segunda-feira, 17 de abril de 2017

UM DELEGADO MUITO ESPECIAL




 Lá em Santa Catarina, em cidade do interior, certo dia rebentou das entranhas de ansiosa parturiente, luzindo ao mundo dos viventes, mais um bebê de descendência germânica. Chegou lindamente, de olhos verdes e pele alva como a neve, cabelos doirados, assim promovendo incontida alegria no seio da família: de pai, mãe e dois meninos igualmente lindos. Alegria, sim, exceto no caso da mamãe, que no seu íntimo almejava para si uma garotinha. Daí então ela ficou criando o terceiro filhote como se fosse filha, e o resultado não poderia ser outro: o menino foi virando menina... Tal assanhamento chegou aos ouvidos e olhos do pai, que passou a arriar a correia no lombo do coitadinho, submetendo-o a um sofrimento dos diabos, mesmo contando ele com a proteção da mamãe, que interferia em sua defesa apenas fracamente, pois se via subjugada pelo temor do irado marido. Assim, nesse ambiente contraditório, o garotinho cresceu e atingiu a adolescência, reprimido em sua vocação homossexual por via de muita pancada paterna.


A família era muito rica, o que permitiu e até impôs ao adamado mancebo, – diante da insistência do pai em corrigi-lo, – vir cursar advocacia no Rio de Janeiro, por onde se deixou definitivamente ficar, para gáudio do pai e de seus envergonhados irmãos, que não queriam vê-lo nem pintado de ouro. Só quem não gostou foi a coitada da mamãe, que, em sua obsessão, acabou perdendo a oportunidade de se sentir acompanhada da tão almejada filha, pois assim ela tratava o menino, que se chamava Jerônimo, mas que ela somente se lhe dirigia tratando-o por Manuela, estranha antonomásia que ela mesma, a mãe, em seu delírio, destinara ao filho que, por força de sua maluquice, ela queria porque queria que fosse filha.

Na verdade, os violentos castigos paternos, entremeados pelos exagerados afagos maternos, acabaram dividindo o íntimo de Jerônimo, que ora almejava ser homem, por vontade do truculento pai, ora desejava ser mulher, por vontade de sua obcecada mãe. Diante da cruciante dúvida, ele preferiu não mais assumir publicamente sua preferência sexual, tornando-se, pois, um dissimulado travesti, algo, porém, que fazia como se fosse a mais apurada arte.

Foi assim, estudando Direito e agindo duplamente na vida, que Jerônimo chegou a advogado, e em seguida formou-se delegado de polícia; estranha escolha, sim; todavia, foi a que fez e não a podemos mudar, senão aqui terminaria a história. E que se faça justiça ao jovem, pois ele passou em primeiro lugar no concurso e também confirmou sua capacidade ao alcançar a primeira posição no curso de formação.

Em suma, um fenômeno de inteligência, uma sumidade a serviço da lei, um vocacionado policial, apesar dos pesares... Hum... Neste ponto, creio ser necessário adentrar a história para pedir desculpas aos delegados de polícia de todo o Brasil, e assim não entrar em cana por iniciativa de algum menos compreensivo. Seria preferível, sem dúvida, que nosso herói escolhesse ser médico, ou professor, ou buscasse outra vocação qualquer, menos, é claro, ser oficial da PM, especialmente a do Rio de Janeiro, embora não se possa negar que lá também há muitos enrustidos e assumidos... Demais, o destino e a inspiração sempre atuam na mente de um contador de histórias como imperadores irrepreensíveis e incontestáveis. Daí delegado de polícia, mesmo, sem tirar nem pôr, respeitando-se integralmente a opção do nosso herói, que, a exemplo dos russos, também gostava de beijar homem em cumprimento...

Era junho. A chuva fina e o vento frio davam um ar sombrio à noite carioca, tornando-a mais apropriada à clausura, à degustação de vinho ou champanha, e ao sono; ou ao sexo, como decidira Marlene, linda quarentona que vencera na vida e agora curtia seu melhor momento. Nem o inverno desagradável desanimava a morena de olhos verdes e corpo provocante, performance que mantinha desde a juventude.

Marlene nascera em Belo Horizonte, filha de renomado médico. Também sua mãe gozava de boa fama naquela terra como professora universitária. Tudo isso facilitara sua iniciação na atividade empresarial que escolhera após se formar em Economia, ainda em Minas Gerais. Resoluta, a bela morena viera para o Rio de Janeiro montar seu primeiro negócio, uma loja de roupas artesanais vindas de sua terra natal, exclusivas, e que fazia grande sucesso entre as cariocas, especialmente no seu segmento mais fechado – a classe alta. Pois tudo quanto era mulher adorava as roupas que Marlene trazia da terrinha, feitas em peças exclusivas, uma garantia contra os constrangimentos de se verem duas damas da sociedade vestidas numa mesma festa como um par de jarras, algo muito comum em se tratando de roupas caras, porque muitas delas eram ofertadas por picaretas que de quando em quando deixavam em maus lençóis algumas damas useiras e vezeiras em vestir roupas baratas ostentando etiquetas de costureiros renomados.

Mas com Marlene não havia risco de duplicata. As roupas que ela negociava, embora feitas artesanalmente, eram de altíssima qualidade, todas exclusivas e confeccionadas pelas melhores costureiras de Belo Horizonte e cercanias; e ainda levavam etiquetas até internacionais; frias, é claro. Marlene era confiável a esse ponto – nunca comentava para quem teria vendido determinada roupa. Sim, ninguém sabia, a não ser ela própria e a compradora, de modo que não havia perigo de alguma cliente se desmoralizar, apanhada em mentira, ao dizer que trouxera seu modelito direto da França, ou cruzar com outra perua vestida de modo idêntico.

Levando assim seus negócios, Marlene enricou. E nunca quis manter relacionamentos mais amiúde com ninguém, pois o isolamento fazia parte do seu mister: jamais algum homem entrara no seu belo apartamento em Copacabana, descortinando linda vista do mar. Ali era seu refúgio exclusivo, o receptáculo dos seus segredos, um cantinho mineiro impenetrável.


A chuva e o vento se mantinham impertinentes quando Marlene apontou no umbral principal do prédio. Esperava o manobreiro trazer-lhe o carro. Em chegando, ela embarcou e partiu. Estava lindamente arrumada, com um modelo colante e sapatos altos, como gostava. Tinha um estilo vampe, porém sem excessos. Debaixo da vestimenta não levava simplesmente nada, não foram poucas as vezes que gostara de alguém nos ambientes chiques que frequentava e dali mesmo partira ao sexo, apenas levantando a saia, para não estragar o vestido diante de algum impetuoso parceiro.

Em matéria de sexo, tudo era calculado por Marlene, inclusive a coleção de camisinhas, uma garantia a mais contra possíveis doenças. Havia risco, é lógico, no modo como ela se entregava aos homens. Não a qualquer um que lhe surgisse à frente, entenda-se assim, mas aos que, como ela, circulavam pelos lugares mais finos da Zona Sul. Ela também não dispensava as mulheres, com as quais igualmente se comprazia esporadicamente. Enfim, Marlene era o que se poderia definir como uma fêmea sacana para todos os fins, desde que o fim fosse sexo.

Naquela noite, Marlene rumou para o restaurante Le Bec Fin. Pensava jantar e depois ir à boate Hipo se divertir, como regularmente o fazia. E não percebeu que estava sendo seguida... Na verdade, quem a seguia já até lhe destinara discretos olhares no restaurante. Ela retribuíra, inclusive pensando na possibilidade de se entregar àquele primeiro pretendente. Todavia, preferiu esperar outras oportunidades na boate, aonde logo chegou.

Não passou muito tempo, Marlene avistou aquela fisionomia conhecida mirando-a e lhe oferecendo um drinque em meio à confusão dos demais que se divertiam em danças sensuais. Ela sorriu e se acercou dele, um moreno fechado na cor, cabelos negros e olhos verdes, tudo arrumado em 1,80 m de massa musculosa.

– Olá! Acho que já nos vimos hoje – gracejou Marlene ao se aproximar e pegar da mão do homem a taça de champanha.  – Qual é o seu nome? – indagou.

– Carlos. Que bom eu ter vindo pra cá! Não esperava encontrar você, mas acho que o destino nos está providenciando um contrato. Qual é o seu nome? – devolveu Carlos.

– Marlene. E você? Que faz na vida? Vem sempre aqui? – disparou Marlene, tentando dominar seu interlocutor.

– Sou empresário em São Paulo. Moro lá e estou aqui tratando de negócios. Amanhã eu me vou; mas estou feliz por ter conhecido você antes de partir...

Ficaram dançando e conversando, até que saíram. Carlos lhe alegara não estar de carro; partiram então no carro dela rumo à Barra da Tijuca, combinados em ficar olhando o mar... Mas, ora!... Após tanto se esfregarem na boate eles só pensavam transar. E chegaram à praia, postando-se num local apropriado ao deleite amoroso... e ao assassinato, pois ele não cogitava outra coisa...

Contudo, o que houve antes, e em grande intensidade, foi efetivamente sexo, com Marlene tomando a iniciativa, enquanto Carlos, sem que ela o percebesse, pegava debaixo do banco uma corda de seda, preparando um laço de forca com o qual envolveu o pescoço da extasiada mulher, passando a puxar a outra ponta, apertando o laço em precisão de profissional...

