noite. Grita que nos ama
e não que viveria feliz sabendo-a infeliz. Prepare-se, pois ele está vindo com
o coração e a alma ávidos de perdão.
–
Este é meu filho! Este é o filho do pai dele! Este é meu herói! Oh, mãe!
–
Você nem imagina o quanto estou feliz por você. Paulo finalmente se tornou
adulto. Emergiu o homem que se ocultava no filho. Será bom pai. Quanto a Luiz
Felipe...
– E
ele, mãe? Onde estará?
–
Bem, minha filha, ele disse a Paulo que ficaria uma boa temporada fora do país
pra refrescar a cabeça. E não mais voltará ao Rio. Vai direto pra Fortaleza e
ficará definitivamente por lá. Não sei como vamos consertar isso. Bem, teremos
de esperar Paulo chegar e Luiz Felipe voltar. De qualquer modo, parece que o
rei-sol fará seus olhos adquirirem o brilho das esmeraldas novamente.
– Oh,
mãe!...
Glória
não mais conseguiu falar. Entrou em pranto convulsivo, misturando risos e
lágrimas. Mas dava para perceber que apenas lavava a alma e expurgava a
tristeza. Convivera muitos dias terríveis com ela, a tristeza, e agora lhe
parecia que o destino chorava de raiva. Pensou em Luiz Felipe, em Vitória e
suas filhas Luana e Yohana. Pensou no marido de Vitória e no nome dele que Luiz
Felipe distraidamente omitira...
XVII
Sem
qualquer notícia de Luiz Felipe e deveras ansiosa, Glória tentou fazer o tempo
escorrer mais rapidamente. Ao contrário, porém, aqueles três dias de espera
pela chegada do filho foram os mais longos de sua vida. Mas como o universo,
indiferente a tudo, segue viagem rumo ao eterno desconhecido, a segunda-feira
finalmente amanheceu.
Glória
não caminhou. Acordou, tomou uma ducha fria e se arrumou. Não sabia a que horas
o filho chegaria, mas ele não tardou. Quando ela recebeu a comunicação da
portaria, seu coração quase parou. A emoção vinha-lhe misturada, predominando a
mãe desejosa de abraçar o filho. Perdoado ele estava há muito tempo.
Faltava-lhe abraçá-lo com o fervor do amor que por ele nutria; era seu único
homem. E ele chegou, caros leitores. Entrou, abraçou-se à mãe e lhe disse:
–
Perdão, mãe!
Teria
eu, leitor que me acompanha nesta história, de ter a habilidade de um José de
Alencar para esmiuçar a emoção do abraço de mãe e filho. Gastaria, decerto,
três a quatro laudas para transmitir a emoção do reencontro. Falar do céu seria
pouco; descrever a casa, os móveis, a roupa de Maria com seu bebê no útero, a
choradeira de Andrea, o sorriso brilhante do rei-sol, tudo isto seria nada se
comparado ao momento do abraço. Mas como o leitor tem pressa e quer chegar ao
fim da história, vou tentar imitar o mestre Machado de Assis e não dizer que
este pode ser considerado o momento mais emotivo da narrativa. Avocar aqui o
testemunho dos deuses mitológicos para referendar o encontro seria exagero. Há
situações tão extraordinariamente emotivas que o melhor é deixar que cada leitor
extraia do próprio coração seu significado. E diriam: “Eia! Eia!”
–
Paulo, você me magoou, mas nunca deixei de amar você. Eu seria capaz de
renunciar a tudo pra ver você feliz. E foi a felicidade por você anunciada que
me animou a ser novamente mulher sem deixar de ser mãe.
– Sei
disso, mãe. Jamais imaginei que lhe fosse causar tanto mal. Mas faço questão de
eu mesmo consertar tudo. Vou a Fortaleza conhecer a filha de Luiz Felipe. Vou
descobrir por onde ele anda e tentar falar com ele. Fique certa de que ele é o
homem de sua vida. O que ele fez por você o credencia a ser meu segundo pai,
estou certo disso. Maria, ameaçando até me deixar, deu-me o exemplo. Escolhi
uma grande mulher para esposa, mãe. Ela é sua aliada além do que eu poderia
supor. Estou cada vez mais apaixonado por ela e certo de que tenho uma parceira
insubstituível. Ela me chamou às falas e eu finalmente me descobri como homem.
Eu não passava de um adolescente egoísta. Não mais. Vou provar isto pra você,
mãe, pode ter certeza.
– Oh,
meu filho!
Paulo
telefonou para Vitória e voou até Fortaleza. Em lá chegando, desvendou o
misterioso nome do marido dela, João Pedro, que Luiz Felipe casualmente
omitira. Vitória lhe disse que falara com o pai dias antes e que ele estava em
algum país da Europa. Teria de aguardar novo contato, o que não tardaria. Tão
logo o fizesse, ela lhe contaria as novidades, certa de que ele ficaria
bastante feliz. Tratava-se de algo inesperado, uma guinada tão brusca do
destino que Luiz Felipe talvez nem acreditasse de imediato. Mas Paulo ali
estava para confirmar, e ficaria hospedado num hotel. Depois de tudo explicar à
filha do advogado e deixar o telefone do hotel, ele se despediu garantindo que
de lá não sairia até o pai dela ligar. Aguardaria o contato e por telefone lhe pediria
perdão por tudo, anunciando a nova disposição dele e a alegria da mãe em poder
reatar seu namoro feliz.
