Lá em Santa Catarina, em
cidade do interior, certo dia rebentou das entranhas de ansiosa parturiente,
luzindo ao mundo dos viventes, mais um bebê de descendência germânica. Chegou
lindamente, de olhos verdes e pele alva como a neve, cabelos doirados, assim
promovendo incontida alegria no seio da família: de pai, mãe e dois meninos
igualmente lindos. Alegria, sim, exceto no caso da mamãe, que no seu íntimo
almejava para si uma garotinha. Daí então ela ficou criando o terceiro filhote
como se fosse filha, e o resultado não poderia ser outro: o menino foi virando
menina... Tal assanhamento chegou aos ouvidos e olhos do pai, que passou a
arriar a correia no lombo do coitadinho, submetendo-o a um sofrimento dos
diabos, mesmo contando ele com a proteção da mamãe, que interferia em sua
defesa apenas fracamente, pois se via subjugada pelo temor do irado marido.
Assim, nesse ambiente contraditório, o garotinho cresceu e atingiu a adolescência,
reprimido em sua vocação homossexual por via de muita pancada paterna.
A família era muito
rica, o que permitiu e até impôs ao adamado mancebo, – diante da insistência do
pai em corrigi-lo, – vir cursar advocacia no Rio de Janeiro, por onde se deixou
definitivamente ficar, para gáudio do pai e de seus envergonhados irmãos, que
não queriam vê-lo nem pintado de ouro. Só quem não gostou foi a coitada da
mamãe, que, em sua obsessão, acabou perdendo a oportunidade de se sentir
acompanhada da tão almejada filha, pois assim ela tratava o menino, que se
chamava Jerônimo, mas que ela somente se lhe dirigia tratando-o por Manuela,
estranha antonomásia que ela mesma, a mãe, em seu delírio, destinara ao filho
que, por força de sua maluquice, ela queria porque queria que fosse filha.
Na verdade, os violentos castigos
paternos, entremeados pelos exagerados afagos maternos, acabaram dividindo o
íntimo de Jerônimo, que ora almejava ser homem, por vontade do truculento pai,
ora desejava ser mulher, por vontade de sua obcecada mãe. Diante da cruciante
dúvida, ele preferiu não mais assumir publicamente sua preferência sexual,
tornando-se, pois, um dissimulado travesti, algo, porém, que fazia como se
fosse a mais apurada arte.
Foi assim, estudando Direito e
agindo duplamente na vida, que Jerônimo chegou a advogado, e em seguida
formou-se delegado de polícia; estranha escolha, sim; todavia, foi a que fez e
não a podemos mudar, senão aqui terminaria a história. E que se faça justiça ao
jovem, pois ele passou em primeiro lugar no concurso e também confirmou sua
capacidade ao alcançar a primeira posição no curso de formação.
Em suma, um fenômeno de
inteligência, uma sumidade a serviço da lei, um vocacionado policial, apesar
dos pesares... Hum... Neste ponto, creio ser necessário adentrar a história
para pedir desculpas aos delegados de polícia de todo o Brasil, e assim não
entrar em cana por iniciativa de algum menos compreensivo. Seria preferível,
sem dúvida, que nosso herói escolhesse ser médico, ou professor, ou buscasse outra
vocação qualquer, menos, é claro, ser oficial da PM, especialmente a do Rio de
Janeiro, embora não se possa negar que lá também há muitos enrustidos e
assumidos... Demais, o destino e a inspiração sempre atuam na mente de um
contador de histórias como imperadores irrepreensíveis e incontestáveis. Daí
delegado de polícia, mesmo, sem tirar nem pôr, respeitando-se integralmente a
opção do nosso herói, que, a exemplo dos russos, também gostava de beijar homem
em cumprimento...
Era junho. A chuva
fina e o vento frio davam um ar sombrio à noite carioca, tornando-a mais
apropriada à clausura, à degustação de vinho ou champanha, e ao sono; ou ao
sexo, como decidira Marlene, linda quarentona que vencera na vida e agora
curtia seu melhor momento. Nem o inverno desagradável desanimava a morena de
olhos verdes e corpo provocante, performance que mantinha desde a juventude.
Marlene nascera em Belo Horizonte,
filha de renomado médico. Também sua mãe gozava de boa fama naquela terra como
professora universitária. Tudo isso facilitara sua iniciação na atividade
empresarial que escolhera após se formar em Economia, ainda em Minas Gerais. Resoluta,
a bela morena viera para o Rio de Janeiro montar seu primeiro negócio, uma loja
de roupas artesanais vindas de sua terra natal, exclusivas, e que fazia grande
sucesso entre as cariocas, especialmente no seu segmento mais fechado – a
classe alta. Pois tudo quanto era mulher adorava as roupas que Marlene trazia
da terrinha, feitas em peças exclusivas, uma garantia contra os constrangimentos
de se verem duas damas da sociedade vestidas numa mesma festa como um par de
jarras, algo muito comum em se tratando de roupas caras, porque muitas delas
eram ofertadas por picaretas que de quando em quando deixavam em maus lençóis
algumas damas useiras e vezeiras em vestir roupas baratas ostentando etiquetas
de costureiros renomados.
Mas com Marlene não
havia risco de duplicata. As roupas que ela negociava, embora feitas
artesanalmente, eram de altíssima qualidade, todas exclusivas e confeccionadas
pelas melhores costureiras de Belo Horizonte e cercanias; e ainda levavam
etiquetas até internacionais; frias, é claro. Marlene era confiável a esse
ponto – nunca comentava para quem teria vendido determinada roupa. Sim, ninguém
sabia, a não ser ela própria e a compradora, de modo que não havia perigo de
alguma cliente se desmoralizar, apanhada em mentira, ao dizer que trouxera seu
modelito direto da França, ou cruzar com outra perua vestida de modo idêntico.
Levando assim seus
negócios, Marlene enricou. E nunca quis manter relacionamentos mais amiúde com
ninguém, pois o isolamento fazia parte do seu mister: jamais algum homem
entrara no seu belo apartamento em Copacabana, descortinando linda vista do
mar. Ali era seu refúgio exclusivo, o receptáculo dos seus segredos, um
cantinho mineiro impenetrável.
A chuva e o vento
se mantinham impertinentes quando Marlene apontou no umbral principal do
prédio. Esperava o manobreiro trazer-lhe o carro. Em chegando, ela embarcou e
partiu. Estava lindamente arrumada, com um modelo colante e sapatos altos, como
gostava. Tinha um estilo vampe, porém sem excessos. Debaixo da vestimenta não
levava simplesmente nada, não foram poucas as vezes que gostara de alguém nos
ambientes chiques que frequentava e dali mesmo partira ao sexo, apenas
levantando a saia, para não estragar o vestido diante de algum impetuoso
parceiro.
Em matéria de sexo, tudo era
calculado por Marlene, inclusive a coleção de camisinhas, uma garantia a mais
contra possíveis doenças. Havia risco, é lógico, no modo como ela se entregava
aos homens. Não a qualquer um que lhe surgisse à frente, entenda-se assim, mas
aos que, como ela, circulavam pelos lugares mais finos da Zona Sul. Ela também
não dispensava as mulheres, com as quais igualmente se comprazia
esporadicamente. Enfim, Marlene era o que se poderia definir como uma fêmea
sacana para todos os fins, desde que o fim fosse sexo.
Naquela noite,
Marlene rumou para o restaurante Le Bec Fin. Pensava jantar e depois ir
à boate Hipo se divertir, como regularmente o fazia. E não percebeu que estava
sendo seguida... Na verdade, quem a seguia já até lhe destinara discretos
olhares no restaurante. Ela retribuíra, inclusive pensando na possibilidade de
se entregar àquele primeiro pretendente. Todavia, preferiu esperar outras
oportunidades na boate, aonde logo chegou.
Não passou muito
tempo, Marlene avistou aquela fisionomia conhecida mirando-a e lhe oferecendo
um drinque em meio à confusão dos demais que se divertiam em danças sensuais.
Ela sorriu e se acercou dele, um moreno fechado na cor, cabelos negros e olhos
verdes, tudo arrumado em 1,80
m de massa musculosa.
– Olá! Acho que já
nos vimos hoje – gracejou Marlene ao se aproximar e pegar da mão do homem a
taça de champanha. – Qual é o seu nome?
– indagou.
– Carlos. Que bom eu ter vindo pra
cá! Não esperava encontrar você, mas acho que o destino nos está providenciando
um contrato. Qual é o seu nome? – devolveu Carlos.
– Marlene. E você?
Que faz na vida? Vem sempre aqui? – disparou Marlene, tentando dominar seu
interlocutor.
– Sou empresário em
São Paulo. Moro lá e estou aqui tratando de negócios. Amanhã eu me vou; mas
estou feliz por ter conhecido você antes de partir...
Ficaram dançando e
conversando, até que saíram. Carlos lhe alegara não estar de carro; partiram
então no carro dela rumo à Barra da Tijuca, combinados em ficar olhando o mar...
Mas, ora!... Após tanto se esfregarem na boate eles só pensavam transar. E
chegaram à praia, postando-se num local apropriado ao deleite amoroso... e ao
assassinato, pois ele não cogitava outra coisa...
Contudo, o que
houve antes, e em grande intensidade, foi efetivamente sexo, com Marlene
tomando a iniciativa, enquanto Carlos, sem que ela o percebesse, pegava debaixo
do banco uma corda de seda, preparando um laço de forca com o qual envolveu o
pescoço da extasiada mulher, passando a puxar a outra ponta, apertando o laço
em precisão de profissional...