Quando amanheceu, lá estava o carro de Marlene, um BMW, parado na beira da praia como se estivesse abandonado. Não mais chovia, e as pessoas iam chegando, algumas tão indiferentes que não perceberam o carro nem viram o que estava dentro dele: um corpo de mulher.

Passado um tempo, porém, finalmente depararam com a bela Marlene enforcada, com a saia recolhida e deixando à mostra suas belas coxas e suas partes mais íntimas. Tudo, porém, inanimado, a corda presa ao pescoço, e em sua mão direita uma pequena peça de madeira: a torre do jogo de xadrez, única testemunha de um crime sem pistas.

Não demorou muito o local ficou apinhado de agentes aguardando a chegada da autoridade policial, o delegado de homicídios, um novato, que surgiu cheio de banca, soltando despautérios contra todos, reclamando que o local do crime não estava bem isolado e outras reverberações desnecessárias, apenas à guisa de aparecer no cenário da imprensa, que dele logo se acercou. O delegado passou a ser o único dono da festa, situando-se em posição mais importante que a defunta, para a qual olhou com certo desdém, porém muito bem dissimulado. Ninguém notou.

Foi um escândalo quando souberam de quem se tratava. A imprensa especulava sobre a morte de Marlene como um inextricável mistério, argumentando que ela teria sido morta por paixão de alguém. E a foto dela, tirada quando fora destaque de Escola de Samba, com seu corpo escultural brilhando diante das luzes, estampou-se em todos os jornais ao lado da outra, terrificante, com ela olhando o nada de olhos esbugalhados.

A perícia concluiu o trabalho e o corpo foi recolhido ao Instituto Médico legal. De prova, somente a torre. E nenhuma testemunha. O exame cadavérico apenas confirmaria que a moça fora morta por enforcamento. Nada, não havia qualquer pista do assassino, e o inquérito dormindo a sono solto na mesa do invejoso delegado, que mais olhava a foto de Marlene no alto do abre-alas do que se preocupava com a apuração do crime. E se via no lugar dela...


O delegado Jerônimo ficara famoso ao deslindar o assassinato de um artista quando trabalhava como adjunto numa delegacia distrital na Zona Sul. Contava apenas cinco meses de profissão, depois de concluir com louvor o seu curso de formação. Fora lotado na distrital por direito de escolha, e logo encarregado da investigação do crime. A sorte, entretanto, estava ao seu lado, porque um telefonema anônimo deu-lhe o azimute em direção aos criminosos: dois jovens que moravam na Zona Norte. Ele partiu no encalço de ambos e os prendeu ainda de posse das armas do crime. Os exames balísticos confirmaram a versão e, no fim de contas, os jovens confessaram o assalto e o assassinato.

Eia!... Da obscuridade à fama foi um pulo, e Jerônimo se viu designado para dirigir a poderosa Delegacia de Homicídios por ordem direta do governador. Houve uma grita danada entre os delegados antigos, que alegavam ser o cargo privativo de delegados de primeira categoria, e Jerônimo era de terceira categoria. Mas como ordem de governador não se discute, o secretário de segurança colocou o jovem delegado na direção da Delegacia de Homicídios e ponto final. E lá estava ele, com o inquérito sobre a mesa, olhando com indisfarçável despeito as fotos, quando tilintou o telefone. Era o secretário de segurança:

– Jerônimo, estou recebendo muita pressão pra elucidar o caso da estilista. Vê se você se dedica um pouco mais! Os delegados antigos andam dizendo que sua atuação no caso do artista não passou de sorte. Quero notícias sobre essa investigação!

Jerônimo ouviu e se melou em ademanes. Sim, Jerônimo permanecera amaneirado, continuava como Manuela nas horas vagas, um segredo que, porém, mantinha a sete chaves. Era ele agora um loiro de média altura, feições finas, unhas cuidadas e de beleza singular, tudo ocultado por uma austeridade e um trajar que não permitiam a ninguém a dúvida de estar diante de um belo exemplar masculino, com vozeirão e tudo mais a confirmar.

– Ambrósio, chame os detetives da Equipe Careta pra falar comigo, e bem rápido! – vociferou o delegado.

Vieram voando, os cinco detetives.

– Ouçam-me com atenção!... Estou com este inquérito sobre a mesa como uma bomba que nos poderá mandar pra roça mais longínqua. Vocês têm uma semana pra me trazer novidades. Trabalhem em tempo integral, pra que eu não me veja obrigado a cortar suas cabeças e manter a minha no lugar. Querem saber?... Farinha pouca, meu pirão primeiro!

– Ora, chefe, acho que o trabalho da perícia foi muito bom. Eles encontraram esperma na boca da vítima indicando que houve sexo oral antes do assassinato. Em minha opinião, estamos diante de um crime praticado por algum psicopata, porém muito inteligente. E aquele nó de forca indica que o assassino é um especialista, não é pessoa comum. Não nos será fácil desvendar o crime. Não há uma só testemunha; temos apenas a peça de xadrez na mão da vítima. Enfim, vamos trabalhar como pudermos...

– É o que lhes estou agora determinando! Quero o autor bem rápido na minha frente! Se virem! Se virem!...

Se virar era o que Jerônimo também gostava de fazer, porém de costas, o que lhe dava incontido prazer desde menininho. E não havia problemas financeiros na vida dele, que poderia até viver de renda e ser apenas Manuela. Ocorre que ele gostava deveras da atividade policial. Por isso fez concurso para delegado, conquistou seu objetivo e se manteve também Jerônimo. Mas o que ninguém poderia até então imaginar era que ele, nas horas de folga, se trajava de boneca e fazia ponto na Glória. Sem dúvida, era uma das bonecas mais elegantes e belas, com jeito fino e astúcia para se livrar dos ataques policiais. E, quando detido por algum deles, já mantinha em suas algibeiras femininas boa quantia em dinheiro, método infalível de convencimento dos mais recalcitrantes. Nunca falhava. Sim, era assim que Jerônimo se virava...


Noite de sexta-feira. Os travestis já postados em seus locais preferenciais à cata de clientes. Entre eles (elas), porém, havia um que não pensava em dinheiro, mas apenas em sexo. E não era somente ali que nele (nela) aflorava a preferência por mangalhos. Desde a hora em que se arrumava, cada detalhe que inseria em si era motivo de ansiedade feminil. Na verdade, Jerônimo se metamorfoseava por dentro e por fora, culminado por se transformar na belíssima mulher que lhe surgia diante do espelho.

Jerônimo mantinha uma discreta casa na Barra da Tijuca somente para assumir esta segunda opção. Aliás, não somente a casa, mas todo o resto, inclusive dois carros na garagem. E vinha levando vida dupla com inteligência e audácia. Até então ninguém jamais poderia supor que aquele travesti da Glória fosse delegado de polícia e dirigente máximo da poderosa Delegacia de Homicídios...


Mais uma noite, muitos clientes transitando, a pé e de carro, todos dispostos a um programa. Logo surgiu um executivo, alto, forte, com um bigodão que metia medo. Manuela se assanhou toda. Combinaram e saíram direto ao motel, e quem visse aquele casal jamais poderia supor que eram dois homens. Na realidade, muitos motoristas que paravam ao lado do carro, nos semáforos, seriam capazes de jurar que eram um homem e uma mulher. Nem tanto, nem tanto, porque, no quarto do motel, Manuela teve de fazer o papel de homem e estocar seu também invertido namorado de bigodão, este que não queria mais que desempenhar o passivo da história, oferecendo a Manuela três vezes o preço geralmente cobrado pelos travestis da Glória. Sim, era um homem casado e aparentemente machão, mas procurava caminhos enviesados para também soltar suas próprias frangas, o que não podia evitar, segundo se justificava para a furiosa Manuela, que quase perdeu a calma e reassumiu o seu lado delegado de polícia contra o efeminado parceiro; porém, preferiu se conter e cumprir o que também sabia fazer, mas não gostava: ser homem. Não fora uma noite agradável para a frustrada Manuela...

Jerônimo retornou ao seu apartamento em Copacabana depois de se desvestir na Barra  e retomar seu papel masculino. Não se diria o principal, pois, na verdade, o outro, de Manuela, é o que lhe era mais importante. E, já refestelado numa confortável poltrona, pensou em seu parceiro constante: Carlos, um moreno fechado na cor, cabelos negros e olhos verdes, tudo arrumado em 1,80 m de massa musculosa. Sim, ele mesmo, o assassino de Marlene! Jerônimo, porém, nada sabia, e pensava com avidez ser mais uma vez estocado pelo homem que amava, o único que lhe conhecia as duas faces e que frequentava normalmente seus dois endereços. “Onde estaria Carlos?”, pensava Jerônimo, mas com cabeça de Manuela...


Duas horas da manhã. Carlos se deixa ficar no restaurante Sobre o Mar, em Copacabana, observando o ambiente enquanto janta. Está nervoso, porém não externa. Olha um amaneirado rapaz que se postara em outra mesa e não lhe desgrudava os olhos. E determina para si que aquele rapaz será sua próxima vítima...
Depois de uma hora, o rapaz pede a conta, paga-a e sai. Carlos já antes saíra. O manobreiro retira o carro da garagem, o rapaz senta-se ao volante e parte, sem pressa, em direção à lagoa Rodrigo de Freitas, pegando depois o caminho da Zona Norte. Não percebe que está sendo seguido e muito menos nota que a morte está a seu lado, num semáforo. Recebe uma carga de tiros abafada por silenciador, caindo de lado, para sempre.