No
dia seguinte, Luiz Felipe, tendo já falado com a filha, fez contato com Paulo,
este que lhe narrou miudamente o que houvera após sua saída da casa dele nos
EUA. Luiz Felipe, entre atônito e feliz, agradeceu ao seu futuro enteado e
prometeu marcar sua volta ao Brasil o mais rapidamente possível. Tão logo
reservasse a passagem, avisaria. Paulo, contente, ligou para a mãe e lhe
sugeriu que viesse, juntamente com Andrea e Maria, para Fortaleza. Assim foi
feito. No dia seguinte, todos se encontraram na casa de Vitória e se dispuseram
a fazer uma grande surpresa a Luiz Felipe: eles os aguardariam no aeroporto e o
levariam a jantar com toda a família reunida. Estava selada a paz. O tempo
sorria, o destino chorava e excogitava alguma armadilha. Mas não seria
bem-sucedido. Aos poucos o amor ia vencendo a intolerância. No fim de contas,
ele se comportava descabidamente com aquela família honrada que somente almejava
a paz, e, sobretudo, a felicidade.
Luiz
Felipe ligou para Vitória confirmando a chegada na noite seguinte, uma
sexta-feira. Não era dia 13, caro leitor, pois aí seria a data aniversária do
destino traquina. Mas não há como negar que o rei-sol, sempre amigo de Glória,
preocupava-se com a chegada noturna. Ele não estaria nos céus orientando o
piloto da aeronave, personagem-chave neste ponto do enredo. Contava ele, no
entanto, com as estrelas norteando-o, e com sua habilidade em pilotar jatos
comerciais por longos anos. Amava o que fazia, diminuía o tempo para as
pessoas, de modo a aproveitá-los a mais e mais, e não tinha temor do destino.
Confiava em si, na aeronave e em Deus.
Assim,
na verdade, pensava Glória, sempre nervosa quando se tratava de avião e mar. E
Luiz Felipe viria cruzando os mares, tal como o seu piloto que morrera.
Novamente estava ela ante a ironia do destino: o seu terceiro homem à mercê do
avião e do mar durante longas e intermináveis horas. Com esse temor, ela estava
no aeroporto com todos os familiares reunidos. Não externava suas apreensões.
Talvez a mãe dela as percebesse. Vitória, João Pedro, Yohana e Luana esbanjavam
felicidade. Paulo e Maria vibravam com o grande acontecimento do reencontro dos
namorados. O momento da aterragem estava cada vez mais próximo e o avião não
chegou...
XVIII
Foi
terrível a notícia do desastre. O avião caiu no mar e não houve sobreviventes.
O desespero tomou conta do aeroporto. Lágrimas de dor eram derramadas pelos
parentes dos passageiros e da tripulação. Não resistindo ao impacto da notícia,
Glória desmaiou e teve de ser levada às pressas para o hospital. A família a
acompanhou. O desespero misturava-se à tristeza. Nem mesmo Luana e Yohana,
embora crianças, ficaram livres de sofrer a perda.
Glória
se recuperou do trauma, mas permaneceu internada. Levada a um quarto
particular, ela ficou com a família lamentando a perda trágica de Luiz Felipe.
Viúva antes de casar, Glória imaginava o fim de sua vida na casa de campo em
Itaipava. Plantaria muitas rosas amarelas e dedicaria o seu tempo a meditar.
Não mais sabia que seria de sua vida. Perdera-se no tempo a desembargadora, a
viúva e a mulher. Sobrara-lhe um caco de mãe e futura avó. Teria de ser
suficiente, ela pensava. Se o seu destino era o de ter somente um homem em sua
vida, o destino vencera. Ela jamais pensaria em outra relação. Ficaria reduzida
a apenas uma palavra: saudade.
XIX
Mas
desta feita o destino perdeu para o amor. Luiz Felipe atrasara-se e não
embarcara. Telefonou para a filha, ainda no aeroporto, para comunicar sua
chegada em outro avião. Não tivera tempo de alertar a família sobre a troca de
aeronave. Como o tempo entre um voo e outro era mínimo. Manteve-se tranquilo.
Claro que não imaginava que o destino fora obrigado por um poder maior a lhe
retirar do voo fatídico. E o telefone de Vitória vibrou dentro do quarto: era o
pai!
–
Filha!
–
Pai! Não acredito! Pai?!
– Sou
eu, filha! Onde vocês estão?
– Num
hospital próximo do aeroporto. É só indagar que os taxistas sabem qual. Há
muita gente sendo socorrida aqui. Vem pra cá, pai! Ai meu Deus!
Glória não cria no que estava acontecendo.
Todos no quarto se transformaram em estátuas, inertes, pasmos, ante a conclusão
que o telefonema permitia: Luiz Felipe não morrera! Estava vivo e pertinho deles!
Glória desmaiou novamente...
Não
lhe preciso dizer, caro leitor, que o destino era, na verdade, um demônio
mixuruca e assim travestido, e que veio até aqui me obrigando a escrever um
final trágico para esta história. Mas os personagens não mereciam isto, e eu
sigo uma inspiração maior. Neste caso, passou um anjo perto de mim e me soprou
o final feliz. Era o Anjo do Tempo, amigo do rei-sol e discípulo de Deus.
Hoje
Luiz Felipe e Glória estão casados. Ana Cristina nasceu saudável. Paulo e Maria
permaneceram em definitivo no Brasil. Foram morar com Andrea em Itaipava. Não
quiseram residir na Barra da Tijuca. Luiz Felipe e Glória residem numa casa de
frente para o mar, em Fortaleza. Vitória, João Pedro e suas filhas Luana e
Yohana estão sempre com o casal. E todos instituíram a rotina de temporadas em
Fortaleza e Itaipava, viajando de avião sobre o mar sem medo de acidentes.
Glória banha-se na praia todos os dias, depois de caminhar ao lado do marido
amado. O destino traquina foi punido com a permanência eterna nas trevas. A
palavra saudade, que parecia predominar ao fim da história, recolheu-se
elegantemente e deu lugar à sua eterna adversária: a felicidade!






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