Quando amanheceu,
lá estava o carro de Marlene, um BMW, parado na beira da praia como se
estivesse abandonado. Não mais chovia, e as pessoas iam chegando, algumas tão
indiferentes que não perceberam o carro nem viram o que estava dentro dele: um
corpo de mulher.
Passado um tempo,
porém, finalmente depararam com a bela Marlene enforcada, com a saia recolhida
e deixando à mostra suas belas coxas e suas partes mais íntimas. Tudo, porém, inanimado,
a corda presa ao pescoço, e em sua mão direita uma pequena peça de madeira: a
torre do jogo de xadrez, única testemunha de um crime sem pistas.
Não demorou muito o
local ficou apinhado de agentes aguardando a chegada da autoridade policial, o
delegado de homicídios, um novato, que surgiu cheio de banca, soltando
despautérios contra todos, reclamando que o local do crime não estava bem
isolado e outras reverberações desnecessárias, apenas à guisa de aparecer no
cenário da imprensa, que dele logo se acercou. O delegado passou a ser o único
dono da festa, situando-se em posição mais importante que a defunta, para a
qual olhou com certo desdém, porém muito bem dissimulado. Ninguém notou.
Foi um escândalo
quando souberam de quem se tratava. A imprensa especulava sobre a morte de
Marlene como um inextricável mistério, argumentando que ela teria sido morta
por paixão de alguém. E a foto dela, tirada quando fora destaque de Escola de
Samba, com seu corpo escultural brilhando diante das luzes, estampou-se em
todos os jornais ao lado da outra, terrificante, com ela olhando o nada de
olhos esbugalhados.
A perícia concluiu
o trabalho e o corpo foi recolhido ao Instituto Médico legal. De prova, somente
a torre. E nenhuma testemunha. O exame cadavérico apenas confirmaria que a moça
fora morta por enforcamento. Nada, não havia qualquer pista do assassino, e o
inquérito dormindo a sono solto na mesa do invejoso delegado, que mais olhava a
foto de Marlene no alto do abre-alas do que se preocupava com a apuração do
crime. E se via no lugar dela...
O delegado Jerônimo
ficara famoso ao deslindar o assassinato de um artista quando trabalhava como
adjunto numa delegacia distrital na Zona Sul. Contava apenas cinco meses de
profissão, depois de concluir com louvor o seu curso de formação. Fora lotado
na distrital por direito de escolha, e logo encarregado da investigação do crime.
A sorte, entretanto, estava ao seu lado, porque um telefonema anônimo deu-lhe o
azimute em direção aos criminosos: dois jovens que moravam na Zona Norte. Ele partiu
no encalço de ambos e os prendeu ainda de posse das armas do crime. Os exames
balísticos confirmaram a versão e, no fim de contas, os jovens confessaram o
assalto e o assassinato.
Eia!... Da
obscuridade à fama foi um pulo, e Jerônimo se viu designado para dirigir a
poderosa Delegacia de Homicídios por ordem direta do governador. Houve uma
grita danada entre os delegados antigos, que alegavam ser o cargo privativo de
delegados de primeira categoria, e Jerônimo era de terceira categoria. Mas como
ordem de governador não se discute, o secretário de segurança colocou o jovem
delegado na direção da Delegacia de Homicídios e ponto final. E lá estava ele,
com o inquérito sobre a mesa, olhando com indisfarçável despeito as fotos,
quando tilintou o telefone. Era o secretário de segurança:
– Jerônimo, estou
recebendo muita pressão pra elucidar o caso da estilista. Vê se você se dedica
um pouco mais! Os delegados antigos andam dizendo que sua atuação no caso do
artista não passou de sorte. Quero notícias sobre essa investigação!
Jerônimo ouviu e se
melou em ademanes. Sim, Jerônimo permanecera amaneirado, continuava como
Manuela nas horas vagas, um segredo que, porém, mantinha a sete chaves. Era ele
agora um loiro de média altura, feições finas, unhas cuidadas e de beleza
singular, tudo ocultado por uma austeridade e um trajar que não permitiam a
ninguém a dúvida de estar diante de um belo exemplar masculino, com vozeirão e
tudo mais a confirmar.
– Ambrósio, chame
os detetives da Equipe Careta pra falar comigo, e bem rápido! – vociferou o
delegado.
Vieram voando, os
cinco detetives.
– Ouçam-me com
atenção!... Estou com este inquérito sobre a mesa como uma bomba que nos poderá
mandar pra roça mais longínqua. Vocês têm uma semana pra me trazer novidades.
Trabalhem em tempo integral, pra que eu não me veja obrigado a cortar suas
cabeças e manter a minha no lugar. Querem saber?... Farinha pouca, meu pirão
primeiro!
– Ora, chefe, acho
que o trabalho da perícia foi muito bom. Eles encontraram esperma na boca da
vítima indicando que houve sexo oral antes do assassinato. Em minha opinião,
estamos diante de um crime praticado por algum psicopata, porém muito
inteligente. E aquele nó de forca indica que o assassino é um especialista, não
é pessoa comum. Não nos será fácil desvendar o crime. Não há uma só testemunha;
temos apenas a peça de xadrez na mão da vítima. Enfim, vamos trabalhar como
pudermos...
– É o que lhes
estou agora determinando! Quero o autor bem rápido na minha frente! Se virem!
Se virem!...
Se virar era o que
Jerônimo também gostava de fazer, porém de costas, o que lhe dava incontido
prazer desde menininho. E não havia problemas financeiros na vida dele, que
poderia até viver de renda e ser apenas Manuela. Ocorre que ele gostava deveras
da atividade policial. Por isso fez concurso para delegado, conquistou seu
objetivo e se manteve também Jerônimo. Mas o que ninguém poderia até então
imaginar era que ele, nas horas de folga, se trajava de boneca e fazia ponto na
Glória. Sem dúvida, era uma das bonecas mais elegantes e belas, com jeito fino
e astúcia para se livrar dos ataques policiais. E, quando detido por algum
deles, já mantinha em suas algibeiras femininas boa quantia em dinheiro, método
infalível de convencimento dos mais recalcitrantes. Nunca falhava. Sim, era
assim que Jerônimo se virava...
Noite de sexta-feira. Os travestis
já postados em seus locais preferenciais à cata de clientes. Entre eles (elas),
porém, havia um que não pensava em dinheiro, mas apenas em sexo. E não era somente
ali que nele (nela) aflorava a preferência por mangalhos. Desde a hora em que
se arrumava, cada detalhe que inseria em si era motivo de ansiedade feminil. Na
verdade, Jerônimo se metamorfoseava por dentro e por fora, culminado por se
transformar na belíssima mulher que lhe surgia diante do espelho.
Jerônimo mantinha
uma discreta casa na Barra da Tijuca somente para assumir esta segunda opção.
Aliás, não somente a casa, mas todo o resto, inclusive dois carros na garagem.
E vinha levando vida dupla com inteligência e audácia. Até então ninguém jamais
poderia supor que aquele travesti da Glória fosse delegado de polícia e dirigente
máximo da poderosa Delegacia de Homicídios...
Mais uma noite,
muitos clientes transitando, a pé e de carro, todos dispostos a um programa.
Logo surgiu um executivo, alto, forte, com um bigodão que metia medo. Manuela
se assanhou toda. Combinaram e saíram direto ao motel, e quem visse aquele
casal jamais poderia supor que eram dois homens. Na realidade, muitos
motoristas que paravam ao lado do carro, nos semáforos, seriam capazes de jurar
que eram um homem e uma mulher. Nem tanto, nem tanto, porque, no quarto do
motel, Manuela teve de fazer o papel de homem e estocar seu também invertido
namorado de bigodão, este que não queria mais que desempenhar o passivo da
história, oferecendo a Manuela três vezes o preço geralmente cobrado pelos
travestis da Glória. Sim, era um homem casado e aparentemente machão, mas
procurava caminhos enviesados para também soltar suas próprias frangas, o que
não podia evitar, segundo se justificava para a furiosa Manuela, que quase
perdeu a calma e reassumiu o seu lado delegado de polícia contra o efeminado
parceiro; porém, preferiu se conter e cumprir o que também sabia fazer, mas não
gostava: ser homem. Não fora uma noite agradável para a frustrada Manuela...
Jerônimo retornou
ao seu apartamento em Copacabana depois de se desvestir na Barra e retomar seu papel masculino. Não se diria o
principal, pois, na verdade, o outro, de Manuela, é o que lhe era mais
importante. E, já refestelado numa confortável poltrona, pensou em seu parceiro
constante: Carlos, um moreno fechado na cor, cabelos negros e olhos verdes,
tudo arrumado em 1,80 m
de massa musculosa. Sim, ele mesmo, o assassino de Marlene! Jerônimo, porém,
nada sabia, e pensava com avidez ser mais uma vez estocado pelo homem que
amava, o único que lhe conhecia as duas faces e que frequentava normalmente
seus dois endereços. “Onde estaria Carlos?”, pensava Jerônimo, mas com cabeça
de Manuela...
Duas horas da
manhã. Carlos se deixa ficar no restaurante Sobre o Mar, em Copacabana,
observando o ambiente enquanto janta. Está nervoso, porém não externa. Olha um
amaneirado rapaz que se postara em outra mesa e não lhe desgrudava os olhos. E
determina para si que aquele rapaz será sua próxima vítima...