O assassino tem ainda a frieza de descer e jogar sobre o corpo inerte e ensanguentado uma peça de xadrez, um peão, a peça menos importante para um azarado sem nome. Mas naquela noite o que interessava a Carlos era matar alguém, nada mais que isso. Programara-se para agir e não costumava perder a viagem...
No dia seguinte os jornais nada divulgaram porque as pautas já há muito estavam fechadas. A polícia fizera o trabalho de sempre, bem como a perícia, que recolhera a peça de xadrez junto com outros pertences da vítima, não se estabelecendo qualquer relação com o assassinato na praia da Barra da Tijuca. E, como de praxe, o inquérito é despachado para a Delegacia de Homicídios, mas com tratamento normal, ou seja, o desinteresse de sempre por crimes banais, tudo indicando uma cobrança de traficantes, segundo rápida dedução dos investigadores.

Naquele dia, porém, o delegado Jerônimo estava às voltas com o caso da Marlene, que em nada avançara. E novamente entrara a esculhambar os detetives cobrando-lhes resultados; contudo, já sabendo que dificilmente viriam, posto a motivação dos policiais ser proporcional aos seus baixos salários, ou seja, nenhuma.

– Ambrósio, como está o caso Marlene?

– Na mesma, meu chefe. Temos condições até de fechar o caso com boa prova. É possível comparar o DNA do suspeito com as amostras recolhidas pela polícia técnica. Mas até agora não há suspeito, e sem suspeito não haverá prova de DNA. A moça era reservada, não tinha namorado firme e morava sozinha. Fomos ao apartamento dela e nada encontramos que se pudesse vincular ao crime. Ela era frequentadora da alta roda e possuía muitas amizades, especialmente femininas, em razão de sua atividade de estilista. Está difícil, meu chefe, mas estamos nos dedicando ao máximo – completou o detetive Ambrósio.

– Ora, Ambrósio, que bela explicação! Que lindo discurso! Mas o que eu quero é resultado! re-sul-ta-do!!! Ree-sul-taaa-do!!! – explode o delegado sem qualquer trejeito comprometedor, logo expulsando de sua sala o atordoado detetive.

Mas quando sai o policial, o delegado, ainda ouvindo o som de sua ríspida voz ecoando nos seus próprios ouvidos, corre ao banheiro e nele se fecha. Aí é que ele desmunheca deveras, repetindo para si, baixinho, as mesmas palavras insultuosas que dissera ao detetive, inclusive a repetida em rasgos de bicha louca: “Ree-sul-taaa-do!” E depois de bastante voejar em asas do seu lado feminino, torna à postura grave do delegado, todavia contrariado, posto gostar mesmo da outra sempre reprimida além da conta. E pensa em Carlos cheio de paixão...

Quem porventura visse Manuela naquela mesma noite, em casa, enfiada em lindíssima camisola rosa, não acreditaria que ali estava a mesma pessoa que de dia havia espinafrado o detetive Ambrósio. Mas era, sim, a esvoaçante Manuela esperando chegar seu amado, o único que entrava livremente no seu apartamento. E vinha para mais uma noite de entretenimento sexual, mas que, invariavelmente, começava com uma partida de xadrez. Carlos era um experto no jogo e o estava praticando com Manuela.

É possível que o leitor ou a leitora, se ainda não se mandaram da leitura, atemorizados, fiquem a imaginar por que Jerônimo não recebeu Carlos em sua casa da Barra da Tijuca. Têm razão, mas durante a semana era assim que eles faziam, com Manuela surgindo apenas como uma donzela em trajes de dormir, o que era fácil a Jerônimo providenciar sem riscos. Até mesmo à arrumadeira ele alegava que os trajes pertenciam a alguma namorada, que, por óbvio, a arrumadeira, que trabalhava somente de dia, nunca vira. E se ela cria ou não nunca se soube...

– Amor, estou ansiosa pra jogar. Vamos logo começar? – assanha-se Manuela.

– Vamos sim, amor. Vamos começar e terminar rápido, mas quero tomar um bom vinho enquanto jogamos – sugere Carlos.

– Está bem. Pensa que não sei quais são seus gostos? Já botei pra gelar seu vinho preferido e ainda tem uma caixa pra você levar...

E iniciaram a partida, com Carlos dando uma ligeira vantagem a Manuela, retirando do seu lado do tabuleiro uma torre e um peão...

– Que isso, amor? Vai jogar sem a torre da direita e um peão? Assim vou acabar ganhando – insinua-se Manuela. 

Quem pudesse comparar a figura que ali estava, com a outra, da delegacia, não teria qualquer dúvida em afirmar que Manuela é que era a verdadeira, e o delegado, o metamorfoseado, de tão natural e espontâneo se apresentavam os trejeitos da dama que emergia dele.

– Vou jogar sem essas peças, e, se você perder, vou retirando outras até onde der. Mas hoje são apenas essas duas.

Jogaram, e rapidamente Manuela perdeu, talvez até facilitando porque o que ela queria era ir para a cama antes de abrir a segunda garrafa de vinho. E quem também visse aquele casal transando jamais se arriscaria a dizer que eram homossexuais, tamanha era a beleza de Manuela, cujo pinto conseguia ocultar sabe-se lá como, ficando como se efetivamente fosse uma bela mulher, algo treinado desde criancinha...

É verdade, porque Jerônimo até morreria se não se fosse cumprir sua rotina na Glória completamente trajado de boneca de luxo. Era-lhe imprescindível atender à vocação (ou hábito) que lhe vinha da infância. Tinha de ser mulher quase perfeita, assim confundida nas ruas, o que lhe dava inesgotável prazer, ainda ampliado quando lhe vinha a sorte de ser apanhada por um homem de verdade, ou que, pelo menos, fosse exclusivamente ativo. Aí Manuela atingia o extremo gozo da vida dupla que levava. E sempre surpreendia seu parceiro pagando a conta, em vez de receber...


Dois homicídios inextricáveis, nenhuma solução para os casos das peças de xadrez, que nem vinculados foram pelos policiais, que sofriam nas mãos do irascível delegado. Não efetivamente nas mãos, mas em razão de sua voz estridente esculachando-os impertinentemente e a lhes cobrar resultados que não se materializavam.

Assim o tempo escorreu e veio mais um domingo de sol movimentando os cariocas. Na praia de Copacabana, um casal se deleitava sob o sol que despertava morosamente. Pelo modo como se apresentavam, com a pele bastante bronzeada, tudo indicava que o homem e a mulher estavam, há dias, de papo para o sol, que parecia disposto a espantar a chuva por bom tempo.

Rogério e Sheila vieram em roteiro turístico por eles pessoalmente traçado. Nascidos em Recife, de lá trouxeram parte do bronzeado que lhes iluminava os corpos maravilhosos. Ambos eram jovens, na faixa de 23 a 25 anos. Parecia um casal em lua de mel curtindo animada viagem. Estavam no Rio e em Copacabana já no quinto dia, certamente desfrutando de muito sexo, o que lhes transpirava pelos poros ali mesmo, na areia que os acolhia em beijos e amassos intermináveis. Eram apenas namorados e juntos resolveram gozar férias. De longe, porém, eram observados por um moreno que, de óculos escuros, não lhes tirava os olhos de cima. Eles já haviam notado a paquera do estranho, achando interessante o jogo de olhares lascivos.

– Sheila, manja aquele cara que não tira os olhos de cima de nós? – instiga Rogério.

– Sim, notei. Mas ele não olha somente pra mim; também tá tirando uma casquinha de você. Qual será a dele, hein? – responde e indaga Sheila.

– É, parece que isso aqui é comum. Viu quantas boates eróticas têm em Copacabana? Viu como fica a noite, cheia de travestis, prostitutas, garotos de programa e tudo que se possa imaginar em matéria de putaria? – comenta Rogério.

– É, notei. Que você acha da gente ir numa boate dessas? Deve ser legal – sugere Sheila.

– Por mim, tudo bem. Mas, quem entra na chuva quer se molhar. Você tá mesmo a fim de experimentar uma aventura diferente?

– Ora, Rogério, quer oportunidade melhor que esta? Já pensou, vir ao Rio e não fazer nada diferente? – assanha-se a bela morena.

Enquanto trocam impressões descontraidamente, não notam que Carlos deles já se aproximara e ouvira boa parte da conversa. E foi ele quem se acercou do casal sugerindo:

– Olá, tudo bem? Eu estava escutando suas curiosidades, e lhes posso ajudar, se quiserem – coloca o simpático interlocutor dando mostras de ser da terra e conhecedor dos seus bastidores...

Dali a conversa rolou até o sol abandonar a praia. Mas eles ainda permaneceram num bar e combinaram sair mais tarde. Carlos os pegaria em seu carro, no hotel, de onde os três partiriam para um programa diferente, de acordo com o tema que lascivamente conversavam. O casal buscava uma aventura erótica e a teria. Só que seria a última coisa que fariam na parte de cima da terra...