Depois de uma hora, o rapaz pede a
conta, paga-a e sai. Carlos já antes saíra. O manobreiro retira o carro da
garagem, o rapaz senta-se ao volante e parte, sem pressa, em direção à lagoa
Rodrigo de Freitas, pegando depois o caminho da Zona Norte. Não percebe que
está sendo seguido e muito menos nota que a morte está a seu lado, num
semáforo. Recebe uma carga de tiros abafada por silenciador, caindo de lado,
para sempre.
O assassino tem ainda a frieza de
descer e jogar sobre o corpo inerte e ensanguentado uma peça de xadrez, um peão,
a peça menos importante para um azarado sem nome. Mas naquela noite o que
interessava a Carlos era matar alguém, nada mais que isso. Programara-se para
agir e não costumava perder a viagem...
No dia seguinte os
jornais nada divulgaram porque as pautas já há muito estavam fechadas. A
polícia fizera o trabalho de sempre, bem como a perícia, que recolhera a peça
de xadrez junto com outros pertences da vítima, não se estabelecendo qualquer
relação com o assassinato na praia da Barra da Tijuca. E, como de praxe, o
inquérito é despachado para a Delegacia de Homicídios, mas com tratamento
normal, ou seja, o desinteresse de sempre por crimes banais, tudo indicando uma
cobrança de traficantes, segundo rápida dedução dos investigadores.
Naquele dia, porém,
o delegado Jerônimo estava às voltas com o caso da Marlene, que em nada
avançara. E novamente entrara a esculhambar os detetives cobrando-lhes
resultados; contudo, já sabendo que dificilmente viriam, posto a motivação dos
policiais ser proporcional aos seus baixos salários, ou seja, nenhuma.
– Ambrósio, como
está o caso Marlene?
–
Na mesma, meu chefe. Temos condições até de fechar o caso com boa prova. É
possível comparar o DNA do suspeito com as amostras recolhidas pela polícia
técnica. Mas até agora não há suspeito, e sem suspeito não haverá prova de DNA.
A moça era reservada, não tinha namorado firme e morava sozinha. Fomos ao
apartamento dela e nada encontramos que se pudesse vincular ao crime. Ela era
frequentadora da alta roda e possuía muitas amizades, especialmente femininas,
em razão de sua atividade de estilista. Está difícil, meu chefe, mas estamos
nos dedicando ao máximo – completou o detetive Ambrósio.
– Ora, Ambrósio,
que bela explicação! Que lindo discurso! Mas o que eu quero é resultado!
re-sul-ta-do!!! Ree-sul-taaa-do!!! – explode o delegado sem qualquer trejeito
comprometedor, logo expulsando de sua sala o atordoado detetive.
Mas quando sai o
policial, o delegado, ainda ouvindo o som de sua ríspida voz ecoando nos seus
próprios ouvidos, corre ao banheiro e nele se fecha. Aí é que ele desmunheca
deveras, repetindo para si, baixinho, as mesmas palavras insultuosas que
dissera ao detetive, inclusive a repetida em rasgos de bicha louca:
“Ree-sul-taaa-do!” E depois de bastante voejar em asas do seu lado feminino,
torna à postura grave do delegado, todavia contrariado, posto gostar mesmo da
outra sempre reprimida além da conta. E pensa em Carlos cheio de paixão...
Quem porventura
visse Manuela naquela mesma noite, em casa, enfiada em lindíssima camisola
rosa, não acreditaria que ali estava a mesma pessoa que de dia havia
espinafrado o detetive Ambrósio. Mas era, sim, a esvoaçante Manuela esperando
chegar seu amado, o único que entrava livremente no seu apartamento. E vinha
para mais uma noite de entretenimento sexual, mas que, invariavelmente,
começava com uma partida de xadrez. Carlos era um experto no jogo e o estava
praticando com Manuela.
É possível que o
leitor ou a leitora, se ainda não se mandaram da leitura, atemorizados, fiquem
a imaginar por que Jerônimo não recebeu Carlos em sua casa da Barra da Tijuca.
Têm razão, mas durante a semana era assim que eles faziam, com Manuela surgindo
apenas como uma donzela em trajes de dormir, o que era fácil a Jerônimo
providenciar sem riscos. Até mesmo à arrumadeira ele alegava que os trajes
pertenciam a alguma namorada, que, por óbvio, a arrumadeira, que trabalhava
somente de dia, nunca vira. E se ela cria ou não nunca se soube...
– Amor, estou
ansiosa pra jogar. Vamos logo começar? – assanha-se Manuela.
– Vamos sim, amor.
Vamos começar e terminar rápido, mas quero tomar um bom vinho enquanto jogamos
– sugere Carlos.
– Está bem. Pensa
que não sei quais são seus gostos? Já botei pra gelar seu vinho preferido e
ainda tem uma caixa pra você levar...
E iniciaram a
partida, com Carlos dando uma ligeira vantagem a Manuela, retirando do seu lado
do tabuleiro uma torre e um peão...
– Que isso, amor?
Vai jogar sem a torre da direita e um peão? Assim vou acabar ganhando –
insinua-se Manuela.
Quem pudesse
comparar a figura que ali estava, com a outra, da delegacia, não teria qualquer
dúvida em afirmar que Manuela é que era a verdadeira, e o delegado, o
metamorfoseado, de tão natural e espontâneo se apresentavam os trejeitos da dama
que emergia dele.
– Vou jogar sem
essas peças, e, se você perder, vou retirando outras até onde der. Mas hoje são
apenas essas duas.
Jogaram, e
rapidamente Manuela perdeu, talvez até facilitando porque o que ela queria era
ir para a cama antes de abrir a segunda garrafa de vinho. E quem também visse
aquele casal transando jamais se arriscaria a dizer que eram homossexuais,
tamanha era a beleza de Manuela, cujo pinto conseguia ocultar sabe-se lá como,
ficando como se efetivamente fosse uma bela mulher, algo treinado desde
criancinha...
É verdade, porque
Jerônimo até morreria se não se fosse cumprir sua rotina na Glória
completamente trajado de boneca de luxo. Era-lhe imprescindível atender à
vocação (ou hábito) que lhe vinha da infância. Tinha de ser mulher quase
perfeita, assim confundida nas ruas, o que lhe dava inesgotável prazer, ainda
ampliado quando lhe vinha a sorte de ser apanhada por um homem de verdade, ou
que, pelo menos, fosse exclusivamente ativo. Aí Manuela atingia o extremo gozo
da vida dupla que levava. E sempre surpreendia seu parceiro pagando a conta, em
vez de receber...
Dois homicídios
inextricáveis, nenhuma solução para os casos das peças de xadrez, que nem
vinculados foram pelos policiais, que sofriam nas mãos do irascível delegado.
Não efetivamente nas mãos, mas em razão de sua voz estridente esculachando-os
impertinentemente e a lhes cobrar resultados que não se materializavam.
Assim o tempo
escorreu e veio mais um domingo de sol movimentando os cariocas. Na praia de
Copacabana, um casal se deleitava sob o sol que despertava morosamente. Pelo
modo como se apresentavam, com a pele bastante bronzeada, tudo indicava que o
homem e a mulher estavam, há dias, de papo para o sol, que parecia disposto a
espantar a chuva por bom tempo.
Rogério e Sheila
vieram em roteiro turístico por eles pessoalmente traçado. Nascidos em Recife,
de lá trouxeram parte do bronzeado que lhes iluminava os corpos maravilhosos.
Ambos eram jovens, na faixa de 23
a 25 anos. Parecia um casal em lua de mel curtindo
animada viagem. Estavam no Rio e em Copacabana já no quinto dia, certamente
desfrutando de muito sexo, o que lhes transpirava pelos poros ali mesmo, na
areia que os acolhia em beijos e amassos intermináveis. Eram apenas namorados e
juntos resolveram gozar férias. De longe, porém, eram observados por um moreno
que, de óculos escuros, não lhes tirava os olhos de cima. Eles já haviam notado
a paquera do estranho, achando interessante o jogo de olhares lascivos.
– Sheila, manja
aquele cara que não tira os olhos de cima de nós? – instiga Rogério.
– Sim, notei. Mas
ele não olha somente pra mim; também tá tirando uma casquinha de você. Qual
será a dele, hein? – responde e indaga Sheila.
–
É, parece que isso aqui é comum. Viu quantas boates eróticas têm em Copacabana?
Viu como fica a noite, cheia de travestis, prostitutas, garotos de programa e
tudo que se possa imaginar em matéria de putaria? – comenta Rogério.
– É, notei. Que
você acha da gente ir numa boate dessas? Deve ser legal – sugere Sheila.
– Por mim, tudo
bem. Mas, quem entra na chuva quer se molhar. Você tá mesmo a fim de
experimentar uma aventura diferente?
– Ora, Rogério,
quer oportunidade melhor que esta? Já pensou, vir ao Rio e não fazer nada
diferente? – assanha-se a bela morena.
Enquanto trocam
impressões descontraidamente, não notam que Carlos deles já se aproximara e
ouvira boa parte da conversa. E foi ele quem se acercou do casal sugerindo:
– Olá, tudo bem? Eu
estava escutando suas curiosidades, e lhes posso ajudar, se quiserem – coloca o
simpático interlocutor dando mostras de ser da terra e conhecedor dos seus
bastidores...
Dali a conversa
rolou até o sol abandonar a praia. Mas eles ainda permaneceram num bar e
combinaram sair mais tarde. Carlos os pegaria em seu carro, no hotel, de onde
os três partiriam para um programa diferente, de acordo com o tema que
lascivamente conversavam. O casal buscava uma aventura erótica e a teria. Só
que seria a última coisa que fariam na parte de cima da terra...