Na hora marcada, à meia-noite, Carlos encostou o seu Volvo na porta do hotel onde Rogério e Sheila o aguardavam. Ela estava deslumbrante, com um vestido branco e transparente que lhe realçava as formas sensuais. Enquanto esperava Carlos chegar, Rogério teve de se esforçar para não se aborrecer com os ávidos olhares masculinos que eram descaradamente dirigidos à sua parceira. Mas, no seu íntimo, estava satisfeito com a inveja dos passantes em vê-lo acompanhando aquele monumento de mulher. Ali, ele estava imbuído da mais completa vaidade de macho, com a fêmea representando somente um objeto de exposição à apreciação gulosa dos transeuntes. 

Mas foi com um pensamento reprovador que Carlos viu a demonstração de narcisismo de Sheila, e ainda enraivecido deveras contra Rogério, o que, porém, nem um pouco externou ao descer e cumprimentá-los, enquanto os solícitos manobreiros abriam as portas do carro para acolhê-los; eles entraram no carro e partiram.

O trio foi direto à boate Eros, ali mesmo, em Copacabana. Entraram e se começaram a extasiar com a decoração voltada para um deslavado erotismo, inclusive o efeito da iluminação, que dava às pessoas um ar de sensualidade ainda mais acentuado. Olharam em torno e se assentaram em posição privilegiada, numa mesa que não só dava uma panorâmica visão do palco, como também lhes garantia certa privacidade. E começaram a ver que ali ninguém era de ninguém, inclusive Sheila, que, ao se dirigir ao banheiro, não deixou de receber na passagem muitos recados, lambidos nas orelhas e algumas beliscadas no seu belo traseiro, tudo, porém, na maior naturalidade.

Sheila se divertia com a situação, atingia o máximo torpor de sua vaidade feminina, também entrando em incontrolável cio; porque, debaixo da mesa, as mãos de Carlos e de Rogério alisavam as suas coxas, e, vez por outra, esbarravam na sua parte mais cobiçada...

Sheila chegava a virar os olhinhos de tanto prazer, este que foi ao clímax quando no palco um casal atingia o orgasmo diante de todos os assistentes, muitos dos quais já por conta da permissividade reinante; e ela, excitada, atracava com as mãos, simultaneamente, os varais masculinos daqueles dois exemplares que a acompanhavam. E eles já se haviam decidido pelo ménage a trois. Pelo menos dois deles assim pensavam: Rogério e Sheila. Porque o outro pensava somente em sangue e morte...

O trio saiu da boate em larga intimidade, e se foi para a casa de Carlos, uma bela mansão no Alto da Boa Vista, lugar discreto e agradável. E lá se deliciaram com a bela e receptiva fêmea, os homens transando com Sheila de tudo que era jeito, ela desesperada de prazer, além de afetada pelo vinho que antes bebera, assim como Rogério. Carlos, não. Este se mantivera sóbrio, apenas fingindo que sorvia a bebida na boate. E foi ele quem se dirigiu ao interior da casa e voltou com as taças de champanha. E dentro delas, misturado, o veneno mortal...

Não passou muito tempo para que o casal se iniciasse numa sonolência e logo se aprofundasse em torpor, como se levados a passeio pelo deus Hipnos. Que nada! Estavam abraçando a silenciosa Dona Morte, que veio implacável e os tirou do mundo dos vivos sem que eles se dessem conta disso, pelos menos do lado de cá, porque do outro evitaremos falar. Em suma, estavam mortos. A partir daí, com uma frieza digna dos mais gelados frigoríficos, ele vestiu os corpos com roupas de banho, – Rogério com uma sunga e Sheila com um biquíni bem provocativo, – e os levou para o carro, arrumando-os no porta-malas. Em seguida, partiu para a praia da Barra da Tijuca, buscando um trecho em que do outro lado somente havia prédios em construção. Ali retirou os cadáveres e os arrumou numa toalha de praia muito enfeitada, tendo até o cuidado de fazer dois travesseiros de areia por baixo. E lá os deixou, como um inocente casal de pombinhos namorados...

No dia seguinte, o sol despejando seus raios na areia, lá estavam Rogério e Sheila em decúbito ventral, ela de biquíni e ele de sunga, com o braço esquerdo por cima das costas dela, como se dormissem enquanto pegavam um belo bronzeado. E assim a morte os mantinha estáticos, até que os circunstantes começaram a desconfiar de que algo de errado havia com o casal. Mesmo assim se distraíam com suas próprias preocupações ou com algum divertimento, quando então um menino, que correra para pegar uma bola inadvertidamente rolada até próximo dos corpos inertes, viu saindo de suas bocas os filetes de sangue e uma espuma amarelada. Gritou de terror, alertando toda a praia que ali o sol não bronzeava mais ninguém. E cada vítima trazia na mão cadaverosa as peças de xadrez: Rogério com um cavalo, e Sheila com a outra torre. O enxadrista continuava matando implacavelmente...

O pânico trouxe rapidamente a polícia. E lá estava ele, Jerônimo, tomando de assalto os holofotes, quando pela primeira vez uma experimentada repórter lhe fez a observação:

– Doutor, é estranho... Essas peças de xadrez nas mãos das vítimas... É o terceiro crime misterioso, e sem motivo aparente, perfazendo um total de quatro vítimas, com todos os cadáveres trazendo peças de xadrez nas mãos. Acho que estamos diante de um assassino serial, de um psicopata frio e calculista. Como o senhor está vendo essas coincidências?...

– Coincidência?... Hum... Ora, é lógico que estamos investigando seriamente esses aspectos e relacionando os fatos para ver se traçamos o perfil do assassino e chegamos até ele; mas, se você divulgar esta versão, eu nego tudo!... – mentiu descaradamente o delegado, que, todavia, se ligou à astuta observação da repórter, esta que, por sua vez, fingiu acreditar na deslavada mentira do delegado e guardou segredo de suas corretas impressões para também não perder sua fonte de informação sempre útil.

Jerônimo ficou acompanhando os trabalhos periciais, porém pensando na espinafrada que daria nos detetives. A imagem de Ambrósio preso num pau-de-arara e levando umas fortes chicotadas não lhe saía da mente, ou então via o infeliz preso a uma cadeira, com os pés dentro de uma bacia de alumínio, levando choques magnéticos no saco e urrando feito porco na hora da facada. “Como eles ainda não haviam notado a coincidência?...”, cogitava, mirando a repórter, que dele também não afastava olhos em desconfiança. Ele sabia que não era muito fácil enganar repórteres policiais, geralmente mais perspicazes que os próprios policiais. E na delegacia, em razão de toda aquela sua apreensão de ter sido apanhado na mentira, Jerônimo descarregou a sua ira em cima de Ambrósio e demais detetives.

– Ambrósio, traga pra mim todos os inquéritos desde a morte da moça na praia!

– Qual moça, chefe?...

– Ai, meu cacete! Será que estou delirando? Porra! Qual foi o inquérito que lhe determinei prioridade de investigação?

– Todos, meu chefe, todos. Estou com dez...

– Tudo bem, está certo, não quero perder minha paciência. Vá buscar o da Marlene! Sabe qual é, ou não lembra mais?... – ironizou o delegado, com todos na sala mantendo-se em silêncio.

– Agora sei, sim, chefe. Vou buscá-lo; mas posso garantir que não há nenhuma novidade, a não ser as cobranças do Ministério Público, que quer porque quer o crime apurado. Por que, então, eles não apuram? Que podemos fazer, sem recursos, e ainda por cima ganhando mal...

– Porra, Ambrósio! Chega de conversa fiada! Vá logo pegar os inquéritos! Aliás, todos aqui façam o mesmo e retornem em duas horas. Está suspensa a reunião. Saiam logo!...

Foi só a sala esvaziar para o delegado correr ao banheiro. Ele estava que não mais se aguentava de vontade de soltar suas reprimidas frangas, e até de botá-las produzindo dúzias e mais dúzias de ovos, tudo porque ficara diante de tantos bonitões... E no banheiro seus trejeitos eram tão exagerados que, quem conseguisse vê-los, decerto pensaria que a pomba-gira baixara com volúpia no corpo dele, ou melhor, dela, de Manuela, que ali se deixava desmunhecar, requebrar, dobrar os pezinhos pra dentro e pra fora, menear a cabeça como se estivesse jogando uma vasta cabeleira pra lá, e pra cá, e pra frente, e pra trás; enfim, dava uma efeminada geral para afastar o mau espírito da masculinidade que ele, Jerônimo, detestava no seu íntimo de autêntico adamado.

Os agentes policiais já faziam bulícios particulares sobre o estranho comportamento do delegado. Afinal, eram todos experimentados, e por mais que o delegado dissimulasse, sempre se lhe escapava algum gesto comprometedor. Certa vez, uns policiais cosiam com os olhos os pezinhos de Jerônimo, que, na distração, se viravam femininamente para o lado de fora, como instintivamente fazem as mulheres. E piorou ainda mais quando ele notou a gafe e quis consertá-la, revirando os pés para a posição masculina. Foi aí que outros gestos se lhe emergiram em descontrole e quase que ele desmunheca diante de todos, e da forma como costumava fazer trancado no banheiro. É lógico que ninguém gracejou na frente da autoridade; porém, quando o adamado se retirou, mesmo distante ele pôde ouvir uma sonora gargalhada. Estava por um fio o segredo do delegado...

Ora bem, duas horas escorreram nervosamente e todos se postaram diante do delegado, que relatou aos subordinados as observações da repórter. Assim, os três fatos marcados pelas peças de xadrez foram separados dos demais, com os policiais concluindo que deveriam juntar os casos e mantê-los com a mesma equipe de investigação. Também o delegado se reuniu com os peritos, de modo a alertá-los sobre as coincidências, para que, a partir daquela data, eles sempre buscassem vinculações que pudessem iluminar as investigações, até então em escuridão absoluta. Havia a torre da Marlene, o peão do rapaz da Zona Norte, e a torre e o cavalo do casal de turistas. Sem dúvida, o assassino estava a brincar com alguém, e ninguém entendia a sucessão de fatos criminosos ligados pelas inextricáveis peças de xadrez.

A segunda-feira fora quente para Jerônimo. Ele se dirigiu a casa, ávido por tomar um vinho e se refestelar numa poltrona. Ainda não lhe ocorrera nenhuma cogitação que levasse os crimes para perto dele próprio. Nem em sonho ele desconfiava de Carlos, em quem sempre pensava, porém com outra intenção... Mas sabia que não era dia de se encontrarem, Carlos lhe avisara que faria uma viagem ao exterior. A ele, ou a ela, a Jerônimo ou a Manuela, conforme você aí decidir, cabia apenas aguardar a volta do preferido...


Dois meses se passaram sem que nada de novo ocorresse. Na verdade, os policiais até esqueceram as recomendações do delegado, este que, por sua vez, também estava cuidando zelosamente do seu lado feminino, sempre cumprindo com prazer sua maratona do bairro da Glória e suas escapadas pelos motéis da vida, ora fêmea, – sua glória máxima, – ora macho, – seu desespero. Na delegacia, os inquéritos entupiam as prateleiras dos casos sem solução, alguns empoeirados de tanto tempo que ali quedavam inertes, tais quais as respectivas vítimas, todas sepultadas nos autos e devidamente enfiadas debaixo de sete palmos. Na realidade, eram dois cemitérios – de inquéritos e de defuntos.

Mas finalmente ocorreu a visita tão esperada por Manuela: seu namorado especial, seu amado, o único recebido no apartamento daquele que todos pensavam ser apenas um austero delegado de polícia, e que, por isso, não censuravam a visita de um homem a outro, apesar de estranharem nunca ali ter subido mulher além da arrumadeira. Mas isto era pouca prova de desvio do lado masculino de alguém para o feminino. Ademais, havia uma tradicional indiferença entre os moradores. Sim, era tudo movido a egoísmo, a individualismo e a outros sentimentos menos qualificáveis. Em resumo, tanto fazia para um morador que o outro se danasse ou fosse feliz em sua vida.

Contudo, naquela noite de uma quinta-feira, em final de outubro, Carlos surgiu cheio de amor pra dar; e encontrou Manuela mais receptiva que nunca. Antes, porém, foram cumprir a rotina do jogo de xadrez, com Carlos agora retirando mais peças do tabuleiro para aumentar as chances do seu adversário, ou de sua adversária, como quiserem. Mas creio que era mais o segundo caso, eis que Manuela veio vindo atender à porta com uma camisola de endoidar qualquer cristão, além de maquiada com um gosto incrível. Com efeito, o danado do Jerônimo, quando se metamorfoseava, ficava mais deslumbrante que qualquer misse, sem desprezo pelas verdadeiras misses.

No tabuleiro, Carlos retirou do meio de suas peças as duas torres, o cavalo e o peão, o que em nada chamou a atenção da ansiosa Manuela, doida para logo perder o jogo e se postar em reverência ao seu príncipe, porém de costas... E Carlos daquilo gostava, ou pelo menos parecia gostar, apesar de sabermos, por simples dedução, que o assassino estava jogando também com o delegado sem ele o perceber...


Nos dois meses em que se escafedeu, Carlos não viajara para o exterior. Apenas sumira do mapa indo para Minas Gerais, hospedando-se numa pousada para descansar. Não o corpo ou a mente, mas a fisionomia, que poderia surgir em algum retrato falado em razão de sua ida ao saguão do hotel pegar o casal que friamente matara, e também de ter com eles ido à boate Eros. Ele mesmo ficou achando que daquela feita lhe faltara frieza, eis que fora vencido por sua ânsia assassina. Aliás, estava agora tomado por ela e por sua incontrolável sede de matar. E sabia como e o que faria para aplacar sua loucura. A vítima já estava escolhida, e talvez até mais vítimas, dependendo do desenrolar do que planejara...

Tudo começara lá mesmo, na pousada, onde Carlos se havia aproximado de uma bela mulher que se hospedara sozinha. Não lhe fora difícil abordar Flávia pensando em transformá-la em sua próxima vítima. Todavia, depois de aprofundar a intimidade com ela, inclusive no leito de prazer, Carlos vislumbrou algo melhor e por ela mesma proposto: matar-lhe o marido, um rico empresário, que a estava traindo com uma donzela.

Flávia, ao contar o seu drama a Carlos, demonstrara-se uma mulher fria e capaz de executar o plano macabro que urdira. Mas não poderia supor que estivesse diante de um assassino profissional. Combinaram que Carlos se hospedaria em sua cidade, na Região Norte do Estado do Rio de Janeiro, e de lá falaria com ela somente por um telefone celular adquirido em nome de terceiro. Tudo planejado, eles passaram então a se encontrar em segredo, com Flávia revelando-lhe os detalhes da vida de Honório, o marido, a futura vítima. Para o pobre-diabo, Carlos já lhe reservara o outro cavalo...

Tudo aconteceu de acordo com as orientações e com o ingrediente fornecido por Carlos: o veneno de sempre, a dose mortal de cianeto, para que fosse ministrado ao inadvertido Honório durante o jantar. Assim foi feito, e Flávia colocou o veneno no suco de laranja, que o marido sorveu e logo esticou os canudos, ficando solucionada uma parte do problema de Flávia, que ainda contou com a ajuda da própria mãe. Coitada da mãe, que de nada sabia e teve de compactuar com a filha assassina.

Foi quando Carlos chegou para dar fim ao corpo e se surpreendeu com a presença da testemunha, um perigo ao seu anonimato. Não titubeou: separou dois bispos e juntou-os ao cavalo, partindo de uma decisão bem prática diante da inesperada situação que lhe surgia: também apagar mãe e filha. Afinal, tanto elas como os bispos usavam saias...

Saíram os três com o corpo no porta-malas do carro de Carlos, que por essa hora, é claro, colocara uma placa fria. Foram até a beira de um profundo rio e lá jogaram o inanimado Honório, as duas sorrindo a festejar o perfeito resultado até aquele estágio do plano.

– Flávia, veja bem, amanhã, logo na primeira hora, você deve ir ao banco sacar tudo da conta de Honório. E deve deixar guardado como dinheiro vivo pra dar a falsa impressão de que ele se mandou mundo afora. Depois de dois dias, você irá à polícia comunicar o desaparecimento dele. Há algum risco porque alguém do banco poderá declarar que você retirou o dinheiro com cheque dele, e não ele, pessoalmente. Mas basta você sustentar que cumpria ordem dele, e fica o dito pelo não dito. 

– Não terá nenhum problema, Carlos. Sempre retirei dinheiro alto da conta dele, e com cheque por ele previamente assinado. Estão acostumados. Ninguém estranhará.

– Ótimo! Vou continuar no hotel e em dois dias eu ligo pra nos encontrarmos. Vamos ver primeiro a repercussão. Enquanto isso, você aja normalmente. Se você tem cheques em branco assinados por Honório, vá amanhã até lá e retire o de sempre, pra não despertar curiosidade. Está certo?

– Sem problema. Vai dar tudo certo, querido...

– Vamos deixar essa história de querido pra depois. Agora, o que interessa é que tudo corra bem – retrucou Carlos, encerrando o assunto e se despedindo da mãe e da filha, olhando-as, porém, como se fossem duas franguinhas que logo estariam assando nas terras de Lúcifer. Afinal, ambas eram coisas-ruins...

Tudo funcionou conforme as orientações de Carlos, que depois de dois dias se encontrou com Flávia e a mãe dela e lhes disse saber de graves suspeitas contra as duas. E lhes sugeriu trazer todo o dinheiro que estava com elas para guardá-lo em local seguro, um sítio nos arredores da cidade. Na verdade, Carlos sabia que o sítio estava vazio através de ligação que fizera à corretora que anunciava a venda do imóvel em jornal. Ele foi à propriedade e viu que servia à execução do seu plano diabólico.

Quando chegaram ao sítio, entraram direto pelo portão principal, cujo cadeado Carlos destruíra antes e apenas o deixara no lugar para dissimular que tinha a chave. Até ali tudo funcionara a contento. Eles se enfiaram com o carro no interior do sítio, indo até a casa, quando então desceram, com Carlos alegando que iria ligar a iluminação, pedindo a ambas que o acompanhassem, tudo em tom tão natural que as incautas de nada desconfiaram... Por isso morreram, porque Carlos sacara sua pistola com silenciador, e o que se viu foram uns rápidos lampejos e mais nada. Somente três dias depois é que os corpos foram descobertos. Lá estavam elas, cada uma com um bispo na mão, os corpos cruzados, mãe embaixo, filha em cima, tudo culminando com o cavalo de pé sobre o cadáver de Flávia, parecendo uma estátua em lembrança de alguma efeméride. E era-o, só que de morte, a morte de Honório, cujo corpo jamais apareceria. Mas ficara o cavalo do jogo de xadrez a homenageá-lo postumamente... E para o assassino sobrou-lhe a fortuna e a garantia do anonimato...