Na hora marcada, à
meia-noite, Carlos encostou o seu Volvo na porta do hotel onde Rogério e Sheila
o aguardavam. Ela estava deslumbrante, com um vestido branco e transparente que
lhe realçava as formas sensuais. Enquanto esperava Carlos chegar, Rogério teve
de se esforçar para não se aborrecer com os ávidos olhares masculinos que eram
descaradamente dirigidos à sua parceira. Mas, no seu íntimo, estava satisfeito
com a inveja dos passantes em vê-lo acompanhando aquele monumento de mulher.
Ali, ele estava imbuído da mais completa vaidade de macho, com a fêmea
representando somente um objeto de exposição à apreciação gulosa dos
transeuntes.
Mas foi com um
pensamento reprovador que Carlos viu a demonstração de narcisismo de Sheila, e
ainda enraivecido deveras contra Rogério, o que, porém, nem um pouco externou
ao descer e cumprimentá-los, enquanto os solícitos manobreiros abriam as portas
do carro para acolhê-los; eles entraram no carro e partiram.
O trio foi direto à
boate Eros, ali mesmo, em Copacabana. Entraram e se começaram a extasiar
com a decoração voltada para um deslavado erotismo, inclusive o efeito da
iluminação, que dava às pessoas um ar de sensualidade ainda mais acentuado.
Olharam em torno e se assentaram em posição privilegiada, numa mesa que não só
dava uma panorâmica visão do palco, como também lhes garantia certa
privacidade. E começaram a ver que ali ninguém era de ninguém, inclusive
Sheila, que, ao se dirigir ao banheiro, não deixou de receber na passagem
muitos recados, lambidos nas orelhas e algumas beliscadas no seu belo traseiro,
tudo, porém, na maior naturalidade.
Sheila se divertia
com a situação, atingia o máximo torpor de sua vaidade feminina, também
entrando em incontrolável cio; porque, debaixo da mesa, as mãos de Carlos e de
Rogério alisavam as suas coxas, e, vez por outra, esbarravam na sua parte mais
cobiçada...
Sheila chegava a
virar os olhinhos de tanto prazer, este que foi ao clímax quando no palco um
casal atingia o orgasmo diante de todos os assistentes, muitos dos quais já por
conta da permissividade reinante; e ela, excitada, atracava com as mãos,
simultaneamente, os varais masculinos daqueles dois exemplares que a
acompanhavam. E eles já se haviam decidido pelo ménage a trois. Pelo menos dois deles assim pensavam: Rogério e
Sheila. Porque o outro pensava somente em sangue e morte...
O trio saiu da
boate em larga intimidade, e se foi para a casa de Carlos, uma bela mansão no
Alto da Boa Vista, lugar discreto e agradável. E lá se deliciaram com a bela e
receptiva fêmea, os homens transando com Sheila de tudo que era jeito, ela desesperada
de prazer, além de afetada pelo vinho que antes bebera, assim como Rogério.
Carlos, não. Este se mantivera sóbrio, apenas fingindo que sorvia a bebida na
boate. E foi ele quem se dirigiu ao interior da casa e voltou com as taças de
champanha. E dentro delas, misturado, o veneno mortal...
Não passou muito
tempo para que o casal se iniciasse numa sonolência e logo se aprofundasse em
torpor, como se levados a passeio pelo deus Hipnos. Que nada! Estavam abraçando
a silenciosa Dona Morte, que veio implacável e os tirou do mundo dos vivos sem
que eles se dessem conta disso, pelos menos do lado de cá, porque do outro
evitaremos falar. Em suma, estavam mortos. A partir daí, com uma frieza digna
dos mais gelados frigoríficos, ele vestiu os corpos com roupas de banho, –
Rogério com uma sunga e Sheila com um biquíni bem provocativo, – e os levou
para o carro, arrumando-os no porta-malas. Em seguida, partiu para a praia da
Barra da Tijuca, buscando um trecho em que do outro lado somente havia prédios
em construção. Ali retirou os cadáveres e os arrumou numa toalha de praia muito
enfeitada, tendo até o cuidado de fazer dois travesseiros de areia por baixo. E
lá os deixou, como um inocente casal de pombinhos namorados...
No dia seguinte, o
sol despejando seus raios na areia, lá estavam Rogério e Sheila em decúbito
ventral, ela de biquíni e ele de sunga, com o braço esquerdo por cima das
costas dela, como se dormissem enquanto pegavam um belo bronzeado. E assim a
morte os mantinha estáticos, até que os circunstantes começaram a desconfiar de
que algo de errado havia com o casal. Mesmo assim se distraíam com suas
próprias preocupações ou com algum divertimento, quando então um menino, que
correra para pegar uma bola inadvertidamente rolada até próximo dos corpos inertes,
viu saindo de suas bocas os filetes de sangue e uma espuma amarelada. Gritou de
terror, alertando toda a praia que ali o sol não bronzeava mais ninguém. E cada
vítima trazia na mão cadaverosa as peças de xadrez: Rogério com um cavalo, e
Sheila com a outra torre. O enxadrista continuava matando implacavelmente...
O pânico trouxe
rapidamente a polícia. E lá estava ele, Jerônimo, tomando de assalto os
holofotes, quando pela primeira vez uma experimentada repórter lhe fez a
observação:
– Doutor, é estranho...
Essas peças de xadrez nas mãos das vítimas... É o terceiro crime misterioso, e
sem motivo aparente, perfazendo um total de quatro vítimas, com todos os
cadáveres trazendo peças de xadrez nas mãos. Acho que estamos diante de um
assassino serial, de um psicopata frio e calculista. Como o senhor está vendo
essas coincidências?...
– Coincidência?... Hum...
Ora, é lógico que estamos investigando seriamente esses aspectos e relacionando
os fatos para ver se traçamos o perfil do assassino e chegamos até ele; mas, se
você divulgar esta versão, eu nego tudo!... – mentiu descaradamente o delegado,
que, todavia, se ligou à astuta observação da repórter, esta que, por sua vez,
fingiu acreditar na deslavada mentira do delegado e guardou segredo de suas
corretas impressões para também não perder sua fonte de informação sempre útil.
Jerônimo ficou
acompanhando os trabalhos periciais, porém pensando na espinafrada que daria
nos detetives. A imagem de Ambrósio preso num pau-de-arara e levando umas
fortes chicotadas não lhe saía da mente, ou então via o infeliz preso a uma
cadeira, com os pés dentro de uma bacia de alumínio, levando choques magnéticos
no saco e urrando feito porco na hora da facada. “Como eles ainda não haviam
notado a coincidência?...”, cogitava, mirando a repórter, que dele também não
afastava olhos em desconfiança. Ele sabia que não era muito fácil enganar
repórteres policiais, geralmente mais perspicazes que os próprios policiais. E
na delegacia, em razão de toda aquela sua apreensão de ter sido apanhado na
mentira, Jerônimo descarregou a sua ira em cima de Ambrósio e demais detetives.
– Ambrósio, traga
pra mim todos os inquéritos desde a morte da moça na praia!
– Qual moça,
chefe?...
– Ai, meu cacete!
Será que estou delirando? Porra! Qual foi o inquérito que lhe determinei
prioridade de investigação?
– Todos, meu chefe,
todos. Estou com dez...
– Tudo bem, está
certo, não quero perder minha paciência. Vá buscar o da Marlene! Sabe qual é,
ou não lembra mais?... – ironizou o delegado, com todos na sala mantendo-se em
silêncio.
– Agora sei, sim, chefe.
Vou buscá-lo; mas posso garantir que não há nenhuma novidade, a não ser as
cobranças do Ministério Público, que quer porque quer o crime apurado. Por que,
então, eles não apuram? Que podemos fazer, sem recursos, e ainda por cima
ganhando mal...
– Porra, Ambrósio!
Chega de conversa fiada! Vá logo pegar os inquéritos! Aliás, todos aqui façam o
mesmo e retornem em duas horas. Está suspensa a reunião. Saiam logo!...
Foi
só a sala esvaziar para o delegado correr ao banheiro. Ele estava que não mais
se aguentava de vontade de soltar suas reprimidas frangas, e até de botá-las
produzindo dúzias e mais dúzias de ovos, tudo porque ficara diante de tantos
bonitões... E no banheiro seus trejeitos eram tão exagerados que, quem
conseguisse vê-los, decerto pensaria que a pomba-gira baixara com volúpia no
corpo dele, ou melhor, dela, de Manuela, que ali se deixava desmunhecar,
requebrar, dobrar os pezinhos pra dentro e pra fora, menear a cabeça como se
estivesse jogando uma vasta cabeleira pra lá, e pra cá, e pra frente, e pra
trás; enfim, dava uma efeminada geral para afastar o mau espírito da
masculinidade que ele, Jerônimo, detestava no seu íntimo de autêntico adamado.
Os agentes
policiais já faziam bulícios particulares sobre o estranho comportamento do
delegado. Afinal, eram todos experimentados, e por mais que o delegado
dissimulasse, sempre se lhe escapava algum gesto comprometedor. Certa vez, uns
policiais cosiam com os olhos os pezinhos de Jerônimo, que, na distração, se
viravam femininamente para o lado de fora, como instintivamente fazem as
mulheres. E piorou ainda mais quando ele notou a gafe e quis consertá-la,
revirando os pés para a posição masculina. Foi aí que outros gestos se lhe
emergiram em descontrole e quase que ele desmunheca diante de todos, e da forma
como costumava fazer trancado no banheiro. É lógico que ninguém gracejou na
frente da autoridade; porém, quando o adamado se retirou, mesmo distante ele
pôde ouvir uma sonora gargalhada. Estava por um fio o segredo do delegado...
Ora bem, duas horas escorreram
nervosamente e todos se postaram diante do delegado, que relatou aos
subordinados as observações da repórter. Assim, os três fatos marcados pelas
peças de xadrez foram separados dos demais, com os policiais concluindo que
deveriam juntar os casos e mantê-los com a mesma equipe de investigação. Também
o delegado se reuniu com os peritos, de modo a alertá-los sobre as
coincidências, para que, a partir daquela data, eles sempre buscassem
vinculações que pudessem iluminar as investigações, até então em escuridão
absoluta. Havia a torre da Marlene, o peão do rapaz da Zona Norte, e a torre e
o cavalo do casal de turistas. Sem dúvida, o assassino estava a brincar com
alguém, e ninguém entendia a sucessão de fatos criminosos ligados pelas
inextricáveis peças de xadrez.
A segunda-feira
fora quente para Jerônimo. Ele se dirigiu a casa, ávido por tomar um vinho e se
refestelar numa poltrona. Ainda não lhe ocorrera nenhuma cogitação que levasse
os crimes para perto dele próprio. Nem em sonho ele desconfiava de Carlos, em
quem sempre pensava, porém com outra intenção... Mas sabia que não era dia de
se encontrarem, Carlos lhe avisara que faria uma viagem ao exterior. A ele, ou
a ela, a Jerônimo ou a Manuela, conforme você aí decidir, cabia apenas aguardar
a volta do preferido...
Dois meses se passaram sem que nada
de novo ocorresse. Na verdade, os policiais até esqueceram as recomendações do
delegado, este que, por sua vez, também estava cuidando zelosamente do seu lado
feminino, sempre cumprindo com prazer sua maratona do bairro da Glória e suas
escapadas pelos motéis da vida, ora fêmea, – sua glória máxima, – ora macho, –
seu desespero. Na delegacia, os inquéritos entupiam as prateleiras dos casos
sem solução, alguns empoeirados de tanto tempo que ali quedavam inertes, tais
quais as respectivas vítimas, todas sepultadas nos autos e devidamente enfiadas
debaixo de sete palmos. Na realidade, eram dois cemitérios – de inquéritos e de
defuntos.
Mas finalmente ocorreu a visita tão
esperada por Manuela: seu namorado especial, seu amado, o único recebido no
apartamento daquele que todos pensavam ser apenas um austero delegado de
polícia, e que, por isso, não censuravam a visita de um homem a outro, apesar
de estranharem nunca ali ter subido mulher além da arrumadeira. Mas isto era
pouca prova de desvio do lado masculino de alguém para o feminino. Ademais,
havia uma tradicional indiferença entre os moradores. Sim, era tudo movido a
egoísmo, a individualismo e a outros sentimentos menos qualificáveis. Em
resumo, tanto fazia para um morador que o outro se danasse ou fosse feliz em
sua vida.
Contudo, naquela
noite de uma quinta-feira, em final de outubro, Carlos surgiu cheio de amor pra
dar; e encontrou Manuela mais receptiva que nunca. Antes, porém, foram cumprir
a rotina do jogo de xadrez, com Carlos agora retirando mais peças do tabuleiro
para aumentar as chances do seu adversário, ou de sua adversária, como
quiserem. Mas creio que era mais o segundo caso, eis que Manuela veio vindo
atender à porta com uma camisola de endoidar qualquer cristão, além de maquiada
com um gosto incrível. Com efeito, o danado do Jerônimo, quando se
metamorfoseava, ficava mais deslumbrante que qualquer misse, sem desprezo pelas
verdadeiras misses.
No tabuleiro,
Carlos retirou do meio de suas peças as duas torres, o cavalo e o peão, o que
em nada chamou a atenção da ansiosa Manuela, doida para logo perder o jogo e se
postar em reverência ao seu príncipe, porém de costas... E Carlos daquilo
gostava, ou pelo menos parecia gostar, apesar de sabermos, por simples dedução,
que o assassino estava jogando também com o delegado sem ele o perceber...
Nos dois meses em que se escafedeu,
Carlos não viajara para o exterior. Apenas sumira do mapa indo para Minas
Gerais, hospedando-se numa pousada para descansar. Não o corpo ou a mente, mas
a fisionomia, que poderia surgir em algum retrato falado em razão de sua ida ao
saguão do hotel pegar o casal que friamente matara, e também de ter com eles
ido à boate Eros. Ele mesmo ficou achando que daquela feita lhe faltara frieza,
eis que fora vencido por sua ânsia assassina. Aliás, estava agora tomado por
ela e por sua incontrolável sede de matar. E sabia como e o que faria para
aplacar sua loucura. A vítima já estava escolhida, e talvez até mais vítimas,
dependendo do desenrolar do que planejara...
Tudo começara lá
mesmo, na pousada, onde Carlos se havia aproximado de uma bela mulher que se
hospedara sozinha. Não lhe fora difícil abordar Flávia pensando em
transformá-la em sua próxima vítima. Todavia, depois de aprofundar a intimidade
com ela, inclusive no leito de prazer, Carlos vislumbrou algo melhor e por ela
mesma proposto: matar-lhe o marido, um rico empresário, que a estava traindo
com uma donzela.
Flávia, ao contar o
seu drama a Carlos, demonstrara-se uma mulher fria e capaz de executar o plano
macabro que urdira. Mas não poderia supor que estivesse diante de um assassino
profissional. Combinaram que Carlos se hospedaria em sua cidade, na Região
Norte do Estado do Rio de Janeiro, e de lá falaria com ela somente por um
telefone celular adquirido em nome de terceiro. Tudo planejado, eles passaram
então a se encontrar em segredo, com Flávia revelando-lhe os detalhes da vida
de Honório, o marido, a futura vítima. Para o pobre-diabo, Carlos já lhe
reservara o outro cavalo...
Tudo aconteceu de
acordo com as orientações e com o ingrediente fornecido por Carlos: o veneno de
sempre, a dose mortal de cianeto, para que fosse ministrado ao inadvertido
Honório durante o jantar. Assim foi feito, e Flávia colocou o veneno no suco de
laranja, que o marido sorveu e logo esticou os canudos, ficando solucionada uma
parte do problema de Flávia, que ainda contou com a ajuda da própria mãe.
Coitada da mãe, que de nada sabia e teve de compactuar com a filha assassina.
Foi quando Carlos
chegou para dar fim ao corpo e se surpreendeu com a presença da testemunha, um
perigo ao seu anonimato. Não titubeou: separou dois bispos e juntou-os ao
cavalo, partindo de uma decisão bem prática diante da inesperada situação que
lhe surgia: também apagar mãe e filha. Afinal, tanto elas como os bispos usavam
saias...
Saíram os três com
o corpo no porta-malas do carro de Carlos, que por essa hora, é claro, colocara
uma placa fria. Foram até a beira de um profundo rio e lá jogaram o inanimado
Honório, as duas sorrindo a festejar o perfeito resultado até aquele estágio do
plano.
– Flávia, veja bem,
amanhã, logo na primeira hora, você deve ir ao banco sacar tudo da conta de
Honório. E deve deixar guardado como dinheiro vivo pra dar a falsa impressão de
que ele se mandou mundo afora. Depois de dois dias, você irá à polícia
comunicar o desaparecimento dele. Há algum risco porque alguém do banco poderá
declarar que você retirou o dinheiro com cheque dele, e não ele, pessoalmente.
Mas basta você sustentar que cumpria ordem dele, e fica o dito pelo não dito.
– Não terá nenhum
problema, Carlos. Sempre retirei dinheiro alto da conta dele, e com cheque por
ele previamente assinado. Estão acostumados. Ninguém estranhará.
– Ótimo! Vou
continuar no hotel e em dois dias eu ligo pra nos encontrarmos. Vamos ver
primeiro a repercussão. Enquanto isso, você aja normalmente. Se você tem
cheques em branco assinados por Honório, vá amanhã até lá e retire o de sempre,
pra não despertar curiosidade. Está certo?
– Sem problema. Vai
dar tudo certo, querido...
– Vamos deixar essa
história de querido pra depois. Agora, o que interessa é que tudo corra bem –
retrucou Carlos, encerrando o assunto e se despedindo da mãe e da filha, olhando-as,
porém, como se fossem duas franguinhas que logo estariam assando nas terras de
Lúcifer. Afinal, ambas eram coisas-ruins...
Tudo funcionou
conforme as orientações de Carlos, que depois de dois dias se encontrou com
Flávia e a mãe dela e lhes disse saber de graves suspeitas contra as duas. E
lhes sugeriu trazer todo o dinheiro que estava com elas para guardá-lo em local
seguro, um sítio nos arredores da cidade. Na verdade, Carlos sabia que o sítio
estava vazio através de ligação que fizera à corretora que anunciava a venda do
imóvel em jornal. Ele foi à propriedade e viu que servia à execução do seu
plano diabólico.
Quando chegaram ao
sítio, entraram direto pelo portão principal, cujo cadeado Carlos destruíra
antes e apenas o deixara no lugar para dissimular que tinha a chave. Até ali
tudo funcionara a contento. Eles se enfiaram com o carro no interior do sítio,
indo até a casa, quando então desceram, com Carlos alegando que iria ligar a
iluminação, pedindo a ambas que o acompanhassem, tudo em tom tão natural que as
incautas de nada desconfiaram... Por isso morreram, porque Carlos sacara sua
pistola com silenciador, e o que se viu foram uns rápidos lampejos e mais nada.