Não foi difícil à polícia deduzir que Honório fora igualmente assassinado. E, para variar, o inquérito foi avocado para a Delegacia de Homicídios em razão das peças de xadrez indicando mais um crime perpetrado pelo misterioso psicopata. E agora toda a imprensa cobrava veementemente uma solução para aquela sucessão de crimes, sem quaisquer pistas do assassino que não fossem as peças de xadrez sugerindo que todos os assassinatos haviam sido praticados pela mesma pessoa. 

Eis novamente o possesso delegado reunido com seus auxiliares, quase que com o cargo pulverizado pelo desprestígio. E deu ordens, e desfez ordens, e andou para lá, e desandou para cá, e transferiu Ambrósio para bem longe, e deu uma verdadeira vassourada na turma de baixo, única forma de continuar sentado na importante cadeira de titular.

Deu certo. A imprensa até elogiou o “pulso firme” do delegado. Nem poderia imaginar que, após toda aquela demonstração de autoridade, ele correra ao banheiro e ficara quase duas horas lá dentro desmunhecando, enquanto os policiais transferidos fuxicavam pelos quatro cantos a invertida preferência sexual do delegado, que logo teve de dar desmentidos e mais desmentidos à imprensa sobre tão absurdas acusações... Foi seu pior momento, porque o pobre-diabo, – ou a pobre-diaba, – teve de fingir uma machidão que nunca antes experimentara. O resultado acabou sendo uma séria contusão nos dois braços, ao mesmo tempo, eis que ele (ela) foi novamente ao banheiro e torceu os pulsos em suas bracejadas, em trejeitos mil, para compensar sua crise de machidão... Fase difícil para Jerônimo, que até pediu férias e se foi ao sertão, onde se confundia com a legendária figura da novela de rádio dos velhos tempos: “Jerônimo, o herói do sertão”, razão da escolha de seu nome pelo pai, que era fã do famoso personagem.

Ora bem, nosso esgotado delegado foi ao imerecido descanso, porque, na verdade, ele nada fizera para elucidar os crimes seriais. Em compensação, a apuração da sua arte de se metamorfosear em Manuela havia alcançado um estágio de genialidade. Agora, porém, Jerônimo se recolhera como tal, dando um tempo a Manuela de também descansar, ela mais que ele, porque suas atividades nunca pararam em tempo algum. Mas, com os dois braços gessados, não houve mesmo jeito de ele fazer sumir o Jerônimo e se manter Manuela...


Foram dois meses de descanso e mais dois de geladeira, porque, é óbvio, o delegado perdeu o comando da Delegacia de Homicídios. Entrou em depressão profunda, somente melhorando seis meses depois e à custa de muito esforço do seu médico. Enquanto isso, na Delegacia de Homicídios, o novo titular já se via às voltas com os crimes seriais, porém sem nada avançar, até que para lá foi transferido um detetive que gozava de grande respeito entre seus pares, porque jamais deixara de deslindar um caso sequer. O engraçado é que ele, para aceitar a missão, solicitou o concurso de um colega seu, com pouco tempo de polícia, típico “menudo”, como assim os mais velhos denominavam os novatos. Ninguém entendeu nada, o que obrigou ao detetive Clarisperto  gastar argumentos para trazer seu parceiro Luzismundo. Foi atendido.

A dupla se instalou uma sala dotada de meios sofisticados de investigação. Além disso, todos os organismos de polícia técnica receberam ordens expressas do secretário de segurança para apoiá-los. Eles eram a última esperança para desvendar aquela intrincada sucessão de crimes, que já se acrescentara de mais um, razão de toda a movimentação porque a vítima, importantíssima figura social, era amiga do próprio governador...


Com efeito, Sara Targeta era badaladíssima na sociedade. Costumava receber amigos e penetras em festas espetaculares. Dinheiro não faltava à bela mulher para promover suas regaladas festas: ela era rica de esparramar grana pra todos os lados sem jamais acabar. Sim, era até dona de banco, que, enquanto ia muito mal, ela ia muito bem. Sim, sim, era uma festa por semana, o que lhe garantia ser notícia nas colunas sociais todos os domingos. Só não sabia ela que havia um assassino que a marcara como rainha dum certo jogo...

Carlos, porém, não se aproximou de Sara com tanta facilidade. Ia às festas, e até se tornara íntimo de algumas amigas do seu alvo. Mas Sara não se ligava muito em homens. Sua preferência era por parceiras, o que impediu o assassino de armar com ela uma amizade para depois eliminá-la em estilo. Ele não deixava de observá-la nas festas, com seus ouvidos colados nas conversas, até que um dia ouviu-a comentar que estava precisando de grande quantidade de mel para ficar imersa nele, numa banheira, durante três horas, recomendação de uma especialista em beleza. Mas o mel chamou a mosca para perto de si. E a mosca tinha nome: Carlos.

– Sara, ouvi por acaso que você precisa de mel...

– Quem é você?

– Sou amigo da Márcia. Vou chamá-la pra reclamar da falta de apresentação. Sou seu admirador. Sua festa está linda! – exagerou Carlos, para atraí-la pela meada de sua excessiva vaidade feminina.

– Não, não é preciso chamá-la, eu acredito! Você pode mesmo conseguir o mel?

– Quantos milhares de litros você quer? É só dizer, que lhe providencio – brincou Carlos.

– Que ótimo! Dá pra você me ligar amanhã pra conversarmos com mais calma? 

– Boa ideia! Mas esqueça-se do mel; isto é problema do passado...

Carlos telefonou logo cedo para Sara combinando levar-lhe o mel à noite. Ela ainda facilitou as coisas, havia dispensado a criadagem que trabalhara na festa até de madrugada. A chegada de Carlos, de táxi, não despertou atenção, eis que o porteiro fora antes avisado. E Carlos dispensou qualquer ajuda para subir com o mel pela entrada de serviço: 96 litros arrumados em 4 engradados, cada qual com 24 litros de mel. E não lhe fora difícil o transporte até o elevador de serviço. Era forte o suficiente. 

Uma cabeleira postiça e óculos escuros garantiam seu disfarce. Mas nem precisaria, posto o nordestino que o atendera fizera-o sem se preocupar em fitá-lo. Era hábito dele não observar moradores ou visitas recomendadas, sua melhor credencial para se manter empregado. Poderia ser, sim, uma possível testemunha, porém péssima em todos os sentidos. 

– Sara, vou despejar o mel na banheira. São muitas garrafas e o mel desce devagar. Com nós dois derramando-o, logo você poderá mergulhar nesse doce celestial – descontraiu Carlos assim que ela abriu a porta, toda contente.

– Puxa, Carlos! Nem sei como lhe agradecer. Quero que você me diga quanto custou.

– Nem pensar. Faço questão de voltar outras vezes, e com todo o mel que você quiser. Além de ser uma despesa insignificante, eu seria capaz de pagar muito mais pra lhe dar algum prazer. Afinal, tenho tido muitos em suas festas.

Ambos riram às bandeiras despregadas e foram despejar o mel na banheira, perfumando o ar com o seu olor agradável, e ocultando o outro, o da morte, que somente se descobriria no dia seguinte: um corpo de mulher mergulhado na doçura do líquido, segurando numa das mãos uma rainha, a segunda peça em importância dentro do tabuleiro de xadrez. “É doce a morte!”, diziam as manchetes dos jornais que divulgaram o terrível assassinato de Sara Targeta. Menos uma dama socialite nas colunas sociais e mais um túmulo no cemitério a igualar ricos e pobres.


Clarisperto e Luzismundo debruçaram-se sobre os volumosos processos dos crimes seriais. Já haviam até desenhado um tabuleiro de xadrez num papel pardo preso à parede. Tentavam associar os locais, as vítimas, os métodos de assassinato etc., com o escopo de primeiramente deslindar os motivos do assassino. Contudo, e por mais que se dedicassem, nada descobriam de novidade. Foi aí que Luzismundo sugeriu a Clarisperto que fizessem contato com o delegado Jerônimo para ver se ele poderia ajudar nas investigações. Pensaram também em procurar alguns PMs especialistas em investigações espíritas, mas logo desistiram da ideia porque aqueles que assim investigavam, olhando bolas de cristal ou vendo criminosos em fumaças de charutos, chamavam logo os repórteres que acreditavam nesse tipo de apuração além-túmulo, para então receberem os focos dos seus holofotes e o espocar das lâmpadas de fotografias risonhas. E costumavam a apontar inocentes como se fossem culpados de crimes que não cometeram somente para ganhar notoriedade e aplauso de pessoas estultas, porém ansiosas em também aparecer acusando inocentes. Por essas e outras razões o concurso dos macumbeiros foi descartado pela dupla de detetives, que preferiu seguir sozinha, com técnica e racionalidade, em direção ao criminoso, mesmo que levasse mais tempo investigando. Ficou combinado que Luzismundo seria o encarregado de contatar Jerônimo, o que decidiu fazer pessoalmente indo à casa do arrasado delegado, enquanto Clarisperto se dedicava a outras vertentes investigatórias.