Somente três dias depois é que os corpos foram descobertos. Lá estavam elas,
cada uma com um bispo na mão, os corpos cruzados, mãe embaixo, filha em cima,
tudo culminando com o cavalo de pé sobre o cadáver de Flávia, parecendo uma
estátua em lembrança de alguma efeméride. E era-o, só que de morte, a morte de
Honório, cujo corpo jamais apareceria. Mas ficara o cavalo do jogo de xadrez a
homenageá-lo postumamente... E para o assassino sobrou-lhe a fortuna e a
garantia do anonimato...
Não foi difícil à
polícia deduzir que Honório fora igualmente assassinado. E, para variar, o
inquérito foi avocado para a Delegacia de Homicídios em razão das peças de
xadrez indicando mais um crime perpetrado pelo misterioso psicopata. E agora
toda a imprensa cobrava veementemente uma solução para aquela sucessão de
crimes, sem quaisquer pistas do assassino que não fossem as peças de xadrez
sugerindo que todos os assassinatos haviam sido praticados pela mesma pessoa.
Eis novamente o
possesso delegado reunido com seus auxiliares, quase que com o cargo
pulverizado pelo desprestígio. E deu ordens, e desfez ordens, e andou para lá, e
desandou para cá, e transferiu Ambrósio para bem longe, e deu uma verdadeira
vassourada na turma de baixo, única forma de continuar sentado na importante
cadeira de titular.
Deu certo. A
imprensa até elogiou o “pulso firme” do delegado. Nem poderia imaginar que,
após toda aquela demonstração de autoridade, ele correra ao banheiro e ficara
quase duas horas lá dentro desmunhecando, enquanto os policiais transferidos
fuxicavam pelos quatro cantos a invertida preferência sexual do delegado, que
logo teve de dar desmentidos e mais desmentidos à imprensa sobre tão absurdas
acusações... Foi seu pior momento, porque o pobre-diabo, – ou a pobre-diaba, –
teve de fingir uma machidão que nunca antes experimentara. O resultado acabou
sendo uma séria contusão nos dois braços, ao mesmo tempo, eis que ele (ela) foi
novamente ao banheiro e torceu os pulsos em suas bracejadas, em trejeitos mil,
para compensar sua crise de machidão... Fase difícil para Jerônimo, que até
pediu férias e se foi ao sertão, onde se confundia com a legendária figura da
novela de rádio dos velhos tempos: “Jerônimo, o herói do sertão”, razão da
escolha de seu nome pelo pai, que era fã do famoso personagem.
Ora bem, nosso
esgotado delegado foi ao imerecido descanso, porque, na verdade, ele nada
fizera para elucidar os crimes seriais. Em compensação, a apuração da sua arte
de se metamorfosear em Manuela havia alcançado um estágio de genialidade.
Agora, porém, Jerônimo se recolhera como tal, dando um tempo a Manuela de
também descansar, ela mais que ele, porque suas atividades nunca pararam em
tempo algum. Mas, com os dois braços gessados, não houve mesmo jeito de ele
fazer sumir o Jerônimo e se manter Manuela...
Foram dois meses de
descanso e mais dois de geladeira, porque, é óbvio, o delegado perdeu o comando
da Delegacia de Homicídios. Entrou em depressão profunda, somente melhorando
seis meses depois e à custa de muito esforço do seu médico. Enquanto isso, na
Delegacia de Homicídios, o novo titular já se via às voltas com os crimes
seriais, porém sem nada avançar, até que para lá foi transferido um detetive
que gozava de grande respeito entre seus pares, porque jamais deixara de
deslindar um caso sequer. O engraçado é que ele, para aceitar a missão,
solicitou o concurso de um colega seu, com pouco tempo de polícia, típico
“menudo”, como assim os mais velhos denominavam os novatos. Ninguém entendeu
nada, o que obrigou ao detetive Clarisperto
gastar argumentos para trazer seu parceiro Luzismundo. Foi atendido.
A dupla se instalou
uma sala dotada de meios sofisticados de investigação. Além disso, todos os
organismos de polícia técnica receberam ordens expressas do secretário de
segurança para apoiá-los. Eles eram a última esperança para desvendar aquela
intrincada sucessão de crimes, que já se acrescentara de mais um, razão de toda
a movimentação porque a vítima, importantíssima figura social, era amiga do
próprio governador...
Com efeito, Sara
Targeta era badaladíssima na sociedade. Costumava receber amigos e penetras em
festas espetaculares. Dinheiro não faltava à bela mulher para promover suas
regaladas festas: ela era rica de esparramar grana pra todos os lados sem
jamais acabar. Sim, era até dona de banco, que, enquanto ia muito mal, ela ia
muito bem. Sim, sim, era uma festa por semana, o que lhe garantia ser notícia
nas colunas sociais todos os domingos. Só não sabia ela que havia um assassino
que a marcara como rainha dum certo jogo...
Carlos, porém, não
se aproximou de Sara com tanta facilidade. Ia às festas, e até se tornara
íntimo de algumas amigas do seu alvo. Mas Sara não se ligava muito em homens. Sua
preferência era por parceiras, o que impediu o assassino de armar com ela uma
amizade para depois eliminá-la em estilo. Ele não deixava de observá-la nas festas,
com seus ouvidos colados nas conversas, até que um dia ouviu-a comentar que
estava precisando de grande quantidade de mel para ficar imersa nele, numa
banheira, durante três horas, recomendação de uma especialista em beleza. Mas o
mel chamou a mosca para perto de si. E a mosca tinha nome: Carlos.
– Sara, ouvi por
acaso que você precisa de mel...
– Quem é você?
– Sou amigo da
Márcia. Vou chamá-la pra reclamar da falta de apresentação. Sou seu admirador.
Sua festa está linda! – exagerou Carlos, para atraí-la pela meada de sua
excessiva vaidade feminina.
– Não, não é
preciso chamá-la, eu acredito! Você pode mesmo conseguir o mel?
– Quantos milhares
de litros você quer? É só dizer, que lhe providencio – brincou Carlos.
– Que ótimo! Dá pra
você me ligar amanhã pra conversarmos com mais calma?
– Boa ideia! Mas
esqueça-se do mel; isto é problema do passado...
Carlos telefonou
logo cedo para Sara combinando levar-lhe o mel à noite. Ela ainda facilitou as
coisas, havia dispensado a criadagem que trabalhara na festa até de madrugada.
A chegada de Carlos, de táxi, não despertou atenção, eis que o porteiro fora
antes avisado. E Carlos dispensou qualquer ajuda para subir com o mel pela
entrada de serviço: 96
litros arrumados em 4 engradados, cada qual com 24 litros de mel. E não
lhe fora difícil o transporte até o elevador de serviço. Era forte o
suficiente.
Uma cabeleira
postiça e óculos escuros garantiam seu disfarce. Mas nem precisaria, posto o
nordestino que o atendera fizera-o sem se preocupar em fitá-lo. Era hábito dele
não observar moradores ou visitas recomendadas, sua melhor credencial para se
manter empregado. Poderia ser, sim, uma possível testemunha, porém péssima em
todos os sentidos.
– Sara, vou
despejar o mel na banheira. São muitas garrafas e o mel desce devagar. Com nós
dois derramando-o, logo você poderá mergulhar nesse doce celestial –
descontraiu Carlos assim que ela abriu a porta, toda contente.
– Puxa, Carlos! Nem
sei como lhe agradecer. Quero que você me diga quanto custou.
– Nem pensar. Faço
questão de voltar outras vezes, e com todo o mel que você quiser. Além de ser
uma despesa insignificante, eu seria capaz de pagar muito mais pra lhe dar
algum prazer. Afinal, tenho tido muitos em suas festas.
Ambos riram às
bandeiras despregadas e foram despejar o mel na banheira, perfumando o ar com o
seu olor agradável, e ocultando o outro, o da morte, que somente se descobriria
no dia seguinte: um corpo de mulher mergulhado na doçura do líquido, segurando
numa das mãos uma rainha, a segunda peça em importância dentro do tabuleiro de
xadrez. “É doce a morte!”, diziam as manchetes dos jornais que divulgaram o
terrível assassinato de Sara Targeta. Menos uma dama socialite nas colunas
sociais e mais um túmulo no cemitério a igualar ricos e pobres.
Clarisperto e Luzismundo
debruçaram-se sobre os volumosos processos dos crimes seriais. Já haviam até
desenhado um tabuleiro de xadrez num papel pardo preso à parede. Tentavam
associar os locais, as vítimas, os métodos de assassinato etc., com o escopo de
primeiramente deslindar os motivos do assassino. Contudo, e por mais que se
dedicassem, nada descobriam de novidade. Foi aí que Luzismundo sugeriu a
Clarisperto que fizessem contato com o delegado Jerônimo para ver se ele
poderia ajudar nas investigações. Pensaram também em procurar alguns PMs
especialistas em investigações espíritas, mas logo desistiram da ideia porque
aqueles que assim investigavam, olhando bolas de cristal ou vendo criminosos em
fumaças de charutos, chamavam logo os repórteres que acreditavam nesse tipo de
apuração além-túmulo, para então receberem os focos dos seus holofotes e o
espocar das lâmpadas de fotografias risonhas. E costumavam a apontar inocentes
como se fossem culpados de crimes que não cometeram somente para ganhar
notoriedade e aplauso de pessoas estultas, porém ansiosas em também aparecer
acusando inocentes. Por essas e outras razões o concurso dos macumbeiros foi
descartado pela dupla de detetives, que preferiu seguir sozinha, com técnica e
racionalidade, em direção ao criminoso, mesmo que levasse mais tempo
investigando. Ficou combinado que Luzismundo seria o encarregado de contatar
Jerônimo, o que decidiu fazer pessoalmente indo à casa do arrasado delegado,
enquanto Clarisperto se dedicava a outras vertentes investigatórias.