Quando o porteiro anunciou a presença de Luzismundo no seu prédio, Jerônimo estremeceu. Pois estava ele vestido de ela, curtindo a leitura de poesias, meio que escolheu para fugir à depressão que se instalara em seu pobre coração feminil. Nem tanto por ter perdido o cargo de dirigente da Delegacia de Homicídio, que ele até achava legal, mas pela ausência de Carlos, que há três meses não lhe telefonava. Assim, sem atividade, e saudoso, acabou tristonho e depressivo, deixando até de curtir a Glória, – o bairro, – e a glória, – o esplendor, – de se travestir de mulher. Pediu ao porteiro uma hora de trégua e correu aos aposentos para retomar seu desagradável papel de Jerônimo. Luzismundo ficou aguardando, até que recebeu o aviso para subir.

– Bom dia, doutor. Sou o detetive Luzismundo. Vim aqui pra ver se o senhor pode ajudar no deslinde daqueles crimes seriais. Todos dizem que o doutor é muito inteligente e perspicaz. Por isso vim pedir-lhe ajuda – completou o detetive, enquanto percorria com os olhos o ambiente da sala, mais por mania de bisbilhotar.

– Pois não, detetive. Agradeço os elogios, mas estou até pensando em pedir demissão da polícia. Ando muito magoado com os últimos acontecimentos – devolveu o delegado, enquanto também bisbilhotava o vergalho de Luzismundo, o que quase acendeu a Manuela dentro do Jerônimo.

Contudo, a olhada do detetive esbarrou no tabuleiro de xadrez colocado sobre uma pequena mesa rodeada por duas cadeiras. As peças estavam arrumadas, exceto algumas, brancas, que se encontravam tombadas fora do tabuleiro, este que, por sua vez, continha quase todas as peças pretas em posição, tudo indicando que as brancas haviam sido tomadas pelo jogador das pretas. 

Luzismundo, que entendia do jogo, e que, por causa da apuração, ainda o estava estudando com mais afinco, estranhou que o jogador das peças pretas não tivesse perdido além três peões e um cavalo, enquanto seu adversário se encontrava sem as duas torres, os dois bispos, os dois cavalos e um peão, um despropósito. Luzismundo não resistiu. Enquanto registrava os dados da conversa que travava com o delegado ia anotando as posições das peças dentro e fora do tabuleiro. Até que indagou:

– Doutor, desculpe-me a curiosidade, mas não estou entendendo o jogo que está posto ali na mesa. Ao que parece, o jogador das peças pretas é um craque, posto já ter praticamente eliminado as principais peças do seu adversário. Estou certo?

– Não, não está; é que meu adversário, dono das peças brancas, é um experto em xadrez. E, para equilibrar o jogo, a cada partida que ganha de mim ele retira mais algumas peças antes de reiniciarmos a partida. Pior é que ele continua ganhando, e às vezes só jogamos uma partida quando ele aqui vem. Mas faz três meses que não jogamos, e as peças do último jogo continuam como deixamos...

– Posso olhar mais de perto? – pediu Luzismundo, desconfiado com a coincidência, enquanto esticava os olhos em direção ao tabuleiro.

O detetive ficou observando e confirmando suas impressões, ou seja, as peças eliminadas coincidiam com as encontradas na sucessão cronológica dos assassinatos. Estava claro que o último crime, o da rainha da banheira melosa, ainda não entrara no jogo. E ocorrera o crime exatamente durante a ausência referida pelo delegado. E ali, diante do tabuleiro, o detetive teve de se manter frio como CO2, porque precisava fazer ao delegado uma indagação que, dependendo da resposta, estaria ele diante do próprio assassino, ou, então, de um coparticipante dos crimes seriais. 

– Doutor, quem é esse jogador tão especial?

– Espere um pouco, detetive! Acho que você está abusando da minha hospitalidade. Que merda é essa? – reagiu o delegado visivelmente irritado.

– Desculpe-me, doutor! É que eu estou impressionado com a habilidade do seu amigo em jogar xadrez. Daí meu interesse em saber quem ele é, e até de conhecê-lo. Nada demais, além de admiração! – mentiu o detetive.

Terminada a constrangedora conversa, Luzismundo preferiu se despedir e pular fora. Não tinha mais dúvida de que havia alguma relação entre os crimes e o tabuleiro de xadrez da casa do delegado. E não perdeu tempo, porque, ao descer, foi direto ao porteiro puxar uma conversa, para tentar saber algo mais a respeito do comportamento rotineiro do delegado.

– Meu amigo, eu sou policial, e gosto muito do delegado Jerônimo. Mas ele é meio nervoso lá na delegacia. E aqui? Ele é ruim com vocês?

– Que nada! É gente boa. Só não gosta de conversa e para pouco pra falar com a gente. Mas é sempre gentil.

– Ele recebe muita visita?

– Não, quase nenhuma, a não ser a do doutor Carlos, que de vez em quando vem aqui. E custa a ir embora. De resto, quem vai muito ao apartamento do doutor é a empregada, mas só de dia, quando o doutor não está. É muito discreta. Entra e sai, cumprimenta a gente, mas nunca conversa.

– Diga-me, amigo. Esse doutor Carlos, como é ele? É gente boa?

– Sei lá! Só sei que é de pouco falar. Trata a gente bem, se anuncia, sobe e desce sem muito papo. Tem bastante tempo que não pinta por aqui.

– Você acha que ele é bem de vida, rico, ou coisa assim? O carro dele é bacana? – insistiu Luzismundo, gostando da conversa.

– Carrão! Acho que é importado. Aqui tem até um carro igual, do morador do 303. É um Volvo.

– Puxa, esse é caro! Amigo, valeu o papo. Qualquer dia apareça lá na delegacia pra tomar um café. Fique com meu cartão. Se precisar, conte com o amigo.

O astuto detetive saiu matutando um plano de seguir o delegado e vigiar o prédio dele. Aquilo não podia ser coincidência. As peças fora do tabuleiro eram idênticas às encontradas junto aos corpos das vítimas, incluindo-se o peão do rapaz da Zona Norte. “É, tenho de organizar a vigília com Clarisperto”, pensava Luzismundo enquanto se dirigia a sua casa decidido a telefonar para o parceiro e contar-lhe a novidade.

No dia seguinte, o esquema de vigília estava organizado, agora com o próprio delegado comandando as ações. Ninguém tinha mais dúvida de que a observação do arguto detetive procedia. E também se justificava a ausência do adversário do delegado Jerônimo, porque não havia nenhuma lógica ele retirar algumas peças a mais das que restaram, porque inviabilizaria o jogo e o delegado certamente perceberia algo de errado. Ou melhor, não perceberia nada, posto que quem recebia o adversário era Manuela, e Carlos não era adversário, mas parceiro sexual do invertido que de jogo nenhum queria saber. Mas isto os policiais desconheciam...


O tempo escorria e nada de novidades. Carlos não mais aparecera na casa de Jerônimo, e este pouco saía. Porém, o capetinha que estava dentro de Jerônimo, que se chamava Manuela, acabou fazendo Jerônimo partir para a Barra da Tijuca. Mas ele foi seguido pelos policiais até seu misterioso endereço. E depois, ao vê-lo sair fantasiado de Manuela, os policiais gracejaram entre si sobre o bom gosto do delegado, porque ao avistarem a bela mulher, mesmo não a tendo visto entrar na casa, nada concluíram de anormal. Por isso permaneceram no endereço até a madrugada, certos de que o delegado de lá não saíra. A bela mulher então retornou, e, uma hora depois, o delegado partia de volta a Copacabana. Assim o episódio foi relatado a Luzismundo, tendo ele estranhado. Contudo, não havia como saber de mais nada além do que os policiais relataram. Ele então resolveu que esporadicamente também se integraria à vigília.

Não houve novidade nos dias seguintes. Nem o delegado saiu nem ninguém o visitou. Em compensação, surgiram mais três mortos dentro de um carro, na Zona Norte. A imprensa logo anunciou que se tratava de mais um caso de disputa de venda de drogas. E naquele dia a repórter Alberizéia não fazia a cobertura, senão teria notado que cada vítima tinha na mão um peão do jogo de xadrez. Mas o fato não passou despercebido a Clarisperto e Luzismundo, pois eles descobriram que todas as três vítimas eram travestis, assim como o outro rapaz que fora antes assassinado nas mesmas circunstâncias...

Aparentemente, se é que faltava alguma coisa para concluir aquele tirocínio investigativo, tudo veio às claras dois dias depois. Sim, porque desta feita Luzismundo vigiou o delegado Jerônimo e o seguiu até a Barra da Tijuca, e depois acompanhou a tal mulher, até que ela estacionou na Glória e se foi para o trotoir junto com os demais travestis que lá estavam. Luzismundo, mesmo de longe, não teve mais dúvida de que o travesti era Jerônimo, constatação que o levou a rir com seriedade, se é que isto é possível. Sendo ou não, o segredo acabara ali.