Quando o porteiro
anunciou a presença de Luzismundo no seu prédio, Jerônimo estremeceu. Pois
estava ele vestido de ela, curtindo a leitura de poesias, meio que escolheu
para fugir à depressão que se instalara em seu pobre coração feminil. Nem tanto
por ter perdido o cargo de dirigente da Delegacia de Homicídio, que ele até
achava legal, mas pela ausência de Carlos, que há três meses não lhe
telefonava. Assim, sem atividade, e saudoso, acabou tristonho e depressivo,
deixando até de curtir a Glória, – o bairro, – e a glória, – o esplendor, – de
se travestir de mulher. Pediu ao porteiro uma hora de trégua e correu aos
aposentos para retomar seu desagradável papel de Jerônimo. Luzismundo ficou
aguardando, até que recebeu o aviso para subir.
– Bom dia, doutor.
Sou o detetive Luzismundo. Vim aqui pra ver se o senhor pode ajudar no deslinde
daqueles crimes seriais. Todos dizem que o doutor é muito inteligente e
perspicaz. Por isso vim pedir-lhe ajuda – completou o detetive, enquanto
percorria com os olhos o ambiente da sala, mais por mania de bisbilhotar.
– Pois não,
detetive. Agradeço os elogios, mas estou até pensando em pedir demissão da
polícia. Ando muito magoado com os últimos acontecimentos – devolveu o
delegado, enquanto também bisbilhotava o vergalho de Luzismundo, o que quase
acendeu a Manuela dentro do Jerônimo.
Contudo, a olhada
do detetive esbarrou no tabuleiro de xadrez colocado sobre uma pequena mesa
rodeada por duas cadeiras. As peças estavam arrumadas, exceto algumas, brancas,
que se encontravam tombadas fora do tabuleiro, este que, por sua vez, continha
quase todas as peças pretas em posição, tudo indicando que as brancas haviam
sido tomadas pelo jogador das pretas.
Luzismundo, que
entendia do jogo, e que, por causa da apuração, ainda o estava estudando com
mais afinco, estranhou que o jogador das peças pretas não tivesse perdido além
três peões e um cavalo, enquanto seu adversário se encontrava sem as duas
torres, os dois bispos, os dois cavalos e um peão, um despropósito. Luzismundo
não resistiu. Enquanto registrava os dados da conversa que travava com o
delegado ia anotando as posições das peças dentro e fora do tabuleiro. Até que
indagou:
– Doutor,
desculpe-me a curiosidade, mas não estou entendendo o jogo que está posto ali
na mesa. Ao que parece, o jogador das peças pretas é um craque, posto já ter
praticamente eliminado as principais peças do seu adversário. Estou certo?
– Não, não está; é
que meu adversário, dono das peças brancas, é um experto em xadrez. E, para
equilibrar o jogo, a cada partida que ganha de mim ele retira mais algumas
peças antes de reiniciarmos a partida. Pior é que ele continua ganhando, e às vezes
só jogamos uma partida quando ele aqui vem. Mas faz três meses que não jogamos,
e as peças do último jogo continuam como deixamos...
– Posso olhar mais
de perto? – pediu Luzismundo, desconfiado com a coincidência, enquanto esticava
os olhos em direção ao tabuleiro.
O detetive ficou
observando e confirmando suas impressões, ou seja, as peças eliminadas
coincidiam com as encontradas na sucessão cronológica dos assassinatos. Estava
claro que o último crime, o da rainha da banheira melosa, ainda não entrara no
jogo. E ocorrera o crime exatamente durante a ausência referida pelo delegado.
E ali, diante do tabuleiro, o detetive teve de se manter frio como CO2,
porque precisava fazer ao delegado uma indagação que, dependendo da resposta,
estaria ele diante do próprio assassino, ou, então, de um coparticipante dos
crimes seriais.
– Doutor, quem é esse jogador tão
especial?
– Espere um pouco,
detetive! Acho que você está abusando da minha hospitalidade. Que merda é essa?
– reagiu o delegado visivelmente irritado.
– Desculpe-me,
doutor! É que eu estou impressionado com a habilidade do seu amigo em jogar
xadrez. Daí meu interesse em saber quem ele é, e até de conhecê-lo. Nada
demais, além de admiração! – mentiu o detetive.
Terminada a
constrangedora conversa, Luzismundo preferiu se despedir e pular fora. Não
tinha mais dúvida de que havia alguma relação entre os crimes e o tabuleiro de
xadrez da casa do delegado. E não perdeu tempo, porque, ao descer, foi direto
ao porteiro puxar uma conversa, para tentar saber algo mais a respeito do
comportamento rotineiro do delegado.
– Meu amigo, eu sou
policial, e gosto muito do delegado Jerônimo. Mas ele é meio nervoso lá na
delegacia. E aqui? Ele é ruim com vocês?
– Que nada! É gente
boa. Só não gosta de conversa e para pouco pra falar com a gente. Mas é sempre
gentil.
– Ele recebe muita
visita?
– Não, quase
nenhuma, a não ser a do doutor Carlos, que de vez em quando vem aqui. E custa a
ir embora. De resto, quem vai muito ao apartamento do doutor é a empregada, mas
só de dia, quando o doutor não está. É muito discreta. Entra e sai, cumprimenta
a gente, mas nunca conversa.
– Diga-me, amigo.
Esse doutor Carlos, como é ele? É gente boa?
– Sei lá! Só sei
que é de pouco falar. Trata a gente bem, se anuncia, sobe e desce sem muito papo.
Tem bastante tempo que não pinta por aqui.
– Você acha que ele
é bem de vida, rico, ou coisa assim? O carro dele é bacana? – insistiu
Luzismundo, gostando da conversa.
– Carrão! Acho que
é importado. Aqui tem até um carro igual, do morador do 303. É um Volvo.
– Puxa, esse é
caro! Amigo, valeu o papo. Qualquer dia apareça lá na delegacia pra tomar um
café. Fique com meu cartão. Se precisar, conte com o amigo.
O astuto detetive
saiu matutando um plano de seguir o delegado e vigiar o prédio dele. Aquilo não
podia ser coincidência. As peças fora do tabuleiro eram idênticas às
encontradas junto aos corpos das vítimas, incluindo-se o peão do rapaz da Zona
Norte. “É, tenho de organizar a vigília com Clarisperto”, pensava Luzismundo
enquanto se dirigia a sua casa decidido a telefonar para o parceiro e
contar-lhe a novidade.
No dia seguinte, o
esquema de vigília estava organizado, agora com o próprio delegado comandando
as ações. Ninguém tinha mais dúvida de que a observação do arguto detetive
procedia. E também se justificava a ausência do adversário do delegado
Jerônimo, porque não havia nenhuma lógica ele retirar algumas peças a mais das
que restaram, porque inviabilizaria o jogo e o delegado certamente perceberia
algo de errado. Ou melhor, não perceberia nada, posto que quem recebia o
adversário era Manuela, e Carlos não era adversário, mas parceiro sexual do
invertido que de jogo nenhum queria saber. Mas isto os policiais
desconheciam...
O tempo escorria e nada de
novidades. Carlos não mais aparecera na casa de Jerônimo, e este pouco saía.
Porém, o capetinha que estava dentro de Jerônimo, que se chamava Manuela,
acabou fazendo Jerônimo partir para a Barra da Tijuca. Mas ele foi seguido
pelos policiais até seu misterioso endereço. E depois, ao vê-lo sair fantasiado
de Manuela, os policiais gracejaram entre si sobre o bom gosto do delegado,
porque ao avistarem a bela mulher, mesmo não a tendo visto entrar na casa, nada
concluíram de anormal. Por isso permaneceram no endereço até a madrugada,
certos de que o delegado de lá não saíra. A bela mulher então retornou, e, uma
hora depois, o delegado partia de volta a Copacabana. Assim o episódio foi
relatado a Luzismundo, tendo ele estranhado. Contudo, não havia como saber de
mais nada além do que os policiais relataram. Ele então resolveu que
esporadicamente também se integraria à vigília.
Não houve novidade nos dias
seguintes. Nem o delegado saiu nem ninguém o visitou. Em compensação, surgiram
mais três mortos dentro de um carro, na Zona Norte. A imprensa logo anunciou
que se tratava de mais um caso de disputa de venda de drogas. E naquele dia a
repórter Alberizéia não fazia a cobertura, senão teria notado que cada vítima
tinha na mão um peão do jogo de xadrez. Mas o fato não passou despercebido a
Clarisperto e Luzismundo, pois eles descobriram que todas as três vítimas eram
travestis, assim como o outro rapaz que fora antes assassinado nas mesmas
circunstâncias...
Aparentemente, se é que faltava
alguma coisa para concluir aquele tirocínio investigativo, tudo veio às claras
dois dias depois. Sim, porque desta feita Luzismundo vigiou o delegado Jerônimo
e o seguiu até a Barra da Tijuca, e depois acompanhou a tal mulher, até que ela
estacionou na Glória e se foi para o trotoir
junto com os demais travestis que lá estavam. Luzismundo, mesmo de longe, não
teve mais dúvida de que o travesti era Jerônimo, constatação que o levou a rir
com seriedade, se é que isto é possível. Sendo ou não, o segredo acabara ali.
Contudo, Luzismundo ainda não havia
conseguido concluir o raciocínio. Decidiu então colar no pé do delegado,
permanecendo dia e noite em sua campana. E ocorreu, finalmente, o fruto do seu
empenho: o delegado saiu de seu apartamento em direção à Barra da Tijuca.
Luzismundo o seguiu, pensando que aquela noite seria como as anteriores. Mas
não. Logo que Jerônimo adentrou a casa surgiu o Volvo azul-marinho de Carlos. O
detetive não sabia que ele era o assassino, mas seu faro policial indicava
claramente a possibilidade, sem descartar a hipótese de o delegado ser um coautor
dos crimes seriais.
Carlos chegou e entrou. Na porta,
esperava-o a bela mulher, que não era outra senão Manuela. Entraram abraçados e
se beijando. Luzismundo deixou passar um tempo e disse ao seu parceiro que o
esperasse no carro e ficasse alerta para pedir reforços, porque ele iria
penetrar na casa para observar de perto o desenrolar dos acontecimentos. O
parceiro o admoestou sobre a lei, o Mandado de Busca, sobre o fato de ser noite
e outras ponderações que em nada interessavam ao detetive: ele decidira correr
o risco e seguiu em frente. Entrou sem ser percebido, foi-se esgueirando pelas
paredes e se acercou de uma janela, quase numa quina de parede, mas que lhe
dava uma perfeita visão do casal no interior da sala. Sim, era um casal, o macho
e a fêmea, pelo menos no visual, ambos sentados numa mesa, tendo à frente um
tabuleiro de xadrez com todas as peças postas, além de uma garrafa de vinho
gelando num balde e duas taças. Nada mais havia sobre a mesa redonda que
acolhia Carlos e Manuela, até então aparentemente enlevados naquele ambiente
acolhedor. Carlos falou primeiro:
– Manuela, eu hoje quero fazer uma
sessão de partidas com você. Não se preocupe, que não tenho hora. Quero curtir a
sua companhia sem pressa. Vou recolocar todas as peças no tabuleiro e recomeçar
o jogo apenas sem uma torre.
E jogaram sem a torre, que
representava Marlene, com Carlos rapidamente vencendo a partida. Em seguida,
ele sugeriu a retirada de mais uma peça, um peão, relativo ao rapaz assassinado
na Zona Norte, porém logo derrotando Manuela nesta segunda partida. Em seguida
retirou um cavalo e a outra torre, as peças de Rogério e Sheila, novamente
dando um xeque-mate na enamorada Manuela, que somente pensava acabar com a
jogatina para partir à outra que mais lhe interessava... Iniciaram a quarta
partida, agora com Carlos retirando de uma só vez três peças: dois bispos e o
outro cavalo. Eram Flávia, a mãe dela e Honório. Aí Jerônimo acordou
momentaneamente de dentro de Manuela, comentando que não haveria como Carlos
vencer.
– Claro que vencerei, querida. E lhe
digo mais: vou retirar a rainha e mais três peões, e ainda assim vou vencer a
partida – desafiou Carlos, enquanto retirava as peças que citara, porém
sugerindo que o jogo prosseguisse mais tarde.
Foi só Carlos partir para as
carícias que Manuela se descontraiu e se assanhou deveras, até que partiram ao
quarto. Luzismundo não perdeu a chance e penetrou na casa ocultando-se na
própria sala, atrás de uma poltrona. De onde estava, podia ver sem ser visto,
mantendo sua arma engatilhada porque, para ele, não havia mais dúvida de que
Carlos era o assassino serial, e que o delegado seria sua próxima vítima, o rei
do tabuleiro, e não a rainha, a mulher morta docemente, a socialite Sara
Targeta. Ou então o delegado e Carlos escolheriam, juntos, a próxima vítima,
uma real possibilidade. Na dúvida, Luzismundo aguardou, dando provas aos
nervos...
Foram duas horas de espera, com
Luzismundo em gelidez ouvindo os gritos e ais vindos do quarto, além de alguns
rugidos ininteligíveis indicando o sexo feroz que acontecia. Depois, o
silêncio, seguido do barulho de banho, e, finalmente, o retorno do casal,
abraçadinhos, à sala e à mesa de jogo. Carlos já vestido como chegara, forte
indício de que ele daria o xeque-mate mortífero no delegado.
– Manuela, veja que retirei quase
todas as peças deste tabuleiro. Você ainda acha que não conseguirei ganhar a
partida? Então, farei mais: como já lhe disse, vou retirar a rainha e mais três
peões. Olhe só como ficou o tabuleiro. Acha que assim vencerei?
– Claro que não! Quando você falou
aquilo, pensei que fosse brincadeira. Não há nem como jogar. O seu rei está
defendido por apenas quatro peões. É certo que ganharei na primeira jogada e
você terá de tombar o rei para mim...
Detrás da poltrona, Luzismundo
tremia: “É Carlos o assassino, e Jerônimo é a próxima vítima. Ou melhor,
Manuela, ou sei lá quem!”, pensava Luzismundo, ansioso para agir. Mas esperou.
– Bem, querido, então comece a
jogar, pra que eu vença logo e a gente volte a fazer algo melhor que jogar
xadrez – insinuou a aparentemente inadvertida bicha.
Neste momento Jerônimo, ou Manuela,
ou tanto faz, viu dentro dos seus olhos a boca do cano da pistola que Carlos
lhe apontava. E ele lhe disse:
– Olha rapaz, hoje é seu dia de
morrer. Eu lhe dei todas as chances de me descobrir como o assassino serial,
mas você não enxergou um palmo diante do nariz. Matei um montão de gente
colocando nas vítimas as peças de xadrez que aqui fui eliminando. Venho fazendo
isso há tempos e você nada. Agora saiba que você é o rei, a peça que irá para
suas mãos geladas. Assim você será encontrado: morto e segurando a peça mais
importante do tabuleiro...
Neste átimo, Luzismundo se levantou
com sua arma apontada para o assassino. Mas ouviu um tiro e o arremesso do
corpo de Carlos a mais de dois metros de distância. Ele caiu com um rombo no
peito enquanto o delegado, sentado, mantinha-se impassível, com uma escopeta
nas mãos, fumegando debaixo da mesa, até que percebeu a presença de Luzismundo.
– Você aqui?...
– Puxa, doutor, ou sei lá o quê! Eu
ia atirar nele, mas você atirou primeiro. Como pôde isso?
– Elementar, detetive. Eu estava
esperando este dia. Eu sabia que o assassino serial era ele. Mas esperava por
este momento, porque queria matá-lo pessoalmente. Eu era apaixonada por ele, e
agora lhe falo como Manuela. E me entristeceu deveras saber que ele era
psicopata. Ele me subestimou, e aí está o resultado, porque eu já deixara esta
escopeta presa debaixo da mesa, o lugar onde certamente ele se vangloriaria
antes de tentar me matar. Teria de ser aqui, mas, se não o fosse, pode estar
certo de que eu venceria esse animal em qualquer lugar.
– Mas, como vou fazer agora? Quem
surgirá matando o assassino, Jerônimo ou Manuela?
– Se você me permitir, vou fazer
desaparecer a Manuela e deixar surgir o Jerônimo. Na verdade, era este que o
assassino desejava vencer. Mas não percebeu que tudo o que fiz até agora fi-lo
por vocação, tanto o exercício da profissão policial quanto o trato do meu lado
mulher. E lhe garanto que pedirei demissão da polícia. Sou rico, não preciso
desse emprego, apesar de adorar a profissão policial. Mas sei que isto me é
impossível. Ademais, desejo sair do país tão logo fique tudo esclarecido. Vou
para um lugar que me permita ser indefinidamente Manuela. Você me ajuda nisso?
– suplicou o delegado, ou o travesti, ou ambos, e Luzismundo concordou na hora,
pois a instituição merecia.
Dois meses depois, Clarisperto e
Luzismundo, no Aeroporto do Galeão, se despediam de Jerônimo. Seria a última
vez que o veriam, pelo menos naquele papel masculino indispensável ao seu
trânsito até chegar ao destino que traçara. Estava de voo marcado para Nova
Iorque, porém não sabia se por lá ficaria, tudo até indicando que não. E ele
(ou ela) estava deveras agradecido (a) aos dois policiais que decidiram
preservar o ex-delegado das chacotas públicas que certamente atingiriam a
instituição policial.
Jerônimo saiu-se do episódio
aclamado por todos. Chegou a ser convidado pelo governador para assumir o cargo
de secretário de segurança, – deixando o outro de saia justa, como se fora
também um travesti, – porque foi ao sacrifício, perdeu a delegacia, e, mesmo
assim, deslindou o caso mais badalado da cidade. Entretanto, recusou todas as
ofertas e se demitiu do cargo. E teve a chance de agradecer à repórter que lhe
salvara a vida sem saber, ao comentar sobre as coincidências das peças de
xadrez. Sim, foi a partir da inferência dela que ele pôde concluir, depois de
um tempo, que era ele o alvo principal do assassino. Ele era o rei!...
Seis meses depois, Clarisperto e
Luzismundo recebem de Jerônimo um cartão postal de Nova Iorque, mais
especificamente do bairro mais badalado da monumental cidade norte-americana: o
Village. Manuela é a foto do cartão, anunciando-a como a mais deslumbrante
atração espanhola do Village. O garotinho de Santa Catarina assumira
definitivamente o seu lado feminino. Sim, tornara-se Manuela de corpo e alma e
levara sua felicíssima mamãe para com ela residir e finalmente curtir a filhota
que tanto almejara ter na vida. Sim, sim, o menino virara menina para sempre;
nunca mais seria o que seu pai inutilmente lhe impusera a troco de pancada:
“Jerônimo, o herói do sertão!”



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