Contudo, Luzismundo ainda não havia conseguido concluir o raciocínio. Decidiu então colar no pé do delegado, permanecendo dia e noite em sua campana. E ocorreu, finalmente, o fruto do seu empenho: o delegado saiu de seu apartamento em direção à Barra da Tijuca. Luzismundo o seguiu, pensando que aquela noite seria como as anteriores. Mas não. Logo que Jerônimo adentrou a casa surgiu o Volvo azul-marinho de Carlos. O detetive não sabia que ele era o assassino, mas seu faro policial indicava claramente a possibilidade, sem descartar a hipótese de o delegado ser um coautor dos crimes seriais.

Carlos chegou e entrou. Na porta, esperava-o a bela mulher, que não era outra senão Manuela. Entraram abraçados e se beijando. Luzismundo deixou passar um tempo e disse ao seu parceiro que o esperasse no carro e ficasse alerta para pedir reforços, porque ele iria penetrar na casa para observar de perto o desenrolar dos acontecimentos. O parceiro o admoestou sobre a lei, o Mandado de Busca, sobre o fato de ser noite e outras ponderações que em nada interessavam ao detetive: ele decidira correr o risco e seguiu em frente. Entrou sem ser percebido, foi-se esgueirando pelas paredes e se acercou de uma janela, quase numa quina de parede, mas que lhe dava uma perfeita visão do casal no interior da sala. Sim, era um casal, o macho e a fêmea, pelo menos no visual, ambos sentados numa mesa, tendo à frente um tabuleiro de xadrez com todas as peças postas, além de uma garrafa de vinho gelando num balde e duas taças. Nada mais havia sobre a mesa redonda que acolhia Carlos e Manuela, até então aparentemente enlevados naquele ambiente acolhedor. Carlos falou primeiro:

– Manuela, eu hoje quero fazer uma sessão de partidas com você. Não se preocupe, que não tenho hora. Quero curtir a sua companhia sem pressa. Vou recolocar todas as peças no tabuleiro e recomeçar o jogo apenas sem uma torre.

E jogaram sem a torre, que representava Marlene, com Carlos rapidamente vencendo a partida. Em seguida, ele sugeriu a retirada de mais uma peça, um peão, relativo ao rapaz assassinado na Zona Norte, porém logo derrotando Manuela nesta segunda partida. Em seguida retirou um cavalo e a outra torre, as peças de Rogério e Sheila, novamente dando um xeque-mate na enamorada Manuela, que somente pensava acabar com a jogatina para partir à outra que mais lhe interessava... Iniciaram a quarta partida, agora com Carlos retirando de uma só vez três peças: dois bispos e o outro cavalo. Eram Flávia, a mãe dela e Honório. Aí Jerônimo acordou momentaneamente de dentro de Manuela, comentando que não haveria como Carlos vencer.

– Claro que vencerei, querida. E lhe digo mais: vou retirar a rainha e mais três peões, e ainda assim vou vencer a partida – desafiou Carlos, enquanto retirava as peças que citara, porém sugerindo que o jogo prosseguisse mais tarde.

Foi só Carlos partir para as carícias que Manuela se descontraiu e se assanhou deveras, até que partiram ao quarto. Luzismundo não perdeu a chance e penetrou na casa ocultando-se na própria sala, atrás de uma poltrona. De onde estava, podia ver sem ser visto, mantendo sua arma engatilhada porque, para ele, não havia mais dúvida de que Carlos era o assassino serial, e que o delegado seria sua próxima vítima, o rei do tabuleiro, e não a rainha, a mulher morta docemente, a socialite Sara Targeta. Ou então o delegado e Carlos escolheriam, juntos, a próxima vítima, uma real possibilidade. Na dúvida, Luzismundo aguardou, dando provas aos nervos...

Foram duas horas de espera, com Luzismundo em gelidez ouvindo os gritos e ais vindos do quarto, além de alguns rugidos ininteligíveis indicando o sexo feroz que acontecia. Depois, o silêncio, seguido do barulho de banho, e, finalmente, o retorno do casal, abraçadinhos, à sala e à mesa de jogo. Carlos já vestido como chegara, forte indício de que ele daria o xeque-mate mortífero no delegado.

– Manuela, veja que retirei quase todas as peças deste tabuleiro. Você ainda acha que não conseguirei ganhar a partida? Então, farei mais: como já lhe disse, vou retirar a rainha e mais três peões. Olhe só como ficou o tabuleiro. Acha que assim vencerei?

– Claro que não! Quando você falou aquilo, pensei que fosse brincadeira. Não há nem como jogar. O seu rei está defendido por apenas quatro peões. É certo que ganharei na primeira jogada e você terá de tombar o rei para mim...

Detrás da poltrona, Luzismundo tremia: “É Carlos o assassino, e Jerônimo é a próxima vítima. Ou melhor, Manuela, ou sei lá quem!”, pensava Luzismundo, ansioso para agir. Mas esperou. 

– Bem, querido, então comece a jogar, pra que eu vença logo e a gente volte a fazer algo melhor que jogar xadrez – insinuou a aparentemente inadvertida bicha.

Neste momento Jerônimo, ou Manuela, ou tanto faz, viu dentro dos seus olhos a boca do cano da pistola que Carlos lhe apontava. E ele lhe disse:

– Olha rapaz, hoje é seu dia de morrer. Eu lhe dei todas as chances de me descobrir como o assassino serial, mas você não enxergou um palmo diante do nariz. Matei um montão de gente colocando nas vítimas as peças de xadrez que aqui fui eliminando. Venho fazendo isso há tempos e você nada. Agora saiba que você é o rei, a peça que irá para suas mãos geladas. Assim você será encontrado: morto e segurando a peça mais importante do tabuleiro...

Neste átimo, Luzismundo se levantou com sua arma apontada para o assassino. Mas ouviu um tiro e o arremesso do corpo de Carlos a mais de dois metros de distância. Ele caiu com um rombo no peito enquanto o delegado, sentado, mantinha-se impassível, com uma escopeta nas mãos, fumegando debaixo da mesa, até que percebeu a presença de Luzismundo.

– Você aqui?...

– Puxa, doutor, ou sei lá o quê! Eu ia atirar nele, mas você atirou primeiro. Como pôde isso?

– Elementar, detetive. Eu estava esperando este dia. Eu sabia que o assassino serial era ele. Mas esperava por este momento, porque queria matá-lo pessoalmente. Eu era apaixonada por ele, e agora lhe falo como Manuela. E me entristeceu deveras saber que ele era psicopata. Ele me subestimou, e aí está o resultado, porque eu já deixara esta escopeta presa debaixo da mesa, o lugar onde certamente ele se vangloriaria antes de tentar me matar. Teria de ser aqui, mas, se não o fosse, pode estar certo de que eu venceria esse animal em qualquer lugar.

– Mas, como vou fazer agora? Quem surgirá matando o assassino, Jerônimo ou Manuela?

– Se você me permitir, vou fazer desaparecer a Manuela e deixar surgir o Jerônimo. Na verdade, era este que o assassino desejava vencer. Mas não percebeu que tudo o que fiz até agora fi-lo por vocação, tanto o exercício da profissão policial quanto o trato do meu lado mulher. E lhe garanto que pedirei demissão da polícia. Sou rico, não preciso desse emprego, apesar de adorar a profissão policial. Mas sei que isto me é impossível. Ademais, desejo sair do país tão logo fique tudo esclarecido. Vou para um lugar que me permita ser indefinidamente Manuela. Você me ajuda nisso? – suplicou o delegado, ou o travesti, ou ambos, e Luzismundo concordou na hora, pois a instituição merecia.


Dois meses depois, Clarisperto e Luzismundo, no Aeroporto do Galeão, se despediam de Jerônimo. Seria a última vez que o veriam, pelo menos naquele papel masculino indispensável ao seu trânsito até chegar ao destino que traçara. Estava de voo marcado para Nova Iorque, porém não sabia se por lá ficaria, tudo até indicando que não. E ele (ou ela) estava deveras agradecido (a) aos dois policiais que decidiram preservar o ex-delegado das chacotas públicas que certamente atingiriam a instituição policial.

Jerônimo saiu-se do episódio aclamado por todos. Chegou a ser convidado pelo governador para assumir o cargo de secretário de segurança, – deixando o outro de saia justa, como se fora também um travesti, – porque foi ao sacrifício, perdeu a delegacia, e, mesmo assim, deslindou o caso mais badalado da cidade. Entretanto, recusou todas as ofertas e se demitiu do cargo. E teve a chance de agradecer à repórter que lhe salvara a vida sem saber, ao comentar sobre as coincidências das peças de xadrez. Sim, foi a partir da inferência dela que ele pôde concluir, depois de um tempo, que era ele o alvo principal do assassino. Ele era o rei!...


Seis meses depois, Clarisperto e Luzismundo recebem de Jerônimo um cartão postal de Nova Iorque, mais especificamente do bairro mais badalado da monumental cidade norte-americana: o Village. Manuela é a foto do cartão, anunciando-a como a mais deslumbrante atração espanhola do Village. O garotinho de Santa Catarina assumira definitivamente o seu lado feminino. Sim, tornara-se Manuela de corpo e alma e levara sua felicíssima mamãe para com ela residir e finalmente curtir a filhota que tanto almejara ter na vida. Sim, sim, o menino virara menina para sempre; nunca mais seria o que seu pai inutilmente lhe impusera a troco de pancada: “Jerônimo, o herói do sertão!”